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Peças da cerâmica Tapajoara podem ter sido perdidas em incêndio no Museu Nacional

Weldon Luciano - 03/09/2018

O incêndio que atingiu o Museu Nacional na noite de domingo(2), que destruiu um acervo de mais de 20 milhões de itens, também afetou a cultura e a história do Tapajós. Peças da cerâmica Tapajoara, muitas delas originais, estavam em exposição e podem ter sido perdidas em meio às chamas que consumiram o prédio com mais de 200 anos de história. A direção do Museu Nacional ainda não contabilizou os prejuizos, uma vez que a operação rescaldo do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro começou nesta segunda-feira (3).

O acervo da cerâmica Tapajoara, de acordo com o site da UFRJ, contava com um vaso cerimonial decorado com incisões geométricas e relevos, com figuras antropomorfas e zoomorfas dispostas alternadamente, com dimensões de 30 x16, produzido no período entre 1.000 e 1.400 antes de Cristo. Também faziam parte da coleção, vasos e estatuetas antropomorfos, muiraquitãs e um Vaso de Cariátides, que são pequenos vasos simétricos, em forma de taça, com parte superior ligada à inferior por três cariátides antropomorfas; nas bordas da parte superior estão afixadas outras figurações.

Algumas réplicas desse tipo de peças de cerâmica foram erguidas pelo artista plástico Laurimar Leal na Praça São Sebastião em Santarém, em 1974.

Há alguns desses exemplares de cerâmica tapajoara no Museu Joao Fonna, em Santarém, no Museu Emílio Goeldi, em Belen, e no Museu da USP, em São Paulo.

A cultura de Santarém se notabilizou pela produção de uma cerâmica de estilo muito peculiar, baseado no emprego das técnicas de modelagem, incisão, ponteado e aplicação foi descrita desde o século XIX por naturalistas e viajantes que percorreram a área, suas formas revelam composições elaboradas, contendo uma profusão de apêndices de animais da floresta tropical, que constituem verdadeiras esculturas concebidas de maneira naturalista. 

Estatuetas antropomorfas também se destacam pelo naturalismo das representações de homens e mulheres, portando atributos que permitem identificar emblemas de prestígio e posições sociais. Na verdade, pouco se sabe sobre essa cultura, uma vez que escavações arqueológicas sistemáticas só começaram a ser desenvolvidas nos últimos anos. As peças existentes em museus provêm em grande parte de coletas e escavações realizadas sem controle no seu maior sítio arqueológico, onde hoje está assentada a cidade de Santarém, o que impede a compreensão de seus contextos. Ainda assim, elas constituem importante fonte de conhecimento sobre a complexa sociedade que as produziu, porquanto são testemunho de suas práticas sociais, formas de construção do corpo e concepções cosmológicas.

Fundado em 6 de junho de 1818, por Dom João VI, o Museu Nacional é a instituição científica mais antiga do país e tinha um acervo de mais de 20 milhões de itens. Entre eles, estava o crânio de Luzia, o fóssil mais antigo das Américas e tesouro arqueológico nacional, e o maior meteorito já achado no país.


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