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Memória de Santarém: o direito de ser criança em cidades pequenas

Lúcio Flávio Pinto - 02/09/2018

A Rimini da década de 1930, que Fellini retratou em Amarcord, continha a minha Santarém de 20/30 anos depois, onde nasci, cidade que dividiu com Belém a minha formação. Em 1997, na última estadia na Itália, fui ver Rimini, na beira do mar Adriático. Ela continuava a mesma do filme, feito em 1973, que me encheu de alegria, melancolia, nostalgia, tristeza e gratidão, no primeiro contato e no último, na quarta ou quinta revisão. A minha Santarém não existe mais.

Digo isso sem um tom acusador nem com amargura, mas com um sentimento profundo de perda, mais em mim mesmo do que na cidade, desatenta à própria história, levada pelas idas e vindas dos migrantes, das “frentes econômicas”, do arrivismo, estropiada pelos “projetos de impacto” do regime militar e descarnada pelo impacto de agressões, como a do cultivo da soja. Uma cidade que perdeu a maior parte da sua identidade litorânea, praieira e mestiça, que se espalhou e se pulverizou. Sem ter um centro gravitacional para unir ou conectar as suas partes, ficou sem pulso.

Foi uma felicidade ter nascido na Santarém de 1949 e nela passar férias grandes ou pequenas a partir de 1955, em aproximações e distanciamentos, que mantiveram o carinho pela terra de origem sem prejuízo da percepção crítica das suas transformações.

Todos deveriam ter direito a ser crianças em cidades pequenas. Parece ser um antídoto – ou ao menos um atenuante – à massificação das grandes aglomerações humanas, que se distanciam do humano na forma complexa de uma pessoa (no conceito do filósofo Paul-Louis Landsberg).



Pelas ruas circulavam poucos veículos automotores. Em compensação, havia os carros de boi, com seu condutor alerta (mas não tanto), chicote à mão. Nada melhor para provocar o instinto dos moleques. Um ou vários “morcegavam” na parte de trás do carro, o coração batendo apressado e os olhos fixos na nuca do carroceiro. O menor movimento brusco disparava o alerta. O carona intruso se largava da carroça e disparava em fuga. Mas logo estava a postos para nova incursão.

Medo semelhante se sentia do Caixa d’Água, cidadão alto, parecendo um índio, que circulava abúlico, sempre carente daquela água que passarinho não bebe para simular sua agressividade e servir aos apelos de quem (geralmente um adulto) precisava assustar a molecada. A aparência de Boris Karloff no papel de Frankenstein escondia um ser infantilizado por alguma doença mental – que os moleques nem pensavam em investigar. Era correr e só.

 

Raul Loureiro, dono do cine Olympia

 

Havia muita ingenuidade e fantasia, elementos da nossa personalidade que se realimentavam na casa da imaginação, o Cinema Olímpia, do Raul Loureiro, matriz de muito das nossas vidas. As “melhores” famílias da cidade tinham sua conta corrente no livro de caixa do Raul, que ficava na bilheteria das sessões noturnas inesquecíveis. Autorizado não sei por quem, talvez por mim mesmo, entrava correndo no Olímpia pedindo para o Raul debitar na conta do tio Dácio Campos, casado com minha tia Aida, irmã da minha mãe, Iraci.

Não deixava de ser uma temeridade. Tio Dácio era econômico, para ser econômico na classificação. Contava os tostões, sem chegar a pesar os ovos que ia comprar, como dizia a lenda que fazia, no mercado, o irmão dele, Miguel (pura fofoca, é claro). Dácio era alto e tinha o maior tórax da cidade, preenchido por muito músculo.

Além disso, contava com uma voz de tenor. Físico e voz se tornavam em moral ambulante quando uma mãe qualquer, sem conseguir se fazer obedecida, recorria à tonitruante autoridade do “seu” Dácio. Um “mooooolequeee” dele era o bastante para inspirar terror e enquadrar o recalcitrante na lei e na ordem. E ele não se fazia de rogado. Era pedir e receber o retorno sonoro.

 


Garapeira Ypiranga, ao centro, à esquerda Cinema Olympia e à direita, o Centro Recreativo

 

O entusiasmo por um filme do Super-Homem quase leva a um grave acidente. Palmério, o mais antigo amigo que me resta (jornalista como eu, morando há muitos anos em São Paulo, depois de passar pelo Rio de Janeiro), foi me buscar em casa, na quadra seguinte da rua em que ele também morava. Íamos voar a partir da pista de decolagem na marquise do Olímpia. E lá fomos, devidamente apetrechados com um lençol amarrado ao pescoço, a nossa asa voadora. Palmério, mais ousado, foi o primeiro a tentar decolar – e a se esborrachar lá embaixo, num dos muitos acidentes da sua longa carreira de artista. Eu preferi descer de outra maneira.

O Olímpia ficava na praça da matriz, uma igreja colonial que os padres americanos, sucessores dos alemães, transformaram, com suas reformas, em qualquer coisa, como dizia o Caetano Veloso, descaracterizando-a e a deformando a pretexto de modernizá-la. Na praça havia a garapeira do Pequenino, oficialmente denominada Ypiranga. Ele produzia uma garapa maravilhosa, fresca e substancial.

Produzia, porém, e, sobretudo, fofocas. Assegurava a mesma língua viperina da cidade que o Pequenino anotava num caderno as datas dos casamentos das jovens damas santarenas, que faziam sua cerimônia nupcial ali em frente, na catedral de Nossa Senhora da Conceição. Se o primeiro parto acontecesse antes de nove meses, a desonra era certa, ao menos na língua de trapo do Pequenino.

Uma cena do Olímpia que Fellini não perderia aconteceu numa sessão noturna. Quando as portas laterais da sala de exibição foram abertas para permitir a entrada de ar, casais que se haviam combinado abriram seus guarda-chuvas. Era o protesto coletivo pelas goteiras, que se multiplicavam no telhado. Loureiro veio da bilheteria para pedir que guardassem suas ferramentas. Mandaria consertar.

 

Antigo trapiche de Santarém, visto no período da enchente do rio Tapajós

Antigo trapiche de Santarém, na época da enchente do rio Tapajós.

 

Muito Santarém, em Amarcord, realidade e ficção misturadas numa memória que se desdobra ao som da música sinuosa de Nino Rotta.

 

* Fotos de arquivo desta edição pertencem ao acerco de Apolônio Fonna.




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