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O ministro da InCultura

Lúcio Flávio Pinto - 14/06/2020

Geopolíticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?”

Quem poderia supor que esse texto foi escrito pelo ministro da Educação da república federativa do Brasil?

Quem poderia adivinhar que o ministro Abraham Weintraub fazia uma paródia da linguagem de Cebolinha, personagem de história em quadrinhos de Maurício de Souza?

Quem se arriscaria dizer que o distúrbio de fala criado pelo desenhista brasileiro, dirigido ao público infantil, inspirou paralelo com a dificuldade que têm os chineses de pronunciar a letra “r”, de som duro, pelo “l” macio da língua portuguesa?

E quem poderia imaginar que essa grotesca imitação procurava satirizar, desmerecer e ferir o país mais populoso do mundo, que tem a segunda economia do planeta, é o maior parceiro comercial do Brasil e nos proporciona o maior saldo de divisas nessa relação de troca, e ainda sugerindo que a China poderia ter ganhos com a pandemia da Covid-19?

O ministro de Bolsonaro ocupa um cargo que, em plena ditadura getulista, foi de Gustavo Capanema, um dos mais importantes ministros da educação que o Brasil já teve, assessorado por Carlos Drummond de Andrade, de 1934 a 1945.

Depois de ser obrigado a apagar essa ignomínia da rede social, Weintraub teve que prestar esclarecimentos no inquérito da Polícia Federal, instaurado para apurar se ele cometeu crime de racismo. Tentou evitar esse depoimento recorrendo ao Supremo Tribunal Federal, que rejeitou sua pretensão.

Na PF, Weintraub se recusou a responder a perguntas. Limitou-se a entregar uma manifestação por escrito. No documento, negou que tenha tratado os chineses com discriminação e se disse ofendido por estar sendo investigado por racismo.

Ao sair, foi ovacionado por um grupo de apoiadores. Pegou um microfone e continuou as suas sandices e chacotas.

Depois disso foi censurado pelo presidente ou pelo menos alertado para a gravidade dos eu ato? Nada disso. Bolsonaro ainda baixou uma medida Provisória dando ao seu ministro o poder (inconstitucional e abusivo) de nomear quem quiser para as universidades e instituto federais que têm eleição marcada para este ano, enquanto durar a pandemia do coronavírus.

A nação brasileira, mais uma vez sujeita a uma vergonha universal, parecia que ia engolir o vexame. Um brasileiro, porém, se encarregou de impedir que a desonra passe impune e o episódio vexaminoso passe em brancas nuvens.

O historiador Vinicius Gomes Wu, de 40 anos, enviou uma notícia-crime que motivou a abertura de inquérito no STF para apurar se Wientraub cometeu racismo ao publicar o comentário jocoso nas redes sociais. O avô de Wu iniciou a saga da família ao chegar ao Brasil em 1925. Ele se sentiu ofendido e triste pelos ataques do ministro.

“Lembro que meu avô gostava muito do Brasil, sentia-se acolhido. Evidente que também vivia processos de discriminação pontuais. Principalmente essa coisa do idioma. É tão difícil para o chinês absorver o português. Ele absorveu tão bem o português. Me veio à memória ele falando português, as dificuldades”, disse à Folha de S. Paulo de hoje.

Na peça, Wu diz que a manifestação de Weintraub, “além de indigna e repugnante, é totalmente incondizente com o padrão de conduto exigido de um ministro de Estado, prejudica o Brasil em suas relações internacionais e discrimina gravemente o povo chinês e os descendentes de chineses que têm em nosso país sua pátria e sua casa”.

“Vinicius se disse surpreso por ter sido o único a recorrer à Justiça, dentre os mais de 290 mil descendentes de chineses ou chineses que habitam o Brasil. Para ele, essa é uma demonstração de desconfiança no Poder Judiciário. Por isso, a instauração do inquérito é tão importante, na sua opinião”, relata a Folha.

“São gestos como esses que podem restaurar a confiança da sociedade nas instituições, porque evidente que não fui único descendente de chinês ou único chinês habitante no Brasil que se sentiu ofendido pelas declarações do ministro”, acrescenta o historiador.

O álbum de família de Vinicius retrata a miscigenação brasileira. Bisneto de portugueses e indígenas, neto de chinês e filho de uma afrodescendente, ele recorda que, com traços negros, chamava a atenção ao passear com o avô e o pai.

Um detalhe o aproxima de nós: o avô de Vinícius, Akit Wu, se casou com uma paraense.




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