BANPARÁ BIO 2
Alfabetiza junho

Outono

23/03/2015

Dedicado a F.Garcia

 

Hoje começa o outono.

Em breve vão surgir folhas amarelas, marrons, vermelhas e pingos de verde. É a vernissage do outono. Vem depois uma pintura monótona e triste em tons de cinza. É assim na natureza.

No inverno, o frio enseja recolhimento do reino vegetal, hibernação de animais. Um recolhimento ao casulo para economia de energia para esbanjá-la nas estações seguintes.

A Primavera é como a erupção de um vulcão do bem que lança larvas coloridas, flores e plantas, com suas coroas douradas, para deleite dos bichos em busca de comida. É aqui que ocorre a explosão da vida e a renovação de forças via ímpetos irresistíveis, como bichos irrequietos, afoitos...  

Já no verão, celebramos com alegria de criança a festa daquilo que somos e sonhamos. Um baile alegre sob a luz do sol que desfrutamos agarrados à eternidade desse momento breve. É o bronzeamento da alma que está em jogo.

Hoje começa o outono...

Já antecipo árvores peladas, folhas mortas que se agitam no chão como se vivas fossem a cochichar segredos ao vento, outras que saem voando a esmo tal borboletas descoloridas, tristes, inocentes fantasmas da estação.  

Penso que os humanos têm estações igualmente definidas. O que dizer do verão da juventude quando tudo é festa, alegria, nessa eternidade passageira?   Como não ligar o inverno ao recolhimento para a reflexão junto a fogueiras que com suas labaredas a tudo lambem como a cauterizar feridas de estações passadas? Como escapar da primavera da vida em que o homem se reinventa pelo desejo de ir além de suas fronteiras, resistir a partir das trincheiras edificadas em jardins floridos, reatando-se a si mesmo através de túneis e pontes da imaginação?

O outono dos homens começa quando desfolhamos para a realidade da perda tão penosamente impiedosa e tão impiedosamente penosa. Desfolhamos no outono, na agonia de cada pedaço que se aparta, como ensejo desesperado e urgente para o exercício de resignação...

Ah como os outonos sabem esconder por debaixo de seus coloridos a mensagem sub-reptícia da perda! O sofrimento humano é sempre oportunidade para reflexão sobre esse momento inexorável da vida...




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