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Pontes, rios e tucanos; análise de Lúcio Flávio Pinto

Lúcio Flávio Pinto - 06/04/2019

De 2014 até hoje, a ponte de concreto sobre o rio Moju já foi atingida várias vezes por embarcações que navegam sob a sua estrutura. Em 2014, 2017 e no ano passado as colisões foram documentadas. A desta madrugada não só está devidamente registrada. Ela provocou o desabamento da pista de rolamento e de dois dos 14 pilares.

 

O acidente, cuja banalidade só não chega ao nível das rodovias locais, era previsto. Já em janeiro, o governador Helder Barbalho levou uma comitiva de assessores para ver a ponte, que teria sido novamente abalroada. Ele determinou imediatamente obras emergenciais e cobrou um plano de recuperação da estrutura. Ou a emergência não foi tão urgente ou a deterioração do conjunto de concreto e ferro antecipou o colapso. A imagem do acidente impressiona. Dá uma profunda sensação de insegurança na obra e de desconfiança no seu gestor.

 

A alça viária nunca teve uma existência tranquila. Sua necessidade ou o tempo da sua maturação receberam questionamentos. Havia defensores de uma ligação direta entre Belém e o sul do Estado por água, numa extensão mais curta e a um custo muito menor, por um sistema de balsas e hovercrafts ou lanchas equivalentes, mais adapatdo ao meio ambiente e à história da região.

 

O governo optou pela rodovia, com 74 quilômetros de extensão, 4,5 quilômetros em pontes. A maior delas, sobre o rio Guamá, com 2 quilômetros, recebeu obra de arte na forma de esguios vãos estaiados, que lhe deram melhor aparência, com o nome de batismo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, o príncipe (homenagem proibida por lei). Outra recebeu o nome do governador que promoveu a inauguração, o também tucano Almir Gabriel (já falecido), com a repetição da muito comum transgressão legal.

 

A ponte FHC sugere que a engenharia foi atenta ao cenário natural. Os rios que a alça viária percorre são volumosos, têm correnteza forte e são largos. A ponte hoje acidentada tem 870 quilômetros e não pareceu nunca à altura do desafio que o rio Moju lhe impõe, por ele mesmo ou pelos usuários (e usurários) das suas águas. Pior é a situação da sua irmã gêmea, conectada à cidade do Moju, do mesmo tamanho. É precaríssima, talvez refletindo um fim de festa ou coerente com sua distância da capital estadual, a sede do iluminismo parauara (de luz pisca-pisca).

 

É inacreditável que após as dezenas de milhões de reais gastos numa obra projetada para uma região de tal complexidade, com intensa navegação fluvial e grande circulação de veículos pesados, a sinalização seja equivalente à da periferia de Belém e a proteção das defensas desproporcionais ao risco que a lei da selva acarreta a essas estruturas.

 

Para se ter uma ideia mais realista dessa algaravia, basta lembrar que o Hangar Centro de Convenções de Belém, uma das grandes obras do arquiteto Paulo Chaves Fernandes para a corte tucana, custou tanto quanto a Alça Viária.

 

Pará é isso.


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