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A submissão à servidão

Lúcio Flávio Pinto - 28/10/2020

As reflexões de Cristina Gemaque lançam luz sobre questões do cotidiano a partir de fontes mais profundas de análise, encaixando na dinâmica do pensamento humano e da história. Por isso, publico o artigo que ela enviou ao blog.

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La Boétie tinha apenas 16 anos, segundo Montaigne, quando escreveu o tratado Da Servidão Voluntária Eram muito próximos, tanto que Montaigne ficou ao lado de seu leito de morte até o fim, o que não era tarefa para qualquer um, considerando que La Boétie provavelmente contraiu a peste. Coube a Montaigne publicar a sua obra, 18 anos após seu falecimento, inserida em Ensaios. Houve até quem atribuísse a autoria da obra a Montaigne, conforme relata Sarah Bakewell no livro Como Viver, uma biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de resposta.

 

La Boétie indaga quais os motivos de os homens servirem miseravelmente "não mais pressionados por uma grande força, mas ao contrário (ao que parece) encantados e enfeitiçados". Observa que não é o medo que faz o homem servir tão prontamente ao tirano, mas o seu próprio desejo de tiranizar também, do que decorre que é o próprio povo que dá ao tirano os meios com os quais este lhe submete.

 

O desejo da tirania, segundo La Boétie, origina-se do desejo de posse e é para a garantia dela que o homem serve voluntariamente ao tirano e aos seus representantes. Reconhece, então, que o costume ocasiona a servidão e esta passa a ser vista como natural. O processo de naturalização da servidão é proporcional ao de desnaturalização da liberdade.

 

Nesta altura, fica claro que o poder de mando não é imanente ao tirano, mas provém de quem o serve. Estes "tiranetes" se estruturam de forma hierarquizada, como numa pirâmide, tentando tomar parte do poder do tirano e acabam por tiranizar uns aos outros. Quanto mais no topo o homem se encontra, menos livre ele é, pois mais voltado para o contentamento do tirano ele está, renunciando mais a sua liberdade.

 

Ainda quanto às relações de poder estabelecidas num sistema político, Hannah Arendt resgata a noção anterior à concepção de que líderes mandam e liderados obedecem, no sentido de que uma ação consiste num empreendimento conjunto, em que são partes o líder e os que participam desta empresa. Assim, obedecer ao líder equivale a apoiá-lo; logo, como diz Arendt, "faria muito mais sentido considerar o funcionamento dos "dentes da engrenagem" e das rodas em termos do apoio global e um empreendimento comum do que em nossos termos habituais de obediência aos superiores”.

 

Trago à tona esses dois pensadores porque uma das frases mais comentadas ultimamente é a que diz que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Ouvi muito essa frase no ambiente de trabalho, sempre me incomodou esse caráter "Pôncio Pilatos" da frase, querendo isentar de qualquer responsabilidade o sujeito da ação unicamente por não ser o autor da ordem. 

 

Ao fazer a cobertura do julgamento de Adolf Eichmann, responsável pelo transporte de judeus para os campos de extermínio, Arendt se defrontou com um funcionário público que obedecia à ordem legal da Alemanha daquela época e que tinha sempre em mente que "uma ordem era uma lei, não havia exceções" – e nas palavras dele, uma ordem de Hitler era uma lei –, tanto assim que quando Eichmann recebeu ordem de Himmler para suspender a evacuação de judeus húngaros, ele ameaçou "pedir novas ordens ao Führer". Então, como condená-lo, se agia em consonância com a ordem legal vigente daquela época?

 

A escritora Rosa Montero, em seu livro A Louca da Casa, expõe brilhantemente que a busca de um ponto de equilíbrio com o poder se dá tanto na esfera pública quanto na privada. As relações de poder estão presentes na vida social, na vida amorosa, familiar e profissional.

 

Assim como Arendt confia menos nos devotados às regras vigentes, Montero desconfia dos puros: "eles me apavoram. Dessa pureza fictícia nascem os linchadores, os inquisidores, os fanáticos. Não se pode ser puro sendo humano, de modo que os outros vão se adaptando em sua relação mutável e escorregadia com o poder".

 

Arendt destaca o papel do pensamento no processo de distinção entre o certo e o errado, questionando se "a incapacidade de pensar coincide com um fracasso desastroso do que comumente chamamos de consciência". Ela mostra como são frágeis os padrões morais e as regras de conduta e ressalta que por trás da capacidade de julgar por si próprio está o exercício do pensamento, entendido como o diálogo silencioso que se faz entre si e si mesmo, sendo este autoexame salutar na medida em que o homem analisa as condutas morais vigentes e não simplesmente toma delas a sua própria.

 

A liberdade que temos de interpretar valores, normas e princípios nos torna sujeito de nossas experiências.

 

Ao recusar essa interpretação, recusa-se à liberdade, Faço, portanto, uma correção no ditado para acrescentar um "não": manda quem pode, obedece quem não tem juízo, pois a mensagem da frase é a obediência cega, é a abdicação da faculdade de juízo do homem. 

 

Ou será que esse homem avalia muito bem a situação, mas prefere tirar proveito dela? Nesse caso, ele trocaria sua consciência pela posse de bens, poder, status, servindo voluntariamente, aceitando livremente esse jugo. Quantas atitudes desnecessárias são feitas para agradar, quanto desperdício de tempo e dinheiro para angariar simpatia, quanta energia despendida para "unir as duas mãos e abraçar a servidão"?




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