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Covid no Norte: o perigo ainda não passou

Lúcio Flávio Pinto/José Eustáquio Diniz Alves - 16/06/2020

O estudo que reproduzo é um dos mais profundos que já li sobre a pandemia do coronavírus na região Norte, a mais castigada do Brasil. O autor mostra que a curva da ocorrência de casos e de mortes registrada uma tendência à queda, o que é inquestionável.

 

O problema é que justamente essa curva descendente levou os governos a relaxar as medidas de combate à covid-19, talvez antes do momento adequado. Os menores registros não significam ainda que o pico passou, ao menos de forma consolidada.

 

O desrespeito às medidas de isolamento e de aglomeração social podem provocar um refluxo, colocando a perder as conquistas alcançadas, se não forem imediatamente novas iniciativas de correção dessa liberação (entendida por muita gente como liberou geral).

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Diário da Covid-19: Cai o número de casos e de mortes na região Norte

 

Queda não ocorre em todos os estados, mas tendência de enfraquecimento da pandemia na região acontece pela segunda semana seguida

 

A região Norte é o território brasileiro mais impactado pela covid-19 e que possui os maiores coeficientes de incidência e de mortalidade. As cenas de colapso do sistema de saúde e do sistema funerário em Manaus, em abril de 2020, entristeceram o Brasil e as imagens amazonenses rodaram o mundo como exemplo de emergência sanitária e de crise humanitária. Mas parece que o pior já passou. Felizmente, os números de novos casos e de novas mortes provocadas pelo Sars-Cov-2 estão diminuindo no conjunto da região Norte. A queda não ocorre em todos os estados, mas principalmente nas maiores Unidades, o que faz a média regional cair.

 

Pode ser ainda precipitado considerar que o Brasil chegou ao pico da pandemia e já tenha começado a descer a curva. Deve-se ter precaução e evitar comemoração antes da hora. Mas depois de três meses de quarentena e muito sacrifício das pessoas, das famílias e das empresas, o distanciamento social parece ter surtido efeito e evitado um avanço ainda maior do contágio e da perda de vidas. O Brasil já é o segundo país com maior número acumulado de casos e de mortes do mundo (atrás apenas dos EUA), mas no ranking dos valores diários o Brasil vem mantendo o primeiro lugar ao longo do mês de junho.

 

Desta forma, a notícia de que a região Norte apresentou redução do número médio diário de casos e de mortes durante o mês de junho é uma boa nova e vem se somar a outras notícias positivas trazidas no Diário de 12/06/2020, “Pandemia reduz o ritmo nas capitais brasileiras” e no Diário do de 14/06/2020, “Já dá para ver alguma luz no fim do túnel”. A 25ª Semana Epidemiológica (14 a 20 de junho) começou com uma variação diária moderada em relação à semana anterior. No domingo, foram registrados 17.110 casos e 612 óbitos nas últimas 24 horas. Vamos acompanhar os próximos dias para analisar os dados e ver se realmente o pior já ficou para trás.

 

Panorama brasileiro e regional

 

O Brasil terminou a 24ª Semana Epidemiológica (SE) com 850,5 mil pessoas infectadas e 42,7 mil vidas perdidas, com uma taxa de letalidade de 5%, no dia 13 de junho. Mas estes números estão distribuídos de forma desigual no território nacional. A região Sul é a menos impactada, proporcionalmente, com um coeficiente de incidência de 1.231 casos por milhão de habitantes e um coeficiente de mortalidade de 28 óbitos por milhão. Em seguida, em situação intermediária, aparecem as regiões Centro-Oeste e Sudeste. As duas regiões mais próximas da linha do equador, são as mais atingidas pelo novo coronavírus.

 

 

O Nordeste tem um coeficiente de incidência de 5.239 casos por milhão (5 vezes mais do que a média mundial de 1.008 casos por milhão) e um coeficiente de mortalidade de 238 óbitos por milhão (4,3 vezes mais do que a média mundial de 55 por milhão). Mas os piores números estão na região Norte com coeficiente de incidência de 9.419 casos por milhão (mais do dobro da média nacional e 9,3 vezes mais do que a média mundial) e um coeficiente de mortalidade de 421 óbitos por milhão (mais do dobro da média nacional e 7,6 vezes mais do que a média mundial). Mas os números ruins da região Norte aconteceram nos meses de abril e maio, pois no mês de junho os números do conjunto da região começaram a diminuir, como veremos a seguir.

 

Panorama da região Norte

 

Os 7 estados da região Norte tinham, em conjunto, apenas 26 casos no dia 21 de março, passando para 337 casos no dia 01 de abril, avançando para 11,9 mil no dia 01 de maio, dando um salto para 109,2 mil no dia 01 de junho e alcançando 175,9 mil no dia 13 de junho. Mas, a despeito deste rápido aumento, a tendência já está desacelerando como mostra o gráfico abaixo. Acompanhando toda a série de dados, há uma subida muito forte, mas o ajuste polinomial de terceiro grau indica uma estabilidade já no mês de junho.

 

 

O gráfico abaixo mostra que o número médio de casos na região Norte na 13ª Semana Epidemiológica (SE), de 22 a 28 de março, foi de 23 casos por dia, passando para 49 casos diários na 14ª SE e chegando a 5.128 casos diários na 22ª SE (24 a 30 de maio). Porém, o quadro mudou em junho e o número diário de caso caiu nas 23ª SE (31/06 a 06/06) e na 24ª SE (07 a 13/06). Desta forma, parece que o processo de multiplicação do contágio já foi interrompido e existe uma estabilização do número de casos, inclusive com uma pequena queda. Mas existem diferenças internas na região. A queda tem acontecido nos estados do Acre, Tocantins e principalmente Amazonas. Sendo que houve ligeiro aumento dos casos no Amapá, Pará, Rondônia e Roraima.

 

 

A região Norte, em conjunto, tinha apenas 5 óbitos no dia 01 de abril, passou para 796 óbitos no dia 01 de maio, saltou para 5.736 no dia 01 de junho e chegou a 7,8 mil mortes no dia 13 de junho. Mas, a despeito deste rápido aumento, parece que o pico já foi atingido e existe uma tendência de declínio no mês de junho, conforme mostra o gráfico abaixo. O ajuste polinomial de terceiro grau indica a reversão da tendência.

 

 

Assim, em relação aos números de óbitos, o gráfico abaixo mostra que a região Norte tinha apenas 2 mortes diárias na 14ª Semana Epidemiológica (SE), de 29/03 a 04/04, passou para 8 mortes diárias na 15ª SE e chegou a 199 mortes diárias na 22ª SE (24 a 30 de maio). Mas, o mês de junho começou com valores menores, sendo 163 mortes diárias na 23ª SE (31/06 a 06/06) e 154 mortes diárias na 24ª SE (07 a 13/06). Desta forma, parece que a região Norte já ultrapassou o pico e começou a “descer a ladeira”.

 

Contudo, esta queda não é geral, pois ocorreu fundamentalmente nos estados do Amazonas e Pará (aqueles que mais tinham sofrido nos meses de abril e maio). O número de mortes ficou estável no Acre e no Amapá. Mas subiu em Rondônia, Roraima e Tocantins. Portanto, existe indicações de que a região Norte deve conseguir manter o número de mortes sob controle, mas é preciso ter atenção no que vai ocorrer no decorrer desta 24ª Semana Epidemiológica.

 

 

O mundo vai atingir o registro de 8 milhões de pessoas infectadas hoje (15/06). Mesmo desconsiderando as subnotificações, já se alcançou 1 caso para cada 1 mil habitantes do mundo (ou 1.000 casos por milhão). A marca de 9 milhões deve ser alcançada até do dia 22 de junho. Mas mesmo com este avanço do número de casos, o número diário de mortes está caindo desde o pico em abril de 2020. Ou seja, a pandemia continua, mas com uma taxa de letalidade menor.

 

O mesmo está acontecendo no Brasil e na região Norte. A taxa de letalidade está diminuindo no Brasil. Já foi de 7% e agora está em 5%. Os últimos dados sugerem que podemos estar atravessando o pico da pandemia e, talvez, os piores cenários foram afastados de vez. Mas se o país conseguiu vencer algumas batalhas parciais, ainda falta muito trabalho para se alcançar a vitória final contra o coronavírus.

 

 Frase do dia 15 de junho de 2020

“Faz escuro mas eu canto”

Thiago de Mello

Poeta amazonense

Referência:

ALVES, JED. Diário da Covid-19: Pandemia reduz o ritmo nas capitais brasileiras, #Colabora, 12/06/2020

https://projetocolabora.com.br/ods3/pandemia-reduz-o-ritmo-nas-capitais-brasileiras/

ALVES, JED. Diário da Covid-19: Já dá para ver alguma luz no fim do túnel, #Colabora, 14/06/2020

https://projetocolabora.com.br/ods3/ja-da-para-ver-alguma-luz-no-fim-do-tunel/ 

José Eustáquio Diniz AlvesJosé Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382




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