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O duplo Temer

Lúcio Flávio Pinto - 24/03/2019

O ex-capitão do Exército Jair Messias Bolsonaro deveria lançar as últimas pás de terra sobre o túmulo da democracia instaurada no Brasil pela constituição de 1988. Não de uma forma coerente com a posição ideológica dele mesmo, sempre favorável a um golpe de Estado, mas pela manifesta vontade da maioria dos eleitores brasileiros, que votaram nele para presidente da república apenas cinco meses atrás.

 

Bolsonaro foi autorizado a colocar em prática um programa de direita, para ser testado depois de três governos de centro-esquerda, avalizados pelo PSDB (em dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso) e pelo PT (com oito anos de Lula e seis anos e meio de Dilma Rousseff). O saldo de mais de 20 anos desses governos foi considerado negativo em 2016, quando Dilma Rousseff foi afastada do cargo.

 

Graças ao impeachment da presidente, na metade do seu segundo mandato, o MDB deixou a antessala do poder, na qual se manteve desde que Fernando Collor de Mello se apresentou, em 1989 (quatro anos depois do emedebista José Sarney, na volta do Brasil à democracia, ao fim de 21 anos de ditadura militar), como um precursor atenuado do direitista Bolsonaro de hoje.

 

Foi um momento de grande importância histórica para o país. Mudando apenas a sua sigla, o MDB sobreviveu à ditadura como um consórcio partidário de oposição. Seu presidente, o deputado federal Ulysses Guimarães, simbolizou esse momento, com suas virtudes e defeitos. Candidato à presidência da república, recebeu uma votação muito fraca. Lula foi quem passou para o 2º turno para disputar com Collor.

 

Duas décadas depois, o MDB, fraco eleitoralmente, conseguiu alcançar o topo político. Seu primeiro presidente desde Sarney (remanescente da ditadura que pulou do barco fazendo água antes do naufrágio) não foi votado. Sua eleição foi derivada da vitória da candidata que recebeu votos. E Dilma se elegeu graças à mais cara de todas na história republicana nacional. Ganhou, mas o preço foi excessivo, tão pesado que não a poupou do impeachment.

 

Em dois anos e meio, o governo Temer conseguiu estancar a sangria econômica causada pelo empobrecimento geral, o descontrole da inflação, o desemprego recorde, o agigantamento da dívida pública e outros miasmas da gestão petista de Dilma. Conquistas evidentes da política econômica foram superadas pelos maus feitos do presidente.

 

Advogado, professor universitário, jurista, autor de livros, secretário de segurança pública e procurador-geral de São Paulo, o principal Estado da federação, o político que por mais tempo presidiu o PMDB, depois de Ulysses, detentor de sete mandatos de deputado federal, por três vezes presidente da Câmara Federal (segundo na sucessão natural do presidente da república), vice-presidente e presidente, Temer tem um currículo brilhante na vida política.

 

Ocupou cargos públicos de relevância ao longo de 40 anos, como poucos no Brasil. Durante todo esse tempo, também recebeu propina e se beneficiou de desvios de função, acumulando a fortuna de 1,8 bilhão de reais, para si e seus parceiros de organização criminosa, segundo a acusação com a qual o Ministério Público Federal obteve a sua prisão preventiva e o colocou desde ontem na cadeia.

 

Há mais nove inquéritos por corrupção em andamento. Por um cálculo de probabilidade, pode-se prever que Michel Temer terminará os seus dias (está com 79 anos) no xadrez.

 

Como essa carreira de crimes seguiu paralelamente a uma trajetória de êxitos e consagração? Por que um cidadão que tinha qualidades e competências suficientes para enriquecer com seu trabalho adotou práticas ilícitas, num submundo iníquo?

 

O enigma individual tem uma dimensão de símbolo coletivo. O duplo Temer contém em si a duplicidade de um país tão rico e tão pobre como é o Brasil. Paradoxo que se renova com o início precoce, rápido e surpreendente do ocaso do governo Bolsonaro, incapaz de realizar a missão que o povo brasileiro lhe delegou.

 

E agora, José?


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