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O gabinete do ódio dos Bolsonaro

Lúcio Flávio Pinto - 09/07/2020

O uso intenso e competente das redes sociais foi um dos fatores da vitória de Jair Bolsonaro na eleição de 2018 para a presidência da república, a um custo menor do que numa campanha convencional. O tom direto, violento e inteligente da linguagem dessas mídias se devia a um grupo de jovens que se agregou aos dirigentes da campanha. O clima de campanha eleitoral abonou as virtudes dessa ferramenta e acentuou os seus defeitos e vícios.

Na presidência, Bolsonaro trouxe consigo essa estrutura de ação e combate, parte da qual ele colocou ao seu lado, no 3º andar do Palácio do Planalto, em Brasília, num conjunto que passou a ser tratado como “gabinete do ódio”. A desenvoltura continuou a ser a sua marca. Foi ignorado que agora esses jovens eram assessores do governo federal, recebiam remuneração do erário, ocupavam instalações públicas, estavam sujeitos a código ético e moral.

Bolsonaro tomou uma decisão grave quando, logo no início do mandatoexcluiu a Secretaria Especial de Comunicação da administração de suas contas pessoais em redes sociais, delegando esse poder aos assessores diretos.

Em uma primeira reportagem, publicada em setembro do ano passado, e em uma matéria de hoje, a propósito da exclusão que o Facebook fez de páginas ligadas a Bolsonaro, O Estado de S. Paulo reuniu o maior conjunto de informações já publicadas pela imprensa, que permitem uma melhor avaliação desse assunto.

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A investigação que levou o Facebook derrubar páginas ligadas a uma rede de fake news e perfis falsos identificou Tercio Arnaud Tomaz como um dos responsáveis por alguns dos perfis. Trata-se do assessor especial da Presidência, que despacha diariamente no 3o. andar do Palácio do Planalto, em uma sala a poucos passos do gabinete do presidente Jair Bolsonaro.

Ao lado de José Matheus Salles Gomes Mateus Matos Diniz, também assessores da Presidência, Tercio integra o chamado “gabinete do ódio”, grupo coordenado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho “02” do presidente. A existência do núcleo dentro do Palácio do Planalto foi revelado pelo Estadão no ano passado.

Com perfil discreto, Tercio é responsável por cuidar de “redes sociais”, mas não detalha a sua função. Segundo relatos de ministros palacianos, o grupo de assessores especiais ao qual faz parte costuma alimentar as redes sociais do presidente e fazer relatórios diários sobre fatos do País e do mundo. Diferentemente de seus antecessores, Bolsonaro optou por tirar a administração de suas contas pessoais em redes sociais da Secretaria Especial de Comunicação (Secom) logo no início do mandato.

O nome de Tercio consta na investigação feita por especialistas do Digital Forensic Research Lab (DRFLab), grupo ligado ao Atlantic Council, instituição que realiza análise independente de dados do Facebook.

O relatório da DRFLab aponta que Tercio administrava páginas e contas com conteúdo de ataques a adversários políticos do governo, em muitos casos com conteúdo considerado “enganoso” e que mistura “meias-verdades para chegar a conclusões falsas”. A ele são atribuídos perfis como “Bolsonaro Oppressor 2.0”, que chegou a ter um milhão de seguidores, mas saiu do ar, e a BolsonaroNewsss.

“Muitas páginas do conjunto foram dedicadas à publicação de memes e conteúdo pró-Bolsonaro enquanto atacavam rivais políticos. Uma dessas páginas foi a página do Instagram @bolsonaronewsss. A página é anônima, mas as informações de registro encontradas no código fonte confirmam que pertence ao Tércio Arnaud”, diz trecho do relatório DRFLab.

Em agosto do ano passado, Bolsonaro compartilhou, pelo Facebook, uma publicação que chama o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Lava Jato, de “esquerdista estilo PSOL”. O link divulgado pelo presidente redirecionava a página para um post do perfil “Bolsonaro Opressor 2.0”, atribuído a Tercio.

Antes de atuar no governo, Tercio trabalhou para o gabinete do vereador Carlos Bolsonaro no Rio de Janeiro. Ele ocupava cargo de auxiliar de gabinete.

No período da campanha eleitoral, Tercio atuava como assessor informal de Bolsonaro e divulgava compromissos do então candidato para jornalistas. Este ano, o empresário Paulo Marinho, ex-aliado de Bolsonaro, afirmou que Tercio também frequentava a sua residência.

Procurado, Tercio não quis comentar o conteúdo do relatório. O Palácio do Planalto também não se manifestou.

Relatório indentifica dois assessores do gabinete de Eduardo Bolsonaro

O DRFLab também identificou dois assessores do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho “03” do presidente, como responsáveis por operar a rede derrubada nesta quarta-feira. São eles Paulo Eduardo Lopes (conhecido como Paulo Chuchu) e Eduardo Guimarães.

Guimarães é funcionário do gabinete de Eduardo Bolsonaro na Câmara. Já Oliveira foi exonerado no dia 26 de junho e agora está registrado como assessor do gabinete do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), aliado do governo.

O relatório do DRFLab cita a página “Bolsofeios” como sendo de Guimarães. A ligação já havia sido apontada pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Fake News, que identificou atualizações do perfil a partir de um celular do assessor de Eduardo.

A reportagem ligou e enviou mensagens para Paulo Eduardo Lopes e Eduardo Guimarães, mas eles não retornaram até a publicação desta notícia. Eduardo Bolsonaro também não respondeu.

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Palácio do Planalto abriga um núcleo de assessores que tem forte influência sobre o presidente Jair Bolsonaro e é conhecido como “gabinete do ódio”. Defensores da pauta de costumes, eles produzem relatórios diários, com suas intepretações, sobre fatos do Brasil e do mundo e são responsáveis pelas redes sociais da Presidência da República. Essa ala ideológica faz a cabeça de Bolsonaro e o incentiva a adotar um estilo beligerante, além de ofuscar a nova coordenação política, comandada pelo ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos.

Com a senha das redes do pai, o vereador licenciado Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), o “zero dois” do presidente, dá ordens para os assessores Tércio Arnaud Tomaz, José Matheus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz. Os três são da confiança do vereador e também do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) – o filho “zero três”, que Bolsonaro quer emplacar na Embaixada dos Estados Unidos. O senador Flávio Bolsonaro (PSL- RJ), primogênito, tem horror ao trio.

Filipe Martins, o assessor para Assuntos Internacionais de Bolsonaro, também faz parte desse grupo. Tércio, José Matheus, Diniz e Filipe despacham no terceiro andar do Planalto, ao lado do presidente. Outro integrante do núcleo é Célio Faria Júnior, que Bolsonaro trouxe da Marinha e hoje é chefe da Assessoria Especial da Presidência.

Com carta branca para entrar no Planalto, o assessor parlamentar Leonardo Rodrigues de Jesus, o Leo Índio, primo dos filhos de Bolsonaro, virou uma espécie de “espião voluntário” do governo. Léo Índio já produziu dossiês informais de “infiltrados e comunistas” nas estruturas federais, como revelou o Estado. O então ministro da Secretaria de Governo, general Carlos Alberto dos Santos Cruz, comprou briga com Carlos e com ele. Foi demitido.

Quando Flávio saiu de férias e viajou para a Bahia, em meados de julho, auxiliares de Bolsonaro no Planalto ficaram preocupados. A portas fechadas, no segundo andar daquele prédio erguido com colunas “leves como penas pousando no chão”, como gostava de comparar o arquiteto Oscar Niemeyer, um assessor chegou a dizer que, sem Flávio em Brasília, o “gabinete do ódio” ficaria incontrolável.

O comentário reflete a tensão que tomou conta do Planalto. Nos bastidores, essa “repartição” é vista como responsável pelo afastamento cada vez maior entre Flávio e Carlos, também apelidado de “Carluxo”. Considerado o “pit bull” da família, Carlos cria estratégias para as mídias digitais do pai e sempre defendeu a tática do confronto para administrar, em oposição a Flávio, dono de estilo conciliador.

Na prática, mesmo quando não está em Brasília, o vereador comanda o núcleo ideológico, emite opiniões polêmicas, chama a imprensa de “lixo” e lança provocações contra aliados do pai, como o vice-presidente Hamilton Mourão, tido por essa ala como “traidor”.

Gabinete não aceita interferência da Secom

A equipe do “gabinete do ódio” não aceita interferências dos profissionais da Secretaria de Comunicação. Segue ordens de Carlos, que atua sob a inspiração do escritor Olavo de Carvalho, e várias vezes já convenceu Bolsonaro a adotar posição mais dura, como no fim de julho, quando ele desistiu de receber o chanceler da França, Jean-Yves Le Drian, em julho, e depois apareceu em uma “live” cortando o cabelo, em um estilo “gente como a gente”.

Flávio, vira e mexe, pede para o pai baixar o tom. Às vezes é ouvido, fato que provoca a ira do “zero dois”. Mesmo investigado no caso de Fabrício Queiroz – o ex-assessor suspeito de comandar um esquema de “rachadinha” para pagar salários de servidores, na Assembleia do Rio –, o senador tem atuado como articulador nas relações do Planalto com o Congresso, ao lado do general Ramos.

Em jantares com senadores, Flávio leva o irmão Eduardo a tiracolo, diz que o conhecimento do caçula sobre os EUA vai muito além do hambúrguer e tenta apaziguar atritos provocados por Carlos nas redes sociais.

“Esse núcleo ideológico atrapalha muito nossa vida aqui no Congresso”, disse o deputado Coronel Tadeu (PSL-SP). “Desse jeito, o PSL vai acabar sofrendo uma derrota atrás da outra.”

Nos últimos dias, um tuíte de Carlos azedou o clima na Câmara, no Senado e no Supremo Tribunal Federal (STF). O vereador escreveu que “por vias democráticas, a transformação que o Brasil quer não acontecerá no ritmo que almejamos”. Bolsonaro apoiou o filho. Flávio ficou em silêncio. O primogênito disse a um amigo que, se fizesse algum comentário, exporia uma crise.

Além do senador, a primeira-dama Michelle também consegue fazer o marido amenizar os tuítes, de vez em quando. Foi ela, por exemplo, quem pediu para o presidente apagar comentário feito por ele em um post de internauta dizendo que a mulher do presidente da França, Emmanuel Macron, era feia. Michelle considerou a mensagem machista e deselegante.




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