Verão julho

Fazendas da família Heller, maior desmatador da Amazônia, vendem gado para o frigorífico Frialto, fornecedor do Carrefour

Por Marina Rossi, Daniel Camargos e Hyury Potter | Reporter Brasil - 23/08/2023

Heller é investigado pela Polícia Federal por suspeita de ter desmatado ilegalmente 6.000 hectares de floresta em Novo Progresso (PA). Heller se declarou dono de uma porção de terras na Amazônia correspondente a cerca de 70% de Belo Horizonte. - Créditos: (Crédito: Incra / Reprodução)

O pecuarista Bruno Heller, preso no início do mês e apontado pela Polícia Federal (PF) como o “maior devastador da Amazônia”, transportou gado de uma fazenda da família multada por violações ambientais para outras duas sem autuações, em 2021 e 2022. No mesmo período, as propriedades venderam animais para um frigorífico fornecedor do Carrefour. 

 

Essa triangulação é um indício da chamada “lavagem de gado”, quando bois criados em locais irregulares são repassados para áreas consideradas “ficha limpa” e, posteriormente, vendidos para grandes frigoríficos. 

 

A prática é comumente utilizada para driblar mecanismos de controle e considerada um dos principais desafios de sustentabilidade da indústria da carne no país. 

 

Informações de trânsito de animais obtidas pela Repórter Brasil mostram que animais criados na fazenda Formosa II – multada por desmatamento ilegal e com suspeita de grilagem – foram transferidos em 2021 e 2022 para a Formosa V e a Formosa VI, livres de implicações ambientais. 

 

No mesmo período, estas duas propriedades, em nome de filhas de Bruno Heller, venderam animais para o frigorífico Vale Grande, do grupo Frialto. Em 2020, o próprio Bruno já havia vendido animais ao matadouro.

 

 


Embora estejam em nome de diferentes parentes, o Incra e o Ibama atribuem as propriedades a Bruno Heller, apontado como mentor de esquema de grilagem (Imagem: Hyury Potter/dados de Planet Explore, CAR do Pará e Qgis de agosto de 2023)

 

 

A Frialto possui três abatedouros no norte de Mato Grosso, todos eles habilitados para exportação à União Europeia e outros países. Foi uma dessas unidades, a de Matupá (MT), que adquiriu os animais da família Heller com suspeitas de irregularidades.

 

Esse mesmo abatedouro forneceu carne ao Carrefour nos anos de 2021 e 2023, segundo o aplicativo “Do Pasto ao Prato”. A ferramenta rastreia o código de vigilância sanitária encontrado na embalagem dos produtos e identifica o frigorífico de origem da carne.

 

Procurado, o Carrefour afirmou, inicialmente, que não encontrou nenhuma propriedade vinculada à família Heller entre seus fornecedores. Porém, a própria Frialto confirmou que abateu 249 animais “em nome de Tatiana Heller”, filha de Bruno, em 2022 e 2023.

 

O frigorífico informou ainda que bloqueou as propriedades, depois de identificar “possível ligação com não conformidades de Bruno Heller”. 

 

A nota da Frialto reconhece o problema da triangulação de gado, mas diz não haver ferramentas para “monitoramento de fornecedores indiretos”. O grupo é um dos signatários do TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) da Carne, proposto pelo Ministério Público Federal em 2009 para que frigoríficos não comprem gado de áreas irregulares.

 

Repórter Brasil enviou novo questionamento ao Carrefour, na segunda-feira (15), a respeito da carne oriunda do abatedouro em Matupá, mas não houve resposta até a publicação desta matéria (leia os posicionamentos na íntegra).

 

A defesa de Bruno e Tatiana Heller afirmou, por meio de nota, que aguarda a conclusão das investigações e só se manifestará nos autos do processo, “oportunidade em que os fatos serão devidamente esclarecidos e devidamente comprovada a inocência de Bruno”.

 

“Maior devastador da Amazônia”

 

Heller é investigado pela Polícia Federal por suspeita de ter desmatado ilegalmente 6.000 hectares de floresta em Novo Progresso (PA), o que o caracterizaria como “maior devastador do bioma amazônico já investigado”. Desde 2007, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) notifica o pecuarista tentando retomar as terras que teriam sido griladas por ele.

 

A prisão, no último dia 3 em Novo Progresso (PA), ocorreu no âmbito da Operação Retomada. Na ocasião, Heller foi detido por porte ilegal de arma e porque os policiais encontraram ouro escondido sem documentação. O fazendeiro foi liberado no dia seguinte e responderá em liberdade pelos dois crimes.

 

Repórter Brasil teve acesso às 299 páginas do processo movido pela autarquia que revela como Heller dividiu as terras supostamente griladas entre seus familiares.

 

Esposa, filhas, irmãos, sobrinhos e outros parentes do pecuarista foram usados para tentar regularizar as fazendas, o que o Incra chamou de “fracionamento fraudulento”.

 

Entre os familiares que atuavam como laranjas de Heller, segundo o Incra, está a filha dele e fornecedora da Frialto, Tatiana Heller. Em 2008, época em que o fracionamento do terreno foi realizado, ela tinha 17 anos. Isso indica, segundo o Incra, que não era ela quem explorava a área naquele momento.

 

 


Mapa mostra fracionamento do terreno entre familiares de Heller (Crédito: Incra / Reprodução)

 

 

Desde a década de 1990, Bruno Heller e seus familiares acumularam 43 autuações ambientais do Ibama, que vão de desmatamento ilegal à compra de gado de áreas protegidas, somando R$ 27 milhões em penalidades. Bruno recebeu, sozinho, cerca de metade das multas.

 

Já a filha do pecuarista recebeu três multas do Ibama, em 2023, no valor total de R$ 5 milhões por comprar e comercializar mais de 1.600 cabeças de gado criadas em unidade de conservação federal, a Floresta Nacional do Jamanxim, em Novo Progresso.

 

Cruzando informações geográficas das duas autuações do Ibama mais recentes no nome de Bruno Heller com imagens de satélite na plataforma Planet Explorer, é possível identificar a dimensão da devastação atribuída ao pecuarista. Em menos de cinco meses em 2021, uma área de quase 1.700 hectares foi completamente devastada, o equivalente a 11 vezes o parque do Ibirapuera, na capital paulista.

 

Satélite mostra devastação atribuída a Bruno Heller em 2021