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Amazônia tem onda de saques a embarcações por ‘piratas de rio’

O Estado de São Paulo - 20/05/2024

Órgãos de segurança fazem ofensiva contra roubos a embarcações no rio Amazonas - Créditos: A Crítica / Arquivo

 

 

Grupos criminosos conhecidos como “piratas de rio” e especializados em saquear embarcações de cargas que trafegam pela região estão proliferando nos estados da Amazônia. Fortemente armados e usando lanchas para as abordagens, os “piratas” atacam principalmente navios carregados de combustível, informa Ítalo Del Ré. No Estado do Amazonas, mais de 7,7 milhões de litros de combustível foram roubados entre 2020 e 2023 em ataques a embarcações de transportadores. Em meio à rotina de medo, empresas passaram a contratar escolta armada para proteger cargas maiores.

 

Enquanto moradores da Ilha de Santana (AP) se recolhem para dormir, um grupo de dez criminosos parte de lá em pequenos barcos rumo ao Pará. O alvo são grandes embarcações que passam carregadas de combustível pelo Rio Amazonas. Com a tripulação rendida sob armas e ameaças, a ação dos “piratas dos rios” costuma ser rápida. Logo eles fogem, com os barris roubados, pelo emaranhado hídrico da região.

 

No Estado do Amazonas, só em ataques contra embarcações de transportadores, mais de 7,7 milhões de litros de combustível foram levados do fim de 2020 a 2023, segundo levantamento do sindicato local das Empresas de Navegação Fluvial (Sindarma). “O combustível é o maior foco desses tipos de criminosos pela facilidade de se desfazerem dele e comercializá-lo de forma ilegal”, diz Algenor Teixeira Filho, secretário executivo de Operações Integradas da Secretaria de Segurança do Amazonas. Segundo ele, por mais que eletroeletrônicos e outros tipos de carga possam ter maior valor agregado, costuma ser mais trabalhoso vendê-los a terceiros do que o diesel, por exemplo. Além disso, é mais fácil identificá-los quando são roubados.

 

Os piratas – também chamados de “ratos d’água” – não necessariamente têm elo com facções. Mas o avanço na região de organizações como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) atrai outros tipos de crime, como roubo de armas e combustíveis. Em meio à rotina de medo e instabilidade, empresas contratam até escolta armada para proteger cargas maiores. Para incrementar a segurança, recorrem a botões de emergência, câmeras de monitoramento e até ao Starlink, serviço de internet da SpaceX, do bilionário americano Elon Musk.

 

BARCOS PEQUENOS. Em geral, os piratas chegam em lanchas ou barcos pequenos, o que facilita fugas após os roubos e a distribuição das mercadorias para outros barcos envolvidos. Os alvos mais comuns são os cargueiros mais lentos, com menor poder de reação.

 

Estimativa da Polícia Federal indica que só a atuação do grupo descrito no começo da reportagem causava prejuízo mensal de R$ 150 mil a uma das empresas afetadas. No fim do ano passado, o delegado Bruno Belo, da PF, comandou a Operação Detour, que cumpriu 12 mandados de busca e apreensão em endereços de supostos membros da quadrilha. As embarcações apreendidas na ação totalizam mais de R$ 1 milhão. Segundo Belo, a Ilha de Santana, de onde partiam os principais suspeitos de integrar o grupo, tem forte atuação da facção local Amigos Para Sempre (APS), mas também tem crescido por lá a presença do CV, considerado dominante na Região Norte.

 

As facções costumam cobrar um “pedágio” de grupos menores que entram com produtos roubados na ilha. Em alguns casos, os piratas chegam a mirar até cargas de cocaína e skunk, importadas pelas facções de países vizinhos, como Peru, Colômbia e Bolívia. Depois, revendem o que roubam a grupos rivais. O delegado Belo diz que os roubos ocorrem mesmo em rios pequenos, que são centrais para a vida dos moradores, mas não tão policiados como as cidades.

 

Um exemplo é o Estreito de Breves, ao sul da Ilha de Marajó. Em 2022, ele recebeu a primeira base fluvial lançada pelo governo do Pará, na altura do município de Antônio Lemos, para combater a alta de roubos de carga. O foco nesse ponto considerado estratégico, que liga o Rio Amazonas à região metropolitana de Belém, foi importante para ajudar a diminuir as ocorrências envolvendo embarcações nos anos seguintes, diz a gestão estadual. Mesmo com a desaceleração, esse tipo de roubo ainda preocupa, diante das dificuldades de fiscalização no território amplo e complexo.

 

“A disputa pelo controle dos rios se dá de forma extremamente violenta, com embates entre grupos criminosos fortemente armados, no meio de intensa troca de tiros”, afirma Igor Starling, promotor do Ministério Público do Amazonas. “É uma constante guerra entre criminosos para a tomada dos pontos de controle dos rivais.”

 

 

 

PREJUÍZO. Levantamento do Instituto Combustível Legal (ICL) aponta que a atuação dos piratas causa prejuízo anual de cerca de R$ 100 milhões nas atividades de transporte de cargas pelo Rio Amazonas. “Esse número leva em conta gastos adicionais – com empresas tendo de contratar escolta armada –, outros investimentos em segurança e o próprio roubo”, diz Emerson Kapaz, presidente da entidade. Já os 7,7 milhões de litros de combustível roubados em ataques contra embarcações causaram prejuízos de R$ 48 milhões num intervalo de três anos (de outubro de 2020 a dezembro de 2023), segundo o Sindarma.

 

Compostos por pelo menos quatro ladrões, os grupos agem fortemente armados, inclusive com fuzis, e às vezes chegam de forma silenciosa e com luzes apagadas. A violência é comum nas ações. Em um caso, um tripulante de um navio vindo do Chipre foi amarrado pelos pés e mãos. Celulares e outros itens dos marinheiros também são roubados.

 

‘FOI UM SUSTO’. Um marinheiro de 30 anos que pediu para não ter o nome revelado conta que, após terminar seu plantão em um navio cargueiro, foi para o dormitório e, assim que fechou a porta, ouviu tiros. “Foi um susto, nós (tripulantes) nos jogamos no chão”, diz ele. Dois seguranças armados impediram o roubo. A ação ocorreu em janeiro, por volta de 19h, perto do Rio Amazonas. Quando o navio foi atacado, tinha acabado de passar pelo Estreito de Breves. “Foram cinco minutos de troca de tiros que mais pareceram uma eternidade”, diz o marinheiro.

 

Diante dos roubos, os governos estaduais têm tentado aumentar a segurança na região. Hoje, o Pará tem a base fluvial de Antônio Lemos, no Estreito de Breves, e prevê instalar outras duas até o fim do ano: em Óbidos, às margens do Amazonas, e em Abaetetuba, próximo à Ilha do Capim. Já o Amazonas tem quatro bases, sendo duas móveis – a Tiradentes, no Alto Solimões, e a Paulo Pinto Nery, próxima da foz do Rio Madeira – e duas fixas – a Arpão 1, perto do município de Coari, no Rio Solimões, e a Arpão 2, no Rio Negro. A última foi inaugurada no começo deste ano.

 

 




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