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Fora, Bolsonaro!

Lúcio Flávio Pinto - 10/01/2021

Todos os chefes de Estado e de governo dos países mais importantes do mundo, à esquerda ou à direita do espectro político e ideológico central, foram os primeiros a tomar a vacina contra o novo coronavírus, onde ela começou a ser aplicada. Todos eles, também, condenaram a invasão do prédio do Congresso dos Estados Unidos, em Washington, por milhares dos mais fanáticos defensores de Donald Trump. Não deixando de apontar a responsabilidade do presidente e destacar a gravidade desse ato não só para os EUA como para todo mundo.

 

Todos, menos o presidente da república do Brasil, a oitava mais importante nação do planeta. O Brasil foi rebaixado, no contexto internacional, a menos do que a república banana do passado oligárquico e primário. É, agora, um país atrasado, discrepante de todas as democracias reconhecidas como tal no conjunto mundial, a despeito de suas deficiências e vícios.

 

Nem mesmo líderes que se identificavam com Trump, como o israelense Benjamin Netanyahu ou o inglês Boris Johnson, o acompanharam na sua tresloucada aventura para se manter no cargo, do qual o povo americano, mesmo que por pequena margem de votos, o tirou.

 

O surgimento, desenvolvimento e exclusão dessa aventura alerta, sobretudo o Ocidente, para uma questão: o vazio de liderança nessa parte hegemônica do mundo, que segue o comando americano desde o início da guerra fria. Se os Estados Unidos não contiverem a sangria interna e não promoverem a cicatrização da enorme ferida causada ao sistema político do país por um gangster, como, afinal, Trump revelou ser (e desde sempre), quem ocupará esse vácuo?

 

O único líder que permaneceu até agora com o inacreditável Donald Trump foi o capitão Jair Messias Bolsonaro. Enquanto o mundo ainda não saíra do choque diante das imagens da selvagem invasão do Capitólio, o presidente brasileiro se saiu com esta avaliação dos acontecimentos (cujos trechos mais expressivos grifei):

 

“O pessoal tem que analisar o que aconteceu nas eleições americanas agora, basicamente qual foi o problema, a causa dessa crise toda: falta de confiança no voto. Lá, o pessoal votou e potencializaram o voto pelos Correios por causa da tal da pandemia e teve gente que votou três, quatro vezes. Mortos votaram, foi uma festa lá. Ninguém pode negar isso daí, então a falta de confiança levou a esse problema que está acontecendo lá. E aqui no Brasil se tivermos o voto eletrônico em 22 vai ser a mesma coisa, a fraude existe”.

 

Apesar do clamor mundial, Bolsonaro não teve o menor pudor ou incômodo em declarar: “Eu acompanhei tudo. Você sabe que eu sou ligado ao Trump. Você sabe da minha resposta. Agora muita denúncia de fraude, muita denúncia de fraude”, continuou a repetir, já então com mais ênfase do que o próprio guru.

 

Surpresa? Não. Nem em relação a Trump nem a Bolsonaro. Menos de quatro meses atrás, nem em 2 de setembro, quando o Brasil passou de 120 mil mortes pela covid-19, o presidente Bolsonaro voltou a minimizar os efeitos da doença. Reafirmou que "um cara bem preparado" não tem com o que se preocupar em relação a essa "tal de pandemia".

 

Ao ser acometido pelo vírus, em julho, ele se valeu do próprio exemplo para tentar como mais um argumento para negar a pandemia.

 

Em evento fechado no Palácio do Planalto, novamente comparou a doença a uma "chuva".

 

A declaração literal:

 

"Quando se fala também nessa tal de pandemia, que desde o início eu apanhei muito... Eu falava 'quem tem um bom preparo, está bem de saúde, não tem com o que se preocupar, pô'. É igual a uma chuva, pô. Se o cara está com um problema qualquer, chuvinha vira uma pneumonia e pode ter problema", disse.

 

Como dono da verdade, completou: "Se o cara está bem preparado, é o meu caso, apesar dos 65 anos, vocês vão chegar lá ainda, não adianta ficar rindo", afirmou, em tom de brincadeira.

 

Portanto, quando ele diz que o episódio americano, se for repetido no Brasil, será em escala ainda pior, pensa que aqui essa “tal de pandemia” levará o povo brasileiro a uma descrença ainda mais profunda no voto, posto em dúvida desde agora. Só pela fraude ele poderá deixar de ser eleito. Como Trumpo, ele não aceitará o resultado.

 

Bolsonaro está se preparando para esse momento desde que se elegeu presidente. Mesmo vitorioso, ele sustenta (como sempre, sem apresentar provas, o que considera desnecessário diante da sua palavra de messias, de mito, de dono do país) que a fraude o impediu de conseguir a vitória mais facilmente, já no primeiro turno.

 

A derrota em 2022, então, é inadmissível para ele. Se não vencer, fará pior do que ele. Daí os ataques que faz ou fomenta ao judiciário, ao legislativo, à imprensa e aos opositores em geral com palavras e instrumentos físicos.

 

O que estão fazendo os brasileiros sensatos, racionais, patriotas e democratas de centro, de direita e de esquerda para impedir esse fim antecipado? Vão deixar para agir na undécima hora para combater e afastar esse perigo anunciado, quando pode ser mais tardio do que aconteceu nos Estados Unidos, onde a democracia é mais antiga e mais sólida do que a nossa?

 

Fora, Bolsonaro. Já. Enquanto é tempo.




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