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Coronavirus: ameaça universal

Lúcio Flávio Pinto - 22/04/2020

A globalização é um fato que acompanha o homo sapiens. Sua caminhada sempre buscou a universalização da aldeia primitiva até que ela se tornasse global. A completa globalização é um fenômeno da nossa geração. Ela se tornou possível pelo surgimento da sociedade de massa, pela escala da produção da atividade econômica e pela incrível revolução (ou revoluções) das comunicações.

 

Esse conjunto de fatores forjou o casamento do tempo real com sua reconstituição virtual e a simultaneidade da vida em todo planeta. Milhões de terráqueos podem visitar museus sem saírem de casa ou percorrer os cinco continentes em viagens rápidas.

 

Tudo parecia se encaminhar ao nirvana do consumo, do aprendizado, do prazer e da afluência. Até a eclosão do coronavírus. O tamanho e o significado dessa pandemia desafiam a capacidade humana de compreensão desse fenômeno biológico - e, mais do que isso, de domínio do vírus. É um fato inteiramente novo, surpreendente e chocante.

 

Quando a epidemia ainda não tinha se espraiado pela Terra inteira, o presidente do Brasil, o oitavo maior e mais populoso país do mundo, ignorou a realidade, seu cargo, a nação que administra e a dignidade humana com sua definição insensata e ignorante. Para Jair Bolsonaro, militar de carreira medíocre e político de ação inexpressiva, tratava-se de uma gripezinha, de um resfriadinho.

 

Por se considerar um atleta e saber mais do que o mundo, mesmo sem estudar nem aprender, ele mantém essa convicção. Como ele, milhões dos seus súditos. Irritados, revoltados e muitos deles efetivamente prejudicados, pressionam para que se confinem os fracos e adoentados deixando que os atletas, batizados por essa variação bolsonarista da eugenia, trabalhem, produzam e toquem o barco, ainda que a embarcação, nos tempos anteriores à covid-19, já estivesse fazendo água.

 

Esse corona é uma mutação do vírus anterior, já codificado. Socialmente, porém, é inteiramente novo. Faz lembrar uma frase de Napoleão. Perguntado se era descendente da família Bonaparte de Florença, Napoleão respondeu com a simplicidade profunda dos gênios: "Eu não sou um descendente. Sou um antepassado".

 

O coronavírus será um antepassado de um novo tipo de doença, que desorganizou a sociedade humana como nenhuma outra antes, desfazendo os parâmetros, desafiando os seus combatentes e colocando de joelhos que, até então, parecia inexpugnável, indestrutível - como o império americano. Se outras aparecerem nos próximos anos, que devastação poderão provocar?

 

Por não deixar sintomas em grande parte das suas vítimas, usar seus corpos como plataforma de lançamento, como os mísseis humanos. Parece - aos insensatos - uma gripezinha, uma virose, uma doença menor. E pode ser isso mesmo, às vezes. Mas vai derrubando os muros e invadindo as trincheiras, desarvorando as defesas com suas mensagens falsas.

 

Uns se apegam à medicina caseira, outros saem atrás das mais diversas receitas, ou encontram a medicação salvadora. O valor de todos esses remédios é anarquicamente relativo. Certo mesmo é a morte sofrida, sob brutal sofrimento, se a cidadela rui. Mas só quem está por trás das muralhas familiares ou amigas é que sente a intensidade da dor, do medo, do pânico provocado pela perda dos referenciais e das expectativas.

 

Adaptando a famosa frase sobre a arte da guerra, a covid-19 é grave demais para que políticos e equivalentes no poder decidam o que fazer com ela em nosso nome.




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