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Memória de Santarém: O regresso de Sebastião Tapajós, há 31 anos

Paulo Roberto Ferreira. 21/06/1999 - 16/08/2020

Jornalista Paulo Roberto Ferreira e Sebastião Tapajós durante entrevista em Santarém - Créditos: Arquivo/Gazeta Mercantil

O violonista Sebastião Tapajós deixou sua base no Rio de Janeiro e voltou a se instalar em Santarém, 40 anos depois que saiu da região Oeste do Pará. Muito festejado no Brasil inteiro e principalmente no exterior, o instrumentista realiza um velho sonho acalentado durante décadas, que era voltar à terra onde se criou, já que nasceu num barco a caminho de Santarém, em pleno rio Surubiú, que passa em frente à cidade de Alenquer.

 

Tapajós pretende aproveitar os poucos dias de folga em sua agenda para pescar, viajar de barco pelos rios Tapajós, Arapiuns e outros, além de rever localidades e cidades do interior amazônico.”Essa terra é muito bonita, muito rica, farta em peixes, principalmente Jaraqui e Tucunaré. Essa beleza me inspira e serve também para recarregar minhas baterias”, diz o compositor.

 

Ele lembra que essa convivência com o mundo amazônico já se reflete no último disco lançado, que foi a trilha do filme “Lendas Amazônicas”, de Ronaldo Passarinho Filho e Moisés  Magalhães, que foi lançado com patrocínio do Banco da Amazônia. Agora, Tapajós está preparando um outro disco que segue a mesma tendência, e as músicas são batizadas com nomes regionais de pássaros, rios, tribos indígenas etc.

 

Mas entre um mergulho e outro na cultura regional, Sebastião Tapajós volta aos grandes palcos estrangeiros, ora acompanhado por um grande músico brasileiro ou por orquestras sinfônicas. Só este ano participou de três turnês internacionais: Argentina, onde passou três meses em Mar Del Plata, Espanha e França. Uma semana depois de chegar a Santarém, seguiu para Santa Catarina e Brasília.

 

Tapajós já lançou 67 discos em sua longa carreira. Uma de suas boas recordações foi poder tocar ao lado de grandes músicos com Baden Powell, Altamiro Carrilho, Hermetto Pascoal, Sivuca, Egberto Gismont, Paulo Mouro e tantos outros. Lembra seu especial carinho com o músico argentino que revolucionou o tango, Astor Piazolla, que chegou a fazer a apresentação de um de seus discos.

 

Mas o sucesso e o reconhecimento do público não mexeram com o jeito simples e tranquilo do músico paraense que tanto se apresenta numa grande sala de espetáculos das grandes metrópoles, como no “Jariloca”, o clube dos funcionários da Jari, município de Almeirim, onde se apresentou recentemente. “Não faço diferença de palco, gosto de mostrar o meu trabalho para qualquer tipo de plateia, principalmente para gente simples, que sempre demonstra uma grande sensibilidade para a música”, declara o instrumentista.

 

 

Os discos de Tapajós são encontrados com mais facilidade no exterior que no  Brasil, apesar de suas músicas serem executadas com frequência nas nossas emissoras de rádio e televisão. O direito autoral ainda é uma ficção se comparado com o tratamento que os organismos  de arrecadação dedicam aos músicos  na Europa, analisa. O que ele recebe da Gema, uma instituição de direitos autorais da Alemanha, representa algo em torno de quatro mil vezes mais o que recebe no Brasil.   

 

A tiragem de seus discos também é bastante desproporcional. No exterior, para cada disco lançado, são gravadas 40 mil cópias, enquanto que no Brasil o máximo é de dez mil cópias. Tapajós explica que a música instrumental brasileira é muito reconhecida no exterior, por causa do talento de seus compositores e intérpretes. Mas nem sempre são valorizados pelos meios de comunicação de massa locais. Ele faz questão de ressaltar que a crônica especializada sempre reconheceu o seu trabalho, mas lembra que o poder de influência da televisão brasileira é muito grande, porém só informa o que é de sua conveniência.

 

Apesar disso, os jovens estão cada vez mais se interessando pela boa música, diz o compositor. Nas suas apresentações pelo País, tem observado que a maioria da plateia é constituída por gente jovem, ávida por conhecer o trabalho dos veteranos e também dos novos valores que estão surgindo no cenário musical.

 

Apesar da longa carreira internacional, Sebastião Tapajós confessa que não fala nenhum outro idioma que não seja o português. Sempre trata de contratos com intérpretes e não tem nenhum tipo de empresário no exterior, no Rio de Janeiro ou São Paulo. As única exceções ão o jornalista Avelino do Valle, que cuida de sua agenda em Belém, e Oldemar Alves, em Santarém.

 




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