Violência interno
Pro refis

Carta aberta a Helder Barbalho

Lúcio Flávio Pinto - 01/12/2018

A eleição de Helder Barbalho para o governo do Pará nada mais é do que a volta de uma oligarquia familiar ao poder? Nada de novo no front? Ou a busca pela mudança que o fez vencer será atendida?

 

Prezado sr. Helder Barbalho

 

Nasci quatro anos depois do fim do Estado Novo. O ditador Getúlio Vargas se elegera senador um ano depois de ser deposto pelos militares, em 1954. Como a legislação permitia, foi eleito senador por dois Estados e deputado federal por sete. Popular, então, ele era. Em 1950, Getúlio passou por Santarém, onde nasci. Fazia campanha pela presidência da república, depois de três anos ausente da política nacional, isolado na sua fazenda no Rio Grande do Sul. Venceu com quase metade dos votos válidos (48,73% contra 29,66% do herói e bonitão udenista, o brigadeiro Eduardo Gomes).

Meu pai, Elias Pinto, que era secretário (único secretário) da prefeitura de Santarém, fez a saudação ao visitante. Getúlio gostou do que ouviu daquele jovem de 25 anos e deu-lhe um cartão assinado. Seria a senha para procurá-lo no Rio de Janeiro, caso ele se elegesse. Papai foi duas vezes ao encontro do presidente. Conseguiu a aprovação para a Tecejuta, a grande fábrica de fiação e tecelagem, que iria beneficiar a juta, comercializada até então apenas in natura.

Papai voltou do enterro do presidente, realizado em São Borja, com a gravação em disco da carta que Getúlio deixara como seu testamento após o suicídio. Menino com menos de cinco anos de idade, eu a decorei e a declamei para públicos que meu pai reunia para me ouvirem. Felizmente, a mensagem daquele documento tinha a marca de um estadista, não mais da simbiose de patronato e autoritarismo do Estado Novo. Se eu tivesse nascido em 1925, ano de nascimento do meu pai, dificilmente cultivaria a admiração por um ditador, ainda que fosse positivo o saldo da sua atuação.

A transformação de Getúlio Vargas no curso da presidência democrática (1951-54) foi muito bem registrada numa peça teatral (Dr. Getúlio, sua vida e sua glória) escrita por Dias Gomes e Ferreira Gullar, que poderia ser novamente encenada, para afastar o estigma negativo deixado pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

Getúlio modernizou o país, deu partida à sua industrialização, liderou uma política de alianças e conduzia o Brasil a um patamar de desenvolvimento autônomo quando, acuado por um novo golpe, respondeu aos inimigos com um inesperado passaporte para a história, se matando.

Relembro esses fatos, que marcaram para sempre a minha consciência, para fazer um paralelo com a sua posição neste momento, guardadas as devidas proporções. Quatro anos atrás o sr. não foi eleito governador do Pará porque lhe faltou uma insignificância de votos no 1º turno para liquidar a fatura. No 2º turno, o governador Simão Jatene reverteu a derrota que sofrera em vitória, conseguindo se reeleger para um terceiro mandato como governador. O sr. e seus correligionários atribuem esse resultado ao uso – e abuso – da máquina pública.

Talvez porque se tenha preparado desde então para repetir a iniciativa, fazendo campanha eleitoral antecipada e valendo-se dos cargos que ocupou tanto no governo Dilma Rousseff quanto no de Michel Temer, desta vez o sr. confirmou no 2º turno a vitória alcançada na primeira votação. Tornou-se governador quase com a mesma idade, 39 anos, do seu pai, Jader Barbalho, que venceu a primeira eleição direta para o cargo desde 1965, 36 anos antes, em 1982.

Seu currículo, porém, pode vir a se tornar mais rico. Seu pai foi vereador, deputado estadual e deputado federal antes de derrotar Oziel Carneiro, candidato de Jarbas Passarinho, com o decisivo apoio do governador Alacid Nunes, que era um produto do regime militar de 1964, mas se uniu ao até então adversário contra o seu ex-aliado político e colega de farda; além de senador, presidente do Senado e, por duas vezes, ministro no governo Sarney. Por questões menores. Coisas de uma política fisiológica e clientelista, sem espinha dorsal ideológica ou programática.

Já o sr. foi vereador, deputado estadual, prefeito de Ananindeua por dois mandatos e ministro por duas vezes (além de ocupar uma secretaria federal com status de ministério), sempre de forma precoce e com grande votação no caso das disputas eleitorais. Experiência não lhe falta, assim como carisma, inteligência, capacidade de trabalho e oratória.

Uma das suas principais façanhas na eleição deste ano foi vencer em todos os municípios da região metropolitana de Belém, que concentra quase um quarto (e a parcela mais influente) do eleitorado do Estado. A partir dos escândalos que aconteceram no primeiro governo do seu pai, sempre ligados a recursos públicos, o nome Barbalho foi sofrendo acentuado desgaste, sob o estigma da corrupção apontada, denunciada ou investigada por várias frentes públicas ou privadas.

Essa tradição foi rompida neste ano. Inclusive na capital, seduzida pela pregação moralista dos seus adversários, e em Ananindeua, o segundo reduto eleitoral do Pará, contrariando as previsões desfavoráveis ao sr. e do seu pai.

Além dos componentes de sempre numa eleição em local carente como é o Pará, essa vitória pode ser creditada à sua imagem de dinamismo, autenticidade e compromisso com a causa pública, contrastando com a abulia do oponente, Márcio Miranda, o candidato situacionista, e a própria má fama dos Barbalho.

Provavelmente parcela considerável dos eleitores que optaram pelo sr. não tenha um conhecimento melhor sobre o passado do clã. Ou, mesmo sabendo que o sr. e o seu pai estão sendo investigados pela Operação Lava-Jato, acusados de receber propina no esquema do “petrolão”, tenha decidido lhe dar um crédito de confiança.

É neste ponto que se situa a motivação desta carta aberta. Certamente esquemas, ardis e alianças devem ter sido montadas para possibilitar a sua vitória, interrompendo a dinastia e a hegemonia dos tucanos e seus aliados. Pode ser que mecanismos do passado tenham sobrevivido à onda anticorrupção dos últimos cinco anos, como o caixa 2 e a lavagem de dinheiro.

É claro que esses ilícitos, se cometidos, terão que ser apurados, desvendados e sofrer a devida punição. Se o sr. é parte deles, também terá que ser responsabilizado, na forma da lei. Independentemente desse fator, porém, o sr. pode romper com esse passado e aproveitar a oportunidade, que a sua eleição lhe proporcionou, de refazer a sua biografia e colocá-la a serviço da terra que o elegeu, num momento dramático da vida nacional.

O sr. estará objetivamente preparado para romper os liames com o seu pai, tutor e padrinho político, conquistando sua autonomia e usando-a para executar um projeto de renovação da política paraense. Só assim será respeitada e terá condições de enfrentar o grande desafio do Pará dos nossos dias: a utilização das suas riquezas naturais em proveito da sociedade, numa organização competente, combatendo os parasitas da administração pública, procurando escolher os mais qualificados para cada função e nela aplicando o que de melhor se dispõe.

Escrevo-lhe esta carta agora porque uma decisão dessa magnitude tem que ser tomada com antecedência. O primeiro dia da sua gestão tem que delimitar o tempo e materializar atos que assegurem aos cidadãos que realmente a sua vitória é acontecimento capaz de leva-lo a transformar o Pará, não apenas mais uma retórica de ocasião, fonte de desengano, local de ilusão.

Seria recomendável que o sr. assumisse o governo com um plano de ação escrito, impresso, como documento que atesta o seu compromisso com o desejo de mudança manifestado pela maioria do povo paraense. Sua equipe tem que impor respeito e estar livre das nódoas do passado. E o sr. precisa estar consciente da gravidade deste momento. Não terá muito tempo para claudicar, errar e repetir. Logo, a prova dos nove dirá a que o sr. veio. O resultado poderá ser mais uma decepção ou uma aposta num presente melhor e num futuro mais justo para o Pará e os paraenses.

 


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