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Paixão amazônica (1)

Lúcio Flávio Pinto - 05/02/2024

As necessidades de guerra fizeram o mundo voltar à Amazônia na metade da década de 1940. Desta vez, tanto para se suprir de borracha as tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial, cujo acesso fora bloqueado no Oriente pelo ingresso do Japão na conflagração, quanto para estabelecer na região uma base definitiva.

 

Entretanto, não foram apenas os estrangeiros que definiram sua posição em relação à maior fronteira de recursos naturais do planeta: o próprio Brasil decidiu incorporar de vez ao seu território a sua parte maior, que representava mais de 50% do país, mas vivia como à margem da economia nacional. Paradoxalmente, essa ofensiva de “integração nacional”, apesar de promovida para prevenir a internacionalização da região, sempre em causa, acabou por acelerá-la. Afinal, fantasias geopolíticas à parte, era o que se pretendia mesmo.

 

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Interesses nacionais e internacionais travaram alguns duelos na Amazônia. Na maioria das situações, porém, esse conflito foi mais retórico do que real, as palavras de ordem geopolíticas funcionando como um canto de sereia ou um boi de piranha. Na essência, tais interesses se combinaram ao impor um ritmo acelerado de ocupação da região, à base de uma migração intensa e extensa, no desenvolvimento de atividades produtivas estabelecidas para atender demandas externas, tanto do Brasil quanto de outros países, mas nem sempre – ou apenas excepcionalmente – afinadas com a geografia e a história locais.

 

Uma das conseqüências desse “modelo” de desenvolvimento foi o deslocamento das elites locais do processo decisório e o atropelamento da continuidade histórica regional, dois elementos agregados às características gerais do subdesenvolvimento nacional (como a exploração do trabalho e a concentração da renda).

 

Eles impõem à Amazônia a condição de colônia, em dupla dimensão – nacional e internacional – sujeita a decisões tomadas fora do seu território e independentemente da sua vontade (sem que até mesmo esteja em condições de orientar sua vontade de acordo com o enredo real e imediato da sua história, retardada na compreensão do tempo).

 

A ocupação em polos, conforme foram definidos no Polamazônia, da metade dos anos 70, com o conhecimento gerado por alta tecnologia (usando satélites) sobre as riquezas regionais, implantou os enclaves, que concentraram a renda da produção desses bens no entorno diretamente sob a influência dos “grandes projetos”, a joia da coroa colonialista, e no exterior.

 

A formulação e consolidação desse “modelo” ocorreu entre as décadas de 1950 e 1970. A partir daí tudo o que tem ocorrido é consequência dessa alteração das variáveis principais do processo da vida na região. Essa cultura imposta pelo colonizador, fez com que as expectativas e desejos dos nativos se frustrarem, sua identidade ruir e seu futuro ser coberto pela névoa densa dos processos que, mesmo seguindo um roteiro traçado, acabam engendrando mecanismos irracionais destruidores. Numa região de fronteira, na qual o agente principal está de passagem, o futuro tem fôlego curto.

 

Em um texto que escrevi em 2000 e agora amplio e complemento, procurei registrar as marcas dessa trilha em quatro significativos capítulos. Num deles, através de uma excursão de 30 geógrafos e professores de geografia que visitaram a Amazônia, em 1956, o mundo amazônico é um universo de valores à espera dos homens de boa vontade e competência. O passado não serve de referência, tantos são os erros cometidos pelas elites locais. Foi ignorada a ação concreta do nativo, que remonta a alguns milhares de anos, antes da presença europeia se estabelecer e se impor.

 

O futuro ainda é um livro em aberto, porém inacessível aos verdadeiros pioneiros da história amazônica, apesar da retórica em contrário. No novo capítulo que se vive agora, a ecologia tentando ser um fator decisivo para a avaliação mais correta da Amazônia, o vício centralista do agente colonial ainda se mantém.

 

No capítulo dois está o roteiro desse mundo em transição. O espaço dominante ainda é o das várzeas, local da mais antiga ocupação humana e, por isso, de sua competência. Mas já começa o avanço pela terra-firme. Ele ainda é sujeito a controles, mas está próxima a derrocada da última fase em que a Amazônia teve veleidades de autonomia.

 

O otimismo de fazer a própria história está contido na peça publicitária de uma agência de propaganda que se tornou porta-voz da elite dirigente local. Ela ainda tinha a esperança (ou a ilusão) de que poderia embarcar na nau dos novos donos do pedaço. Disse o que queria. Mas já não tinha o poder de fazer suas palavras se transformarem em decisões.

 

As decisões vieram através do II PDA, o plano quinqüenal (1975/79) elaborado pela administração Geisel como o capítulo regional do II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), através do qual a aliança Estado-grande empresa colocaria o Brasil na companhia das superpotências, a mais nova delas. Em setembro de 1974 publiquei nas páginas de O Estado de S. Paulo a primeira reportagem sobre esse plano, em seguida reproduzida em O Liberal, de Belém. A leitura desse documento, de 334 páginas, reforçaria a decisão que eu estava tomando de voltar a morar na Amazônia, depois de girar durante alguns anos entre o Rio de Janeiro e São Paulo em torno das melhores possibilidades profissionais e pessoais do tal do Sul Maravilha.

 

A leitura do documento já era em si mesma chocante o bastante para não deixar dúvida quanto ao destino colonial que Brasília havia definido para a Amazônia. Tratei de noticiar imediatamente o conteúdo do plano, convencido de que o nativo sofreria o mesmo impacto que eu tivera durante a leitura do documento, e também reagiria. Mas houve poucos comentários. Nenhuma iniciativa prática. Escrevi seguidamente então sobre o PDA, um papel no qual Sir Cecil Rhodes faria constar sua assinatura com embevecimento. Retorno mínimo.

 

A elite ainda achava que seu lugar estava garantido na pilhagem. Quando muito, ficariam para ela as sobras do banquete, desde que endossasse o enredo. Como acabaria endossando, entre arreganhos que não passavam de negociação interlocutória. Sua base econômica de sustentação foi solapada pela “tolerância regressiva com as atividades tradicionais” expressa pelo PDA, fazendo eco à autoritária voz de Brasília.

 

Reproduzo a matéria que deu o “furo” por achar que as deduções sobre as intenções, ainda quando escondidas, serão automáticas (serão mesmo?). Meio século depois, pode-se verificar que Brasília engendrou um monstro ao conceber esse “modelo”, um gerador natural de desequilíbrios, prometendo corrigi-los através de um ato de vontade (o planejamento), produto acabado do último plano para valer feito para a Amazônia (depois, foi só figuração tecnocrata).

 

Um monstro útil, mas que pode escapar ao controle do criador, como qualquer conhecedor de feitiçaria é capaz de prever, mesmo quando o feiticeiro proclama comandar o espetáculo e a alquimia. Como tem acontecido inúmeras vezes na história das últimas décadas. E, ao que parece, continuará a acontecer nas décadas seguintes, desgastando o patrimônio da Amazônia e ameaçando sua sobrevivência enquanto tal.




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