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O repórter de polícia

Lúcio Flávio Pinto - 30/08/2018

O caminho de ingresso no jornalismo, em 1966, quando comecei na profissão, tinha que passar obrigatoriamente pela cobertura de polícia. Na época eu era muito tímido, o que um repórter de polícia não pode ser. Tem que ser furão, audacioso, desrespeitador de regras e convenções, disposto a enfrentar todos os ambientes.

Foi muito importante para mim esse começo, como o próprio jornalismo. Sem ele eu talvez me tivesse enfurnado num escritório ou num cubículo qualquer para ler e escrever sem ir ver o sol lá fora. Ir atrás de um criminoso ou reconstituir um crime requer iniciativa, às vezes criatividade. Ninguém distribui press-release sobre um assassinato nem há assessores de imprensa para facilitar (e cercear) o trabalho do repórter.

Nunca fui setorista – nem de polícia nem de qualquer outro setor. Mas era pelos meandros da polícia que eu mais me interessava. Formei amizades e criei excelentes fontes, mesmo discordando de alguns desses policiais e criticando outros. Como sempre houve um padrão ético e moral nas nossas relações, eu os respeitava enquanto fontes e eles a mim, enquanto jornalista.

Depois de uma conversa, eles voltavam ao que eram e eu fazia o que tinha que fazer. Não havia troca de favores nem acobertamentos. O que favorecia o contato era uma semelhança significativa que havia entre nossos trabalhos. O que poderia parecer desvantagem, era, na verdade, a nossa vantagem: obter informações sem usar armas nem qualquer forma de violência, apenas pela dialética da inteligência – o que um bom policial (que existe, sim) também pode fazer.

Da mesma maneira como havia policiais ruins, violentos, arbitrários e corruptos, havia também dessa espécie do lado dos jornalistas. Alguns até andavam armados e participavam de espancamento de bandidos. Era raro o uso de métodos limpos, daí se dever tolerar algum escorregão eventual. Lida-se diretamente com matéria humana, sempre difícil, esquiva, complicada. Com as ressalvas possíveis, eu admirava – e ainda admiro – repórteres policiais como Otávio Ribeiro (o Pena Branca, pela mecha no cabelo), Antônio Carlos Fon, Percival de Souza (ainda na ativa) e Valério Meinel, de quem fui contemporâneo em O Estado de S. Paulo (e conheci na sucursal carioca do jornal).

Por isso, quando encontrei pela primeira vez seu romance-reportagem Avestruz, águia e... cocaína (L&PM, 1994, 215 páginas), já na 2ª edição, comprei-o imediatamente. Custou-me 15 reais, no Sebo José de Alencar, em São Paulo. O subtítulo explicava o meu maior interesse: “O jogo-do-bicho visto por dentro: um submundo de crime e corrupção”. O mais valioso no livro, porém, era a dedicatória de Valério (datada do Rio de Janeiro, de 14 de junho daquele ano) a Michael Koelheutter, editor da revista mensal Interview, onde o repórter encerrou a sua carreira.

A dedicatória é um documento sobre a trajetória que costumavam (ainda costumam?) ter os repórteres policiais: “com a gratidão por me haver resgatado de volta à profissão, da qual fui banido pelo sistema durante seis anos, por causa deste livro, agora em 2ª edição e atualizado.

Atenção para o último parágrafo da “segunda orelha”. É um orgulho trabalhar com você na Interview. Com o abraço do irmão de fé”.

O trecho ao qual ele se referiu é este: “Ganhador de dois Prêmios Esso” (o maior prêmio do jornalismo do país), entre outros, Valério Meinel pagou – na época – um caro preço pela ousadia do seu trabalho. Ameaças de morte, tentativa de sequestro e um desemprego que durou seis anos. Quando a justiça finalmente pôs as mãos na cúpula do bicho, a sentença condenatória trazia Avestruz, Águia... e Cocaína como uma das provas do processo. A corajosa juíza Denise Frossard, que alcançou a notoriedade nacional ao enfrentar os bicheiros, reconhecendo o trabalho de Valério Meinel enviou-lhe uma cópia da sentença com a seguinte dedicatória:

Ao jornalista Valério Meinel, pioneiro da crônica especializada, que lhe custou, inclusive, seis anos de desemprego, com admiração (assinado) Denise Frossard – Rio, 2 de junho de 1993”.

Valério morreu em 1997, de infecção generalizada, depois de uma cirurgia para extração de pedras na vesícula. Tinha 57 anos. O crime organizado cresceu muito desde então. O jornalismo é que encolheu. Verdadeiros repórteres de polícia praticamente desapareceram. Alguns podem ainda ser encontrados: nos sebos.




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