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Açaí brasileiro ganha o mundo e vira febre lá fora

Lúcio Flávio Pinto/ Douglas Gavras / Folha de S. Paulo. - 16/10/2023

Créditos: Imagem ilustrativa

Douglas Gavras / Folha de S. Paulo.

 

CHICAGO – "É diferente de tudo que já provei, parece uma sobremesa, mas vale por uma refeição. Sempre trago uma amiga para experimentar açaí depois da academia", diz a contadora Emily Clark, 23, ao sair de uma lanchonete no centro de Chicago com uma tigela, coberta com morangos e mirtilos.

 

Já o jornalista Douglas Toh, 25, se espanta ao saber que o açaí é consumido diariamente no norte do Brasil —em Singapura, uma tigela não sai por menos de R$ 40 na moeda local e, apesar de o fruto ter virado uma febre em seu país, só dá para comprá-lo de vez em quando.

 

O Brasil é o maior produtor mundial de açaí e mais de 90% da produção é do Pará, que também é o seu principal mercado consumidor.

 

Em 2022, o estado exportou mais de 8,158 mil toneladas de açaí, movimentando mais de US$ 26,5 milhões (R$ 133,8 milhões), segundo dados da Fiepa (Federação das Indústrias do Estado do Pará) e do CIN (Centro Internacional de Negócios do Pará).

 

As exportações de derivados do açaí cresceram exponencialmente nos últimos anos. Apenas entre 2019, antes da pandemia, e 2022, o aumento foi de 132,5%, segundo cálculos das duas entidades baseados no Comex Stat (plataforma de dados de comércio exterior do governo federal).

 

Os principais importadores hoje são Estados nidosJapãoAustrália e países europeus, mas há um interesse crescente em outros mercados do oriente, sobretudo ChinaSingapura e Índia.

 

 

Funcionárias em linha de produção da Xingu Fruit, em Castanhal (PA), que faz beneficiamento de açaí
Funcionárias em linha de produção da Xingu Fruit, em Castanhal (PA) - Reprodução

 

 

"Muitos estrangeiros e brasileiros acabam fazendo negócios lá fora. Temos clientes na Califórnia que montaram uma loja e ajudaram a divulgar o produto. Um outro foi para Dubai, nos Emirados Árabes, e apresentou o açaí", conta Uberlândio dos Santos, sócio da paraense Xingu Fruit. "O mercado aceita muito bem, ele se torna interessante onde chega."

 

A empresa de Santos trabalha com cooperativas e grandes produtores, recebe o fruto e faz polpa, sorbet (sobremesa sem leite) e sorvete. 65% das vendas são para o mercado nacional e o restante é para exportação.

 

"O mercado nacional cresce muito mais rápido, já que muitas cidades do Brasil ainda estão descobrindo o produto, mas o volume de exportação também vem aumentando."

 

Dono desde 2014 da Açaí Town, Murilo Santucci trabalhava no setor de tecnologia, programando anúncios para a internet até conhecer uma casa de açaí aberta por um amigo. "Ele nos ensinou como era a operação e minha namorada e eu pensamos que aquilo poderia dar certo em Tatuí (SP)."

 

O empresário chegou a ter quatro lojas físicas na cidade e pesquisando um pouco mais sobre o mercado, Santucci viu que a grande oportunidade estava em exportar. No fim de 2016, já estava participando de um programa de capacitação da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e montou, com recursos próprios, uma fabriqueta dentro de um contêiner.

 

"Em 2017, passei a fazer o que sabia, traduzir anúncios para a internet. Começamos a exportar em 2018, para o Canadá e os Emirados Árabes. O pessoal pedia uma encomenda pequena para conhecer o produto —duas semanas depois, já pediam mais", lembra.

 

A produção cresceu e ele já vendeu sorvete de açaí a 20 países. "O que a gente percebe é que ele ainda é novidade. Recebemos recentemente uma delegação do Nepal e outra do Iraque. Eles querem o produto."

 

Inicialmente, o açaizeiro era valorado economicamente por conta do palmito produzido a partir de sua palmeira. Por suas propriedades nutricionais e antioxidantes, o açaí foi se tornando popular como um "superalimento" para fazer sucos, vitaminas e sobremesas com granola e outras frutas.

 

A partir da década de 1990, a produção de frutos, que vinha quase que exclusivamente do extrativismo, passou a ser obtida de açaizais nativos manejados e de cultivos realizados em áreas de várzea e de terra firme, conforme relembra a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

 

A safra geralmente começa em agosto e vai até dezembro, tem seu ápice entre setembro e outubro. Além de seu uso gastronômico, o açaí também serve de insumo para a fabricação de cosméticos, como hidratantes e xampus, e suas sementes são reaproveitadas para fazer artesanato.

 

Os produtores locais sentem o aumento da demanda, o que coloca o açaí como um exemplo de "bioeconomia" que gera renda para os moradores da Amazônia sem desmatar a floresta.

 

Mas apesar de o 'boom' deste fruto no exterior ter beneficiado economicamente produtores tradicionais da Amazônia, o açaí ainda está longe de ser destaque nas exportações do Pará.

 

Quando considerados todos os produtos, os dados apontam que os paraenses venderam US$ 21,5 bilhões (R$ 108,6 bilhões) no ano passado, com destaque para minério de ferro (US$ 12,8 bilhões ou R$ 64,6 bilhões), soja (US$ 1,4 bilhão ou R$ 7,1 bilhões) e carne bovina (US$ 608 milhões ou R$ 3,1 bilhões).

 

Por outro lado, a exploração excessiva do produto já preocupa pesquisadores, que temem a concentração do cultivo de açaí e a substituição de outras espécies visando o aumento da demanda pelo produto.

 

Quem falou sobre isso à agência de notícias AFP foi o biólogo Madson Freitas, pesquisador no MPEG (Museu Paraense Emílio Goeldi) e coautor de um estudo sobre este fenômeno, chamado de "açaízação".

 

"Naturalmente, o açaí atinge 50, 60, 100 touceiras [conjunto de ramos da planta] por hectare. Quando chega ao nível de 200 por hectare, a gente perde 60% da diversidade de outras espécies de plantas que naturalmente ocorrem na várzea", diz o pesquisador.

 

A perda destas outras espécies vegetais também acaba tornando o açaí menos produtivo pela redução de polinizadores como abelhas, formigas e vespas. Já os períodos prolongados de seca, que podem se intensificar devido às mudanças climáticas, impactam o desenvolvimento dos frutos.

 

Freitas, que vem de uma comunidade quilombola no Pará, diz acreditar que reforçar as regras de preservação e a fiscalização pode ajudar a combater a monocultura. No entanto, é necessário oferecer incentivos aos produtores para que "mantenham a floresta em pé".

 

Um exemplo positivo é o Manejaí (Centro de Referência em Manejo de Açaizais Nativos do Marajó), desenvolvido pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que capacita produtores para preservar as demais espécies e, assim, aumentar a produtividade do açaí.

 

"Manejar o ambiente florestal, para transformá-lo em açaizal, quer dizer combinar os açaizeiros com as demais espécies vegetais existentes na floresta utilizando-se de técnicas, trabalho e consciência ecológica", diz o guia para os produtores publicado pela entidade.

 

 

Funcionário em linha de produção da Açaí Town, em Tatuí (SP), que exporta sorvete de açaí para 20 países
Funcionário em linha de produção da Açaí Town, em Tatuí (SP) - Divulgação

 

 

Segundo Santos, da Xingu Fruit, as próprias certificações internacionais já têm sido cada vez mais rigorosas para evitar a monocultura. "O açaí, para ter rentabilidade, precisa de diversidade. O nosso produto é orgânico, principalmente para exportação, e precisa da biodiversidade para ser melhor."

 

MEU COMENTÁRIO

 

Sinto um cheiro de borracha nesse ciclo de expansão acelerada da produção de açaí. Hoje, os resultados são animadores e prometem criar muita riqueza. Mas sua longevidade ou a manutenção dos índices de crescimento e de faturamento já estão postas em questão. Tanto internamente, pela expansão da monocultura, concentração econômica e problemas fitopatológicos, como por situações externas.

 

A diversificação dos produtos à base do açaí, nos mercados nacional e internacional, está sendo acompanhada pela agregação de componentes estranhos à cultura do açaí. O consumidor de fora recebe um produto diluído, em que o gosto original (apreciado pelos paraenses) cada vez mais distante.

 

Como aconteceu com as essências aromáticas, o açaí será – e já é – apenas um dos componentes da mistura, talvez o residual. O gosto do consumidor externo está sendo cultivado com base nessa mistura e adição de granola, banana, leite e etc.

 

Não se trata de uma preocupação apenas com a tradição, que ficará ainda mais ameaçada quando a exportação subir dos atuais 35% para mais de 50% da produção – ou muito mais. Se o governo não agir logo para conferir um valor maior o açaí maior pureza original, criando um terroir para o açaí, não teremos aprendido as lições de outros produtos. Sem agir sobre o gosto do consumidor externo, será como estarmos vendendo um tipo qualquer de champanhe e não o verdadeiro champanhe francês. Um açaí mais barato e com maior taxa de lucro para o intermediador, sem a possibilidade de evitar práticas predatórias.




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