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Populações do campo, da floresta e das regiões ribeirinhas ainda têm pouco acesso à saúde

Sílvia Vieira, Repórter do Portal OEstadoNet - 26/04/2016

Créditos: Virgínia Corrêa, do Ministério da Saúde

Em Santarém para participar como debatedora do I Fórum de Determinantes Sociais em Saúde, que está sendo realizado no campus Tapajós da Ufopa, Virgínia Corrêa, do Departamento de Apoio na Gestão Participativa, do Ministério da Saúde, falou em entrevista ao Portal O EstadoNet sobre os esforços que vem sendo feitos pelo governo federal para ampliar o atendimento à saúde para as populações da floresta, do campo e da cidade. Virgínia reconheceu que ainda há muito o que se se avançar para que mais pessoas tenham acesso aos serviços de saúde pública, e que a questão perpassa pela interiorização dos profissionais de Medicina.

O EstadoNet – Em que pese todos os esforços feitos pelo Ministério da Saúde ainda há muito o que se avançar para ampliação do atendimento às populações da floresta, do campo e das águas.

Virgínia Corrêa – Exato. Os dados que a gente tem aqui na região de Santarém mostram que o acesso à saúde ainda é muito baixo. A gente precisa ampliar o número de unidades, ampliar o número de agentes comunitários de saúde, ampliar o quantitativo de médicos. O Ministério tem feito um esforço tanto na ampliação de vagas nos cursos de medicina, como também, de auxiliar de enfermagem de todos os cursos na área da saúde. Além dessa ampliação, também que essa grade curricular não seja uma grade mercadológica que faça com que ao invés de o estudante voltar para a sua cidade, ele venha a procurar grandes centros. A importância da interiorização dos profissionais de saúde é fundamental para que a gente tenha uma qualidade no serviço prestado a essa população. O Ministério tem buscado fazer as adequações para ampliar o acesso à saúde das populações do campo, da floresta e das águas. Mas eu concordo que ainda tem muito o que avançar.

O EstadoNet – A política de saúde integral às populações do campo foi instituída com qual finalidade?

Virgínia Corrêa - Em 2011 foi instituída a política nacional de saúde integral para a população do campo, da floresta e das águas. Essa política visa minimizar os problemas que são enfrentados por essa população, historicamente, de dificuldade de acesso na questão da saúde, devido aos problemas de deslocamento, dificuldade da saúde chegar até essas populações mais afastadas, inclusive às populações ribeirinhas que aqui no Pará tem um grande quantitativo. O Ministério da Saúde tem feito readequações nas políticas públicas para atender essas populações.

O EstadoNet – Que programas e ações estão contemplados dentro da política nacional de saúde integral às populações do campo?

Virgínia Corrêa - Dentro dessas políticas públicas a gente tem o programa Mais Médicos que internaliza e interioriza os médicos nas regiões mais carentes de acesso à saúde. A gente tem também as UBSs Fluviais e as equipes de saúde da família ribeirinhas, que têm um financiamento diferenciado e que visa atender essas populações que tem dificuldade de acesso à saúde, porque nos grandes centros urbanos você tem facilidade de deslocamento e facilidade de acesso a hospitais, a exames clínicos, que a população que mora em regiões mais afastadas no campo, na floresta e nas regiões das águas, tem dificuldade. Além disso, os problemas de saúde também são diferentes e é importante a gente observar isso, porque o modo de vida e trabalho dessas populações causam problemas de saúde muito específicos. Por exemplo, o uso de agrotóxicos na agricultura causa problemas de saúde; a questão das picadas de cobra e de outros animais peçonhentos; a questão da falta de saneamento básico; a questão da falta de água potável. Tudo isso causa problemas de saúde muito peculiares nessa região e precisam de um atendimento e de um olhar mais cuidado dos profissionais de saúde para essas populações.

O EstadoNet – Dentro do processo de monitoramento das políticas de saúde, a participação social tem papel decisivo, mas ainda ocorre de forma tímida, não é mesmo?

Virgínia Corrêa – Sim. É por isso que nós também trazemos para o coletivo a importância da participação no controle social. É fundamental a participação da população e dos movimentos sociais organizados nos conselhos de saúde dos seus municípios, para que possam fazer a fiscalização e o monitoramento dessas políticas públicas que precisam ser implementadas no município. Além disso, a gente tem também os centros de referência da saúde do trabalhador, os CERESTs que fazem o acompanhamento de todas essas situações de adoecimento no trabalho das populações do campo, da floresta das águas. É um espaço que foi construído pelo Ministério para fazer esse monitoramento e para dar esse suporte às populações e fazer o registro dos agravos dos problemas de saúde, para que a gente possa ter condições de implementar as políticas públicas que visem minimizar essas situações.

O EstadoNet – O registro dos agravos ajuda no processo de decisão de quais ações serão direcionadas para cada público?

Virgínia Corrêa – Registrar os agravos de saúde é primordial. Porque quando você não tem o registro dos problemas de saúde, você também não tem como construir políticas públicas que tenham condições reais de influenciar no processo histórico, pois são esses dados que fazem com que a gente tenha condições de pautar internamente os órgãos do governo federal, para que a gente possa fazer as alterações e adequações das políticas públicas, a fim de amenizar o sofrimento das populações do campo, da floresta e das águas.

O EstadoNet – Como é que o Ministério da Saúde vê os conhecimentos tradicionais das populações do campo, da floresta e das regiões ribeirinhas?

Virgínia Corrêa - As pessoas têm os seus cuidados de saúde e a gente precisa respeitá-los, e precisa estimulá-los, porque há anos elas se tratam com seus conhecimentos tradicionais; elas fazem os seus partos com parteiras, em casa; elas têm os conhecimentos que a gente chama de fitoterápicos, que é o uso das ervas, dos produtos naturais, que vai para além desse uso mercadológico dos medicamentos que a gente compra na farmácia. É importante que a gente estimule esses cuidados tradicionais da população e que isso seja passado de geração para geração, porque com o envelhecimento da nossa população e com a falta de preocupação da transferência desses conhecimentos tradicionais muita coisa está se perdendo. E o Ministério tem também esse cuidado em capacitar parteiras, em estimular as práticas de cuidado tradicional, em registrar os fitoterápicos, fazer a produção e a distribuição dos fitoterápicos. Isso traz o empoderamento para a população desses cuidados tradicionais dessa forma de vida, de cuidado e de produção de conhecimento e de trabalhar dessas populações do campo, da floresta e das águas.




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