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O que quer Bolsonaro?

Lúcio Flávio Pinto - 30/03/2020

Bolsonaro visita comércios e cumprimenta pessoas no Distrito Federal -

Os adeptos do presidente Jair Bolsonaro atribuem o seu procedimento errático, sinuoso e perigoso a boas intenções. Ele estaria convencido de que a situação real da pandemia de coronavírus não oferece a periculosidade que a imprensa tem alardeado, por si mesma e pelas declarações que acolhe. Acha que o melhor tratamento é mesmo o isolamento social, mas a quarentena deve ser restringida à população que realmente está na faixa de risco. Quem está fora desse grupo deve voltar à sua vida normal para que a atividade econômica retome a sua rotina.

 

Esse entendimento é francamente minoritário em todo mundo e só tem perdido seguidores. Mesmo chefes de Estado e de governo que partilhavam o entendimento de Bolsonaro mudaram de posição. Só ele persiste. A mudança foi ditada pelo crescimento assustador dos casos do vírus e das mortes. Num número crescente de países, a situação é de alarme.Eles já estão regredindo em suas histórias.

 

As medidas que Bolsonaro critica e se recusa a adotar colocaram esses países, como Itália, Espanha e mesmo o poderoso Estados Unidos diante de uma constatação: o mal está feito e agora o combate só vai ter resultado efetivo depois do efeito inercial da pandemia. Significa que as medidas de proteção à economia, mesmo que tenham o melhor efeito possível, achatem a curva epidemiológica e abreviem o efeito da doença, terão um preço elevado em mortes. E um custo econômico violento na retomada.

 

Suponha-se que Bolsonaro age por convicção, por acreditar sinceramente que sua tese acabará sendo confirmada. Por que, então, não age como um verdadeiro comandante do país, indo para a mídia e sustentando suas ideias, teses e números, suas recomendações e determinações para convencer a população? Por que não convoca uma audiência com representantes da sociedade, incluindo médicos, cientistas e técnicos, para debater a questão?

 

Por que o presidente age com temeridade, irreflexão e irresponsabilidade todos os dias, como hoje, quando cumprimentou e abraçou muitas pessoas, colocou uma criança nos braços, sem qualquer forma de proteção contra o vírus sabidamente virulento na sua disseminação e contaminação? Por que atua como se fosse um cidadão qualquer, como os exibicionistas, levianos e criminosos que se expõem ao contágio e expõem terceiros á contaminação, deliciando-se com a criação de mentiras de intenção ruinosa pela internet, como autênticos canalhas?

 

Por que, num clima de incerteza, medo, desorientação e pânico, o presidente desencadeia mais confusão , ansiedade e angústia ao teimar em fazer o oposto do que é a regra crescente em todo mundo atingido por essa pandemia? Por que induzir as pessoas mais suscetíveis à influência das palavras e dos gestos do mandatário supremo da nação quando há um grau elevadíssimo de incertezas entre médicos, pesquisadores e cientistas, além de autoridades públicas, sobre o que é e pode causar a covid-19?

 

Por que sabotar a diretriz saudável do isolamento social, o mais monolítico que for possível, ao menos enquanto não há uma quantidade suficiente de testes para serem usados por toda população e enquanto os mais carentes não puderam participar do isolamento por falta de apoio público à sua manutenção fora do trabalho, sem ficarem sem dinheiro, sem comida, sem esperança - e com fúria agressiva?

 

Por que não tentar desmentir o mundo deixando que o Brasil siga a regra do mundo, deixando para em seguida, ainda qu seja antes do recomendável, o momento de provar que sua tese, a do presidente, é mesmo a certa?

 

O que quer realmente Jair Messias Bolsonaro?

 

Certamente, não é o bem do Brasil.




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