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O palavrão e o ódio

Lúcio Flávio Pinto - 28/01/2021

"Quando vejo a imprensa me atacar dizendo que comprei 2,5 milhões de latas de leite condenado, vai pra puta que o pariu, imprensa de merda! É pra enfiar no rabo de vocês da imprensa essas latas de leite condenado!".

 

A frase é do presidente da república do Brasil. O ex-capitão Jair Bolsonaro a pronunciou, ontem, durante almoço, a portas fechadas, numa churrascaria de Brasília. Estavam presentes quatro ministros de Estado, dois secretários especiais do governo federal e quatro cantores sertanejos, além de convidados, num evento que não constava da agência oficial do presidente.

 

Desde alguns dias antes, a imprensa vinha repercutindo uma notícia, divulgada por um site de informações, sobre a compra de 1,8 bilhão de reais de diversos tipos de alimentos pelos órgãos da administração federal no ano passado, 20% superior às mesmas despesas efetuadas em 2029, com itens como as latas de leite condensado. Os dados constavam do portal transparência do próprio governo. Em seguida, o portal saiu do ar. Segundo a justificativa oficial, por excesso de acesso.

 

Bolsonaro ficou de apresentar hoje números em defesa da sua posição, de que nada houve de anormal, as compras não atendem o seu gabinete e que até há exemplo do mesmo tipo no passado. Mas enquanto a prestação de contas e os esclarecimentos e desmentidos n~çao vinham, a autoridade máxima do país quebrou o decoro público. Esse ato se caracteriza como crime de responsabilidade e pode motivar pedido de afastamento do cargo.

 

Faço uma enquete: quem pode responder se algum outro presidente da república do Brasil já disse palavrões em público? Ou qualquer autoridade equivalente em todo mundo?

 

O ódio de Bolsonaro à imprensa, que revela suas entranhas, quando atingido, é parte do ódio que ele cultivou em longos anos de vida pública à crítica, à liberdade de expressão, à democracia.

 

Se, como argumenta Elio Gaspari, o pedido de impeachment é inútil como realidade, pelo menos a defesa da dignidade e da decência do país exige alguma iniciativa contra Bolsonaro, que não respeitou sequer a presença do filho mais novo no tal almoço de churrascaria. Aliás, nem se pode falar em respeito quando o desrespeito é a medida do que é o modo de ser do dito "mito", assim tratado pelos seus iguais - infelizmente, milhões de pessoas neste Brasil, que continuam a apoiar essa ameaça ambulante ao país.




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