Violência interno
Pro refis

Que a democracia sobreviva

Lúcio Flávio Pinto - 22/10/2018

Se alguém pensa em fechar o Supremo Tribunal Federal, o que tem que fazer é procurar um psiquiatra, disse, ontem, Jair Bolsonaro. Ao saber que esse era o caso do filho dele, tentou encontrar uma saída para o veredicto tão firme: "Eu desconheço. Duvido. Alguém tirou de contexto".
Se o deputado federal Eduardo Bolsonaro tem  uma doença mental, o pai tem que acompanhá-lo e fazer um exame de consciência. O fruto caiu longe da árvore? Um pai democrata, que considera loucura fechar a mais alta corte da justiça brasileira, porque o resultado da votação para presidente da república não confirma o que as pesquisas de opinião vinham antecipando, por eventual fraude nas urnas eletrônicas? Ou foi um discurso autoritário, arrogante, antidemocrático e violento o que Eduardo e seu outro irmão, eleito senador, ouviram o tempo todo em casa do pai?
Menos polidos e experimentados em atividades que exigem respeito ao oposto e boa intenção nos debates, como, em tese, é a atividade parlamentar, eles foram apenas mais autênticos e menos ardilosos do que o pai, com 27 anos de carreira política, num tempo de obrigatoriedade de ajustes (ainda que meramente formais e retóricos) em comparação com a carreira de 17 anos como militar, com seus eixos centrais de hierarquia e disciplina?
Se os ataques dos críticos ao capitão da reserva do Exército ainda poderiam ser retrucados ou desmoralizados, a manifestação do filho não deixa mais dúvidas: o projeto de poder do candidato Jair Messias Bolsonaro é autoritário e, por incluir entre suas possibilidades de alcance um golpe contra o regime democrático, é também fascista, o primeiro projeto explicitamente fascista já apresentado numa eleição em toda história republicana do Brasil.
Há, de fato, um contexto que relativiza a dureza e periculosidade da ideia do filho, conforme tentou imaginar como saída de emergência o pai, apanhado de surpresa no contrapé pela pergunta de um jornalista durante a rápida entrevista coletiva que concedeu ontem, no Rio de Janeiro. Houve um contexto especulativo na pergunta, com seu "se" imaginativo de uma situação hipotética. Pode ter havido até um elemento de provocação no questionamento. Ainda assim, e, talvez, para surpresa dos alunos que assistiam à aula do professor Bolsonaro, não houve tergiversação na resposta. O professor não procurou derivativos e subterfúgios, como os do pai, um tanto escolado pelos bate-bocas no parlamento. Afirmou plenamente sua convicção antidemocrática, apimentada por um sarcasmo típico de pessoa arrogante e desequilibrada, tão carente de psiquiatria quanto de noções de liberdade e tolerância.
Há outro elemento do contexto ao qual recorreu o candidato do PSL: as declarações foram dadas antes do 1º turno. Como permaneceram desconhecidas até a revelação do fato pela Folha de S. Paulo, na quinta-feira da semana passada, não influíram sobre o resultado da votação. Essa circunstância, porém, não atenua a gravidade da afirmação. O próprio Bolsonaro não conseguiu reprimir sua surpresa e contrariedade por não ter decidido logo a disputa no 1º turno. Teria sido por alguma fraude nas urnas, suspeita que ele chegou a suscitar em público? A agressividade na suspeição pode ter arrefecido com a progressão dos resultados positivos nas pesquisas para o 2º turno, mas não desaparecido. A hipótese de virar a mesa pode ter continuado como cogitação.
Medidos e pesados os elementos da afirmativa do filho, contextualizadas pelo pai e pelo próprio Eduardo, que tentou explicar o que dissera e apresentou seu pedido de desculpas a quem possa ter ofendido (mais a instituições do que a pessoas), o resultado final do impropério foi a confirmação do caráter fascista do candidato do PSL. O pai pode controlar os filhos e remediar o mal que Eduardo lhe causou, metamorfoseando-se no exercício da presidência da república (de forma não muito diferente da metamorfose ambulante na qual Lula se auto-definiu), mas a verdade está escancarada para quem quiser vê-la com isenção - sem perder jamais a indignação.
No entanto, afastando a tentação da opção do PT, francamente leninista, que até hoje mantém a sedução de Lula junto à esquerda ("conquistemos o poder para depois fazer a revolução", será a máxima, abandonada progressivamente - ou rapidamente - conforme o ritmo de avanço até o exercício do poder absoluto), é preciso levar em consideração as manifestações de rua realizadas ontem pelos bolsonaristas por todo país, mais extensas e concorridas do que as anti-Bolsonaro, e estrondosa vitória pessoal dele e do seu raquítico partido no 1º turno.
As dezenas ou centenas de milhares de pessoas nas ruas dizem que se há uma patologia política grassando no país, ela não é individual: é social. Há vários componentes nessa onda, que também não é exclusiva do Brasil, muito pelo contrário: é internacional. Tem, contudo, um componente nacional: milhões de brasileiros (fração representativa dos 50 milhões de votos de Bolsonaro) estão dispostos a tudo, inclusive aventuras fascistas, com seu risco traumático, para não ter mais o PT no poder. Pois foi o Partido dos Trabalhadores, em combinação indesejada e renegada com o PSDB, que respondeu pela maior parte maior da crise nacional (o PT à frente, com seus quase 1 anos, e o PSDB com os oito anos de Fernando Henrique Cardoso).
FHC transmitiu a faixa presidencial a Lula numa festa democrática em Brasília. Bicudos entre si (os tucanos mais ainda, por razões óbvias), ao invés de seguirem numa aliança, que seria dominante no congresso nacional, passaram a se retaliar, uns e outros se unindo à mais abjeta das lideranças políticas e servindo aos propósitos mais fisiológicos para antagonizar ou derrotar o oponente escolhido como inimigo principal. Uma autêntica autofagia.
Ainda havia gordura para queimar quando Lula, oito anos depois, passou o poder a Dilma Rousseff, graças a uma combinação de medidas de alcance social e desenvolvimentistas com um controle relativo da máquina pública (mais em relação ao público externo do que ao interno, este composto por uma legião de militantes petistas muito onerosos ao tesouro, mas vitais ao partido com suas técnicas de informações formando dossiês contra inimigos assemelháveis, porém tão letais quanto as fake-news atuais.
O principal condutor da área econômica, por isso permanecendo os oito anos de Lula na direção do Banco Central, foi o banqueiro internacional Henrique Meirelles, elemento de continuidade da administração tucana, em harmonia complementar com o petista Antônio Palocci, ministro da Fazenda por três anos (coordenador do programa de governo de Lula e um dos autores da "carta aos brasileiros"),que perdeu o posto por um vírus que se disseminava no partido e no governo: a corrupção desenfreada. O primeiro ato de Dilma foi demitir Meirelles.
Talvez já fosse o primeiro passo para se libertar de um fardo: ter que renunciar à reeleição para a volta do seu padrinho em 2014. Depois de tentar um arranjo com Joaquim Levy, Dilma se rebelou contra Lula e impôs - ao custo da mais cara campanha eleitoral para a presidência da república - a sua manutenção no cargo, a despeito das ameaças e retaliações de Lula. A partir daí o Brasil desceu ladeira abaixo, impulsionado pelo veículo da corrupção estruturada, novidade num país que nasceu e cresceu com esse combustível ruinoso. A diferença é que o projeto de poder de longo prazo do PT tinha um eixo monopolista: o culto de Lula, o infalível, o vértice da história brasileira, do A. L. e D. L. (antes e depois de Lula). Primeiro ele. Depois, o resto.
Bolsonaro é a outra face da mesma moeda: ele promete essa faxina (como Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello prometeram)aos milhões de desiludidos e revoltados que esse projeto empilhou, juntando tantos ingredientes distintos e até mesmo conflitivos. Um leninista de esquerda e outro de direita, unidos por um ponto em comum: jamais leram Vladimir Ilitch Ulianov. Guiam-se pelos instintos. Medem forças com todas as armas possíveis, lícitas ou ilícitas, morais ou imorais, num combate de vale-tudo no qual só não admitem um resultado: a derrota.
Não há dúvida que a comparação do Brasil com a Alemanha da república de Weimar é elucidativa, guardadas as proporções e diferenças. De um lado, um projeto fascista, que ameaça a sempre ameaçada democracia brasileira, por dentro dela, pela conquista do poder em eleição  democrática, como os "bolivarianos" e ex-revolucionários das Américas (o PRI mexicano já foi revolucionário por meio século), dentre os quais o comandante Hugo Chávez é o epígono, por mais uma ironia da história (Bolsonaro quer fazer o que Lula não conseguiu - ainda).
Mas também a democracia de Weimar não conseguiu se fortalecer para imobilizar os golpistas, os inimigos da democracia, os violentos, os candidatos a ditador, Hitler, o vencedor. Mesmo ruim, mesmo ferida de morte, a democracia brasileira é a melhor alternativa que resta ao Brasil, um país em crise, carente dos estadistas que não tem (e a ditadura militar anterior suprimiu do mapa político). Isto quer dizer que o processo eleitoral deve seguir seu rumo até a eleição de domingo, expurgadas as interferências que realmente fraudam a manifestação do eleitor, consciente ou insensato, certo ou errado.
Talvez assim não se consiga tirar o país do atoleiro político em que se encontra, areia movediça que exaure as forças dos trabalhadores de todos os níveis e tipos. Ainda assim, o dramático caso brasileiro dos nossos dias confirma a melhor sabedoria da cultura ocidental: a democracia é falha ou ruim, mas é ainda "menos pior" do que Jair Bolsonaro ou Fernando Haddad. Talvez sobreviva e se mantenha como a linha guia do país diante dessa dupla alternativa regressiva, talvez até 1964.


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