Violência interno
Pro refis

Eleição presidencial: e agora?

Lúcio Flávio Pinto - 21/10/2018

O 1º turno da eleição vai continuar a valer? O 2º turno será mesmo realizado no dia 28?

As duas questões, inéditas na história eleitoral brasileira, passaram à frente de outras questões inéditas, originais ou controversas que tornaram a eleição geral de 2018 a mais inusitadas - e perigosas ´- de toda república.

O PT quer a cassação da candidatura de Jair Bolsonaro, do PSL, por abuso econômico. O Partido dos Trabalhadores alega que a votação do dia 7 ficou viciada pelo bombardeio feito pela internet por empresas, que gastaram muito dinheiro (sem o declarar) para que robôs disparassem milhões de mensagens contra o candidato Fernando Haddad, para favorecer Bolsonaro. Se esse crime foi cometido, então a primeira eleição terá que ser anulada, sustenta o PDT de Ciro Gomes. Com Bolsonaro fora da disputa, o ex-governador cearense mediria forças com o candidato do PT, derrotando-o num 2º turno, se críveis as prévias montadas pelas empresas de pesquisa de opinião.

Independentemente de preferências por um ou outro candidato, a nova surpresa surgida na campanha eleitoral dá ao cidadão uma sensação de insegurança, desconfiança e descrédito no sistema político que permitiu essa virada de mesa a 10 dias da segunda votação para a presidência da república. Um semestre transcorreu, em meio ao mais furioso combate entre os candidatos que apareciam no topo das pesquisas, sem que a justiça eleitoral, a polícia e o poder público percebessem que a lei estaria sendo violada através do whatsApp.

Empresas empenhadas pela vitória de Bolsonaro contrataram agências especializadas para bombardear as pessoas com informações falsas desfavoráveis a Haddad, segundo denúncia originalmente feita pela Folha de S. Paulo. O fato parece confirmado. Os responsáveis pelo canal de mensagens já bloquearam centenas de milhares de contas e intimaram as empresas citadas para as medidas cabíveis, tanto no plano civil quanto criminal. A organização da justiça eleitoral do país, com seus apêndices no poder executivo, foi chamuscada por esse incêndio. Apesar do sistema eletrônico de votação ultra-moderno, a justiça especializada se mostrou defasada. Não conseguiu prever o ilícito, se antecipar ao seu cometimento e impedi-lo de se consumar.

A comprovação da ingerência ilegal de empresas sobre os eleitores acaba com a candidatura de Bolsonaro? Se não houver provas da conexão ou do conhecimento prévio pelo candidato da manobra, não. Mas até que uma resposta definitiva possa ser dada, a controvérsia deverá extravasar para além do dia 28. Talvez não haja deslinde até a posse do novo presidente. Talvez a alegação do PT se revele inconsistente e, com sua negação, perca sentido a demanda do PDT pela anulação no 1º turno. Polêmicas, ataques e agressões se sucederão nesse ambiente de incertezas. Certamente explodirão em caso de cassação de Bolsonaro, o candidato que considera estar com uma mão na taça de presidente.

Esse gosto de vitória no "tapetão" aprofundaria ainda mais a cova na qual a democracia de 1985 (reafirmada pela constituição de 1988) está sendo sepultada na eleição deste ano. Ela exauriu seus recursos e métodos na tentativa de dar solvência ao país. Os grandes partidos até agora foram rejeitados, seus coronéis do voto derrotados, os nomes novos proliferaram (mas sem oferecer melhor opção aos antecessores), as lideranças desmoralizadas por sua intensa e nefanda corrupção e o aparato estatal foi isolado da vida real e produtiva dos cidadãos, que, com seu trabalho, ainda sustentam as esperanças da nação de sair da insolvência econômica do Brasil, aprofundada pela democracia de 1985.

Inédita pesquisa qualitativa (e subjetiva) encomendada pela TV Globo e a Folha de S. Pauloconfirmou a confiança do povo na democracia e sua repulsa a um novo golpe de Estado para devolver o país a uma ditadura militar - manifestação que se choca com o discurso do capitão Bolsonaro e o coloca em situação difícil. No entanto, a maioria também reconhece as realizações da ditadura, os resultados que ela produziu. Ou seja: o brasileiro médio quer mudar radicalmente a situação atual, que tem a marca autoral do PSDB e do PT, não por um golpe ou pela militarização do governo, nem pelos extremismos que agora chegam ao paroxismo da disputa pelo poder, indiferentes à ética e a moral pública.

O 1º turno mostrou que Bolsonaro não preenche todas essas exigências, por seu radicalismo, primarismo e violência, trazendo implícita indução a um golpe. Muito menos Fernando Haddad, candidato do partido que por mais tempo esteve no poder desde a redemocratização do país, culminando a sua presença com Dilma Rousseff, a maior responsável pela crise atual. Nem Ciro Gomes, com seu vai-e-vem errático em função do seu descontrole. O eleitor saiu do 1º turno sabendo que teria que escolher o "menos pior", porque o melhor não havia. Parecia que o "menos pior" seria Jair Bolsonaro.

O PT passou a comandar, na quinta-feira, uma ofensiva bem ao seu estilo para queimar a candidatura do capitão da reserva do Exército, enquadrando-o em caixa 2 e abuso econômico pelo uso de empresas para espalhar mensagens em massa pelo WahtsApp. Enquanto isso, mudou de cor, de fundo, de imagem, de plano de governo (pela terceira vez) e de retórica, incorporando o tom de justa indignação dos tempos de oposição, apagando o passado ruim, resultante do seu exercício do poder por quase 14 anos, que o incrimina e o desautorizou como veículo da mudança pela qual o Brasil clama.

O que era drama virou tragicomédia. Para castigo do Brasil.


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