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A elite no paraíso

Lúcio Flávio Pinto - 20/07/2020

O que une a “carteirada” que um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo aplicou no sábado a um guarda municipal, que chamou de analfabeto, ao ser multado por andar sem máscara em uma praia de Santos, e as multidões flagradas sem máscara, em hiper-ajuntamento e intensa bebedeira nas praias do litoral do Pará?

Um grego antigo diria que os dois casos revelam o pecado de hubris. Em seu significado original, a expressão é mais do que arrogância gratuita ou orgulho infundado, conforme a tradução moderna. Hubris é o ato desencadeador de uma sequência que pode resultar em nemesis, “a retribuição divina”, e culminar em ate, “a total e cega destruição e aniquilamento”. Um processo refinado no teatro grego, sempre à disposição dos interessados em buscar o significado humano mais profundo da história.

Três jornalistas ingleses recorreram a esse referencial da cultura clássica para definir o que aconteceu nos Estados Unidos em 1968: a guerra do Vietnã seguia em desenfreada escalada até 500 mil americanos envolvidos na guerra no sudeste asiático; os jovens fugiam do recrutamento migrando para países próximos; o assassinato de Martin Luther King espalhava um rastilho de pólvora em várias cidades americanas marcadas pelo conflito racial; e o presidente que iniciara o maior projeto de reforma social do país, sob rejeição crescente, tomava a rara decisão de um presidente dos EUA de não concorrer à reeleição.

Aplicando a matriz grega ao melodrama americano, os jornalistas ressaltaram que o pecado hubrístico que inspirou sua análise da América de 1968 “não reside em quaisquer motivos maléficos, mas numa concepção sistemática dos próprios poderes e do próprio lugar no universo, tão orgulhosa, tão presunçosa e tão errônea, que só pode acabar em desastre”.

Enquanto o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira desdenhava e humilhava o guarda Cícero Hilário Roza Neto, as pessoas passavam normalmente por eles, sem atentar para qualquer anomalia na cena. O desembargador falava manso, educadamente, sem gritar. Até mesmo sorria, tanto para o guarda, que saíra do carro para lavrar a multa, como para o motorista, que filmava o que acontecia, fazendo para a câmera o sinal de positivo com o dedo polegar.

A reação do homem da justiça ao ser abordado foi se debruçar na janela do veículo e dizer para o guarda que não usava máscara, sem subir o tom da voz. Advertido de que um decreto municipal impunha o uso do equipamento de proteção, respondeu, olímpico, que decreto não tem força de lei. Logo, não podia impor-lhe a ordem do prefeito santista.

Um tanto cioso da sua autoridade, o guarda comunicou ao cidadão que ia descer do carro para multa-lo. O desembargador até abriu a porta para permitir a passagem do guarda. Mas quando Cícero (nome originário da velha república romana bem simbólico para a situação) começou a escrever no papel, ignorando o princípio processual do direito, sua excelência sacou sua agenda eletrônica para ligar para o secretário de segurança pública, embora não deixasse de assinalar que o secretário é que deveria ligar para ele e não o inverso.

Tentou forçar o guarda a receber o celular para falar com o secretário, que, certamente, iria ordenar-lhe que esquecesse o decreto, a lei e tudo mais, para liberar a autoridade judiciária seguir seu passeio pela praia, mas o guarda se recusou a pegar o aparelho. Ainda em tom de voz civilizado, o desembargador o advertiu que já enfrentara constrangimento semelhante e reagira à multa rasgando e jogando o papel no peito do outro guarda.

Ainda assim, Cícero completou a lavratura e deu a cópia ao desembargador. Ato contínuo, sua excelência rasgou e amassou o papel, atirando-o ao chão (com isso cometendo mais uma infração). E foi-se, civilizadamente arrogante e orgulhoso de si. Talvez certíssimo de que, mais uma vez, a multi-bilionésima vez, sua posição na hierarquia social o colocará acima das camadas de turbulência.

Para os milhares de veranistas espalhados por Outeiro, Mosqueiro e Salinas, uns em cima dos outros, com carros por todos os lados da praia atlântica, o único assunto que não deve ter tido popularidade nas suas conversas deve ter sido a pandemia do coronavírus. Em uma semana só houve uma morte causada pela doença no Pará, segundo o registro oficial. Logo, o perigo passou, a prisão domiciliar acabou, pernas pro ar que ninguém é de ferro.

Afinal, a autoridade máxima do país, não sancionou o “liberou geral”, apesar de todas as suas afirmativas e previsões sobre a covid-19 tenham desmoronado? E mesmo aparecendo em vídeos declarando-se muito bem, capaz de logo estar em plena atividade, sua aparência desmentir suas palavras?

Ébrios de confiança e de certeza (e também de muito álcool), todos irão para o paraíso, como profetizava – para a classe operária – um filme italiano moralmente irônico nos anos 1960, numa época tão parecida com 1968 quanto o nosso 2020.

 




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