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O beijo do poder

Lúcio Flávio Pinto - 01/01/2019

Jader Barbalho beija o filho Helder, na testa, após sessão de posse do governador na Assembleia Legislativa do Pará -

Há gestos que se tornam históricos – e simbólicos – no momento mesmo em que são praticados. Como o beijo que o senador Jader Barbalho deu na testa do seu filho, Helder Barbalho, agora de manhã, no palanque montado para a sua posse no governo do Estado, em frente ao magnífico prédio, projetado e construído pelo arquiteto (do barroco italiano) Antonio Landi, a mando do último iluminista no decadente império português, o marquês de Pombal.

O palácio deveria servir aos vice-reis, numa possessão colonial, que os portugueses pretendiam manter para sempre, mesmo que o restante do Brasil se libertasse do seu jugo. Mas acabou ocupado por governadores, mandados servir na distante possessão ultramarina, ou surgidos da elite nacional – ou nativa, a partir da república.

Por ironia da história, o mesmo Jader Barbalho, no seu segundo mandato como governador (1991-1994), pôs fim a essa história de 220 anos. Transformou o palácio em um museu histórico, levando a sede do governo para a periferia da cidade, numa das suas vias de expansão – extremamente acelerada – pelas áreas de ocupação espontânea, até o distrito de Icoaraci, na esquecida ou maltratada orla amazônica da cidade, numa zona de pântanos e mangues aterrados por uma cultura exótica, postiça, maneirista – até hoje.

A transferência teve uma clara inspiração política. No primeiro mandato (1983/1986). conquistado como integrante do grupo mais à esquerda (os “autênticos”) do PMDB, versão atualizada do velho PSD conservador e governista, Jader teve que se livrar do aliado à direita, o governador (e tenente-coronel, um dos políticos gerados no útero da ditadura de 1964) Alacid Nunes.

Mas também começou a se afastar da direita. Procurava um centro gravitacional próprio, mandonista e patrimonialista, ao estilo da velha matriz no caudilho Magalhães Barata, o mais importante político da república no Pará no século XX.

Crescentemente rejeitado pela elite e a classe média paraense, com seu maior reduto político na capital, Jader procurou formar bases sólidas na periferia, estimulando e apoiando as invasões urbanas, e nos municípios mais antigos, nos quais a memória “baratista” ainda remanesce como elo com a distante capital.

Nas remediadas, pobres ou miseráveis casas dessa população abandonada seu retrato oficial, com a faixa de governador, ocupava – ou ainda ocupa – lugar nobre na sala ou seu equivalente no imóvel. Com direito a uma luzinha vermelha sempre acesa e uma flor de plástico decorativa.

A esquerda, ameaçada tanto ideologicamente quanto fisiologicamente, não deixou de perceber o movimento de desatracação. Passou a fomentar manifestações contra o governo. Jader era obrigado a receber constantes comissões de representação em atos de protesto que chegavam facilmente à sede do governo ou à residência oficial.

Conciliou o quanto pôde até transferir o governo ao sucessor que elegeu e que depois se voltaria contra ele, na conhecida mecânica de repulsa da criatura ao criador, o então senador Hélio Gueiros, “baratista” de uma geração anterior (a mesma do pai de Jader, Laercio Barbalho).

Mais polêmico e mais poderoso em função da opção que fez por uma posição mais à direita e fisiológica, Jader obteve a sua última grande (talvez a maior) vitória eleitoral em 1990, vencendo o candidato de Gueiros, o ex-empresário Sahid Xerfan, que obtivera a maior vitória na disputa pela prefeitura de Belém, depois de ser prefeito biônico, indicado por Jader (e por ele demitido com desonra, por acidental infidelidade ao chefe).

Jader tratou de se proteger numa sede de governo mais distante, justamente na Augusto Montenegro, a via urbana mais importante da transição metropolitana de Belém para Ananindeua, e de se abrigar numa granja, convertida em residência oficial. Obteve a fidelidade de um eleitorado cativo, que lhe garante um terço do total de votos do Estado, mas perdeu a possibilidade de voltar mais uma vez ao governo, tornando seu currículo superior ao de Barata.

A campanha constante e eficiente da elite, apregoando sua fama de corrupto, contribuiu muito para esse encolhimento. A partir da segunda metade dos anos 1990 Jader não perdeu a condição de pêndulo da definição das disputas majoritária (governo e senado), mas parecia afastado do epicentro do poder. Elegeu governadora (a primeira mulher no cargo no Pará, e ainda a única) a petista Ana Júlia Carepa (hoje sem mandato). Mas a si mesmo, nunca mais.

A vitória do seu filho no 1º turno da eleição para governador em 2014 serviu de alerta: o pai estava tentando voltar ao topo do ranking. A derrota de Helder no 2º turno para Simão Jatene, que conseguiu se reeleger, revelou também que ele superestimara a sua força, ignorando a reação dos tucanos entre as duas votações.

Parece que o senador aprendeu a lição. Provou isso nos dois turnos da eleição de outubro. Helder venceu o deputado Márcio Miranda, presidente da Assembleia Legislativa, candidato de Jatene, por uma margem folgada. E foi o mais votado em todos os cinco municípios da região metropolitana, com um quarto do eleitorado estadual, inclusive em Belém. Até então, a capital paraense poderia ter voltado aos anos de glória oposicionista, quando foi chamada de “cidade heroica”, por ter derrotado o “baratismo” dominante no interior.

A cidadela desabou diante da estratégia meticulosa e paciente do novo déspota (menos) esclarecido. Jader Fontenele Barbalho, aos 73 anos, deu o beijo de monarca ao filho, de 39, como se lhe transmitisse a coroa, se o futuro vier mais oligárquico-familiar, fiel a essa herança, ou louros, se evoluir republicanamente para o novo e melhor.

O futuro ainda é uma incógnita, mas os dados foram lançados. Isto já é história.


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