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Agrotóxico ameaça produção de mel e de frutas exóticas no planalto santareno

Portal OESTADONET - 05/06/2018

Créditos: Promotor Túlio Novaes, à esquerda, observa demonstração de cuidados com caixas de abelhas, em dia de campo, em Belterra, no sábado (2). Foto: Lila Bemerguy MPPA

Na região do Planalto santareno, formado pelos municípios de Santarém, Mojui dos Campos e Belterra, há cerca de 20 anos os produtores de mel começaram a notar que o agrotóxico usado na lavoura de grãos, como a soja e o milho, está atingindo as abelhas.

Os agrotóxicos acabam atingindo as áreas de mata onde as abelhas se reproduzem ou são criadas para a produção do mel.

Muito tem se falado na presença de veneno nos produtos que chegam a mesa do brasileiro. Segundo pesquisa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária Anvisa, a batata foi o único vegetal examinado que não apresentou nenhum lote contaminado. Em compensação, praticamente todas as amostras de pimentão apresentavam  agrotóxicos acima do permitidoMorango, pepino e alface também estavam entre os itens mais contaminados.

Mas e o mel, está ameaçado? Indiretamente sim, porque o inseto que o produz pode desaparecer e o trabalhador que faz a coleta ou atua na produção pode ficar doente.

João Silva, produtor de Belterra, revela como o agrotóxico das lavouras de grãos próximas às florestas afeta as abelhas e as pessoas. " Há vinte anos instalaram uma bomba atômica nem Belterra. Primeiro mata os insetos porque eles são mais sensíveis Depois atinge o ser humano devagar. É pressão alta em criança nova. Tem pessoas morrendo do coração em Belterra. Isso é realidade", denuncia.

Ele explica que, há 20 anos, a produção de mel tinha rentabilidade, ao contrário de hoje. " Há 20 anos uma caixa de abelha Canuto produzia de 6 a 7 quilos de mel, mas hoje não dá meio quilo e se tirar o mel acaba com o enxame'.

Outros produtores, como o seu Natalino Ferreira, pararam a produção após o processo de mortandade das abelhas se intensificar. Ele diz que até áreas distante da produção de grãos estão sendo afetadas, a mais de 30 quilômetros da plantação de grãos.

" Lá na aldeia dos índios, na comunidade Bragança, que está a 33 quilômetros da Br 163 está ocorrendo o mesmo problema, afetando as abelhas. O vento espalha o veneno longe. A situação está igual aqui em Belterra", desabafou.

E o pior: a ameaça de extinção das abelhas, outra espécie considerada polenizadora, também é risco de desaparecimento de frutas exóticas, como a castanha e o piquiá. " Nós temos espécies de abelhas polenizadoras, como a Mangá, que não tem enxame, são solitárias. Chegando o agrotóxico vai acabar com elas e aí não tem polinização, outras espécies vegetais que precisam das abelhas para reprodução vão acabar, como a castanha e o piquiá", explica João Silva.

Os produtores rurais estão se organizando, buscando assistência técnica e apoio jurídico junto a entidades, como o Ministério Público Estadual. Eles lamentam o tempo perdido, mas dizem que é hora de reagir.

Natalino Ferreira lembra que o problema é antigo, mas que reação, embora tardia, é necessária." Se no começo a gente tivesse esse movimento a gente teria mais chances de resistir ao uso de agrotóxicos", constata o produtor.

Valdir Lima, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Mojui dos Campos, é outro produtor que diz que é preciso resistir. Ele critica a simples legalização do uso de agrotóxicos. " Esse agrotóxico que estão usando está dentro da legislação, isso só não resolve. Temos que acabar com o veneno que nos mata", reforçou.

Nesta terça feira(5), em Santarém, o Ministério Público faz um seminário para debater os efeitos do uso de agrotóxicos na agricultura. O Fórum Regional de Combate aos impactos causados por agrotóxicos do Baixo Amazonas discute entre os temas, a mortandade de abelhas. 

O promotor Túlio Novaes é quem está coordenando os debates. Ele diz que o veneno é causa de doenças.

" O ideal era banir o agrotóxico. A gente tem tecnologia suficiente para encontrar uma alternativa ao uso do veneno. A gente se engana, não vê logo o efeito imediato, mas depois ocorrem muitos problemas. Hoje a gente nota um monte de doenças que não existiam há 20 anos, que nossos pais não tinham. O uso do veneno na agricultura está destruindo a nossa sociedade", ressaltou Túlio Novaes.


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