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O vírus da desinformação

Lúcio Flávio Pinto - 08/04/2020

Uma nova polêmica em torno da pandemia do coronavírus no Brasil surgiu na segunda-feira, quando o site do Centro de Estudos Estratégicos do Exército saiu do ar. A causa não seria técnica, conforme a justificativa oficial, mas política. Um estudo feito pelo Ceeex, que é um alto órgão estratégico do Estado-Maior do Exército, publicado na quinta-feira da semana passada, contrariava o posicionamento do presidente Jair Bolsonaro a respeito da melhor estratégia para combater o coronavírus.

O presidente quer que a posição oficial seja pelo isolamento vertical da população, que só tira da circulação as pessoas mais expostas à contaminação, como os idosos e os portadores de certas doenças anteriores, como o diabetes ou problemas cardíacos graves. Mas o ministério da Saúde, seguindo a orientação da Organização Mundial de Saúde, está aplicando o isolamento horizontal, que é massivo, buscando atingir a população em geral.

Se esse é o motivo real para tirar do ar o site para excluir o estudo (a suspensão persiste), o trecho crítico é este?

“Há um consenso mundial, entre os especialistas em saúde, de que o isolamento social seja a melhor forma de prevenção do contágio, especialmente o horizontal, para toda a população. O instrumento seletivo, ou vertical, para determinados grupos de risco, é defendido por alguns especialistas e vem sendo adotado por alguns países. No entanto, é prematuro para que sejam elaboradas conclusões a cerca de seus resultados”.

O documento, de 21 páginas, que tomou por base dados coletados até 31 de março, é didático e objetivo. Ao invés de ser retirado de circulação, deveria ser difundido. É um bom termo de referência para as forças armadas em particular e o governo, como um todo. Mas também instrutivo para a população.

Lendo-o com atenção, tem-se uma medida da característica especial do novo coronavírus (SARS-Cov.2) em relação às versões anteriores (como os agressivos SARS de 2001 e o MEAS de 2012). É menos imediatamente letal, porém com um incrível poder de disseminação, a capacidade de ser assintomático e surpreender ao se manifestar, levando a muito sofrimento e morte por falta de ar e destruição da função pulmonar.

As melhores abordagens foram as dos países que combinaram a realização de testes maciços, uma excelente retaguarda hospitalar, uma ação sólida do governo e uma retaguarda cultural que favoreceu a disciplina. O Brasil não contou com esses elementos. Os testes feitos são insignificantes diante da sua população, o governo está cindido e o povo não está habituado à disciplina. Assim, qualquer que venha a ser a forma de isolamento que vença o debate, ela não terá o efeito conseguido em países como a Coreia do Sul.

Mesmo os especialistas ou os leigos profundamente empenhados em saber o que acontece e quais os rumos da pandemia, não param de se surpreender pela evolução da covid-19. O estudo do Cieex, por exemplo, prevê uma situação mais grave no sul do Brasil por causa do frio, que seria elemento agravante do vírus. Como então incluir o Ceará (3ª em número de casos} e o Amazonas (5º) nesse esquema explicativo?

O documento cita Singapura como exemplo positivo de combate, mas o próprio governo do país está admitindo que o problema se agravou e está fugindo ao controle. O mesmo acontecendo com o Japão, exemplo também apontado.

O mundo está diante de uma pandemia efetivamente nova. Vê-se obrigado a recorrer ao velho método do ensaio e erro para a primeira abordagem, com um alto preço em vidas e danos materiais e intangíveis. Os problemas aumentam quando um governo dificulta o acesso a uma das ferramentas essenciais: a informação.




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