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Qual o futuro de Belo Monte?

Lúcio Flávio Pinto - 13/01/2021

A Norte Energia diz ter acumulado uma perda de receita de 850 milhões de reais entre 2018 e 2020. Dispunha energia para vender, mas não de linhas de transmissão para colocá-la nos mercados consumidores. A dona das linhas é outra empresa, que está com cronograma atrasado e com dificuldades de financiamento. Essa perda deverá atingir R$ 1 bilhão no final de 2022, segundo a empresa, que opera a maior hidrelétrica inteiramente brasileira e a quarta do mundo, no rio Xingu, no Pará, a mais de dois mil quilômetros dos principais centros econômicos do país. A obra custou mais de R$ 40 bilhões; 80% do seu custo foi financiado pelo BNDES.

 

A capacidade de geração de energia da usina é de mais de 11 mil megawatts. No pique de produção, poderia atender 60 milhões de pessoas. Mas essa potência só é atingida durante os seis meses do inverno amazônico, quando chove muito e a vazão dos rios chega ao máximo. Com a queda, que paralisa as máquinas durante quatro meses, a energia média durante todo ano é de apenas 40%, abaixo da viabilidade econômica, segundo alguns cálculos.

 

Mesmo que esse valor seja rentável, até que as linhas de transmissão atinjam o pleno funcionamento, talvez em 2013, até o final do próximo ano a Norte Energia terá que se manter no vermelho. Para aliviar seu caixa, a empresa sugeriu a instalação de uma térmica ao lado da hidrelétrica. O custo de geração seria bem maior, mas a companhia contaria com subsídio para manter essa unidade complementar.

 

Números à parte e ultrapassados os fatores conjunturais, há uma questão permanente: a vazão do rio Xingu é suficiente mesmo para sustentar a produção da usina, mesmo considerando a energia firme, de apenas 40% em relação ao volume total de projeto?

 

A Norte Energia se comprometeu a garantir uma vazão rio abaixo equivalente à descarga natural do Xingu e só transferir, pelo desvio que foi aberto para fora da calha do rio, por um canal artificial, dos maiores do mundo, uma vez mantido o fluxo na grande volta que ele, em suas margens habitadas por caboclos e índios.

 

A ONS, o órgão do governo federal que controla a atividade pela perspectiva da energia, diz que a vazão está sendo a definida no projeto. O Ibama, responsável pela proteção do meio ambiente, também agência federal, argumenta que não, com o apoio do Ministério Público Federal e da população. Sustentadas as posições antagônicas, talvez só uma mediação externa resolva a controvérsia.

 

Ainda que haja, por fim, um acordo, dificilmente um novo contencioso não venha a surgir proximamente. A razão é de fundo e de origem. A realidade mostra como é difícil, se não impossível, garantir o funcionamento de uma hidrelétrica do porte de Belo Monte com uma disponibilidade de água que diminui 30 vezes do inverno para o verão e sem um reservatório compatível.

 

Cada uma das 18 gigantescas turbinas precisa de 13 milhões litros de água por segundo para gerar megawatts. No pico do verão a vazão é de 700 mil litros por segundo. Como a hidrelétrica é a fio d’água, retém pouca água, que chega à barragem e segue seu curso. Seu reservatório é de menos de 500 quilômetros quadrados. Em Tucuruí, com capacidade para 8,4 mil megawatts (quase 4 mil MW a menos), o lago artificial é seis vezes maior, de pouco mais de 3 mil km2.

 

A tentativa de conciliar o inconciliável através de uma engenharia inédita na construção de grandes barragens no mundo resultou na criação de um monstro. Agora ele se mostra indomável.

(Publicado no site Amazônia Real)




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