Verão julho

Trabalho infantil ocorre em maior proporção na zona rural

Sílvia Vieira, Repórter de O Estado do Tapajós - 18/09/2015

Pablo Oliveira Feijão, do CREAS de Oriximiná -

Identificar os locais e em que atividades a mão de obra infantil vem sendo utilizada é uma das tarefas que os 16 municípios da região do Baixo Amazonas e Tapajós, que assinaram Termo de Aceite com o Governo Federal, têm que cumprir para o enfrentamento do trabalho infantil. A zona rural, segundo gestores e servidores da rede de assistência social, é a área onde o problema ocorre em maior proporção.

Em geral, as crianças são colocadas para trabalhar pelos próprios pais na agricultura, na pesca e em outras atividades rurais para ajudar no sustento de duas famílias.

Para enfrentar o problema, no município de Oriximiná, a gestão municipal, através do Creas – Centro Especializado de Assistência Social, tem realizado caravanas e parceria com a equipe volante para ações de conscientização no interior.

“Em Oriximiná observamos vendedores ambulantes, recebemos algumas denúncias sobre crianças vendem churrasquinho até tarde da noite e pela manhã chegam cansadas e com sono na escola; trabalhos em oficinas e em lavagens de veículos. Mas na zona rural, segundo o IBGE, a ocorrência de trabalho infantil é três vezes maior que na cidade”, conta o psicólogo Pablo Oliveira Feijão, do Creas de Oriximiná.

Segundo Pablo, Oriximiná está entre os municípios paraenses com grande incidência de trabalho infantil, tanto que foi notificado pelo MDS. Segundo dados do IBGE de 2010, mais de mil casos de trabalho infantil foram registrados no município. Mas, desde o início do ano a administração municipal está planejando e realizando ações para combater o trabalho infantil, inclusive com a realização de reuniões com órgãos parceiros para traçar estratégias de enfrentamento.

“Uma estratégia nossa foi a parceira com a Secretaria de Educação para reuniões nas escolas com os pais de alunos. Nós levamos palestras sobre o trabalho infantil, sobre os direitos das crianças. É um trabalho muito interessante que tem dado muito certo porque a gente conseguiu chegar até às famílias. As escolas cedem o espaço de uma hora para a gente falar sobre o trabalho infantil e os pais estão comparecendo. Ainda temos muito a fazer, mas essa é uma estratégia que tem dado muito certo”, relata Pablo.

Trabalho doméstico

No município de Óbidos, embora o serviço social não receba muitas denúncias de trabalho infantil, a rede de proteção à criança e ao adolescente sabe que os casos existem, principalmente no ambiente doméstico.

“O que acontece em Óbidos, que eu acredito que também acontece nos demais municípios é que o trabalho infantil não é mais tão visível. A gente tem observado que o acontece na região é geralmente crianças que vem do interior com a promessa de estudar e acabam tendo que trabalhar no ambiente doméstico, o que dificulta a identificação do problema”, pontua Ana Paula Araújo, psicóloga do Creas de Óbidos.

Como parte da ação de combate ao trabalho infantil em Óbidos, o município tem feito campanhas para sensibilizar a comunidade; incursões no lixão para conversar com os catadores a fim de que eles não aceitem crianças trabalhando naquele ambiente que é insalubre; ação na escola com palestras para tentar conscientizar as crianças sobre seus direitos, porque criança tem que estar na escola e não trabalhando.

“Desde o início desse ano a gente não tem tido denúncias, mas a gente sabe que os casos existem, mas invisível aos nossos olhos. Mas a gente está trabalhando em parceria com as secretarias de Saúde e Educação para estar indo em busca desses casos. Houve um redesenho do Peti e a gente está aqui bolando estratégias para erradicar o trabalho infantil até 2020. Até 2016 a gente espera ter um plano para bolar estratégias para eliminar as piores formas de trabalho infantil. A nossa região é muito propícia a trabalho agrícola que fica na zona rural e a gente não vê também, porque a gente sabe que a maior parte do trabalho infantil se concentra na zona rural”, ressalta Ana Paula.

Ana Paula, de Óbidos, psicóloga.

A psicóloga diz que a questão cultural é um entrave à erradicação do trabalho infantil, porque a comunidade acaba levando ao pé da letra aquela velha ideia: Eu trabalhei e não morri, então meu filho também pode trabalhar desde criança. “Mas não é assim, e a gente tem que quebrar esse ciclo, essa questão cultural. Porque as pessoas acham que quem trabalha desde cedo tem mais responsabilidade, tem mais chance de crescer na vida, mas as sequelas disso ficam para a vida toda. Muitas vezes é preciso que a criança se acidente, se machuque, para que ela seja poupada do trabalho”, finalizou.




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