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O estranho alquimista

Lúcio Flávio Pinto - 23/10/2020

O Instituto Butantan, de São Paulo, tem 120 anos. Há 30 anos produz vacinas. Tem respeitabilidade internacional, assim como o Instituto Osvaldo Cruz, do Rio de Janeiro.

 

Os representantes das duas instituições estiveram na reunião com o ministério de Saúde para tomar as decisões preparatórias para a vacinação contra a covid-19, acompanhando assim todos os países centrais do mundo. Qual vai ser a vacina, ninguém pode antecipar. Os testes sequer foram concluídos. Mas da aprovação à vacinação, a distância é grande e as tarefas, imensas.

 

Todas as partes saíram satisfeitas da reunião. Apesar de suas diferenças, deram uma partida consensual à operação que resultará na vacinação em massa num país com mais de 210 milhões de habitantes e 8,5 milhões de quilômetros quadrados.

 

Quem não estava na reunião (porque não quis, porque considera o tema de segunda linha) mudou tudo antes de terminar o dia. Recusou-se a referendar a carta de intenções assinada pelo ministro da Saúde (que é um general do Exército), apelidou a vacina à qual o Brasil se associou de "vacina chinesa do Dória" (governador de São Paulo) e insinuou conspiração chinesa por trás dessa vacina. Tufou o peito para proclamar que ele é quem manda e desfazer todo entendimento técnico, baseado na sua própria ciência, que talvez seja a patafísica.

 

Hoje, o ministro, de cara lavada e rindo, admitiu, ao lado do chefe, que quem pode manda e quem tem juízo obedece. Os assuntos públicos estão se avacalhando definitivamente no Brasil, por obra e graça de um presidente que é uma versão disparatada e desregulada dos alquimistas. O que ele toca não vira ouro. Vira - digamos assim - lama.




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