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Das maiores hidrelétricas, Belo Monte é a que a menos produz energia na época da vazante dos rios

Lúcio Flávio Pinto - 08/12/2019

Usina hidreletrica de Belo Monte - Créditos: Osvaldo de Lima Norte Energia S A

As quatro maiores hidrelétricas inteiramente brasileiras, excluindo Itaipu, que é binacional (seus 14 mil megawatts partilhados ao meio com o Paraguai), se localizam na Amazônia. Em sua potência máxima, Belo Monte, no rio Xingu, e Tucuruí, n o rio Tocantins, ambas no Pará, e Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia, geram 27 mil megawatts de energia.

 

Segundo as informações das empresas concessionárias dessas usinas e os dados oficiais do governo federal, seria energia suficiente para atender 160 milhões de pessoas, ou 80% dos habitantes do Brasil.

 

Só Belo Monte, a maior e mais recente dessas hidrelétricas, daria conta da demanda de 60 milhões de consumidores em 17 Estados brasileiros. É um número tão exagerado quanto os demais, porém se sustenta na potência máxima das 18 gigantescas turbinas instaladas na casa de força principal, cada uma delas com capacidade para 620 mil MW.

 

No entanto, a usina, que já custou 42 bilhões de reais, 85% desse dinheiro financiado pelo BNDES, com juros favorecidos, para chegar a 11,3 mil MW, é a que mais perde em potência entre o inverno, quando a vazão do Xingu fica acima de 30 milhões de litros de água por segundo, a o auge da estiagem, com 700 mil litros por segundo.

 

A energia firme baixa para 40% da potência nominal, ficando em 4,6 mil MW. Logo, não pode atender os 60 milhões de habitantes citados em todos os discursos feitos na inauguração, no mês passado. A hidrelétrica que menos perde com a diminuição da vazão é a de Santo Antônio, no Madeira, que tem energia firme de quase 70% dos 3,5 mil MW de capacidade instalada. A média de Jirau, no mesmo rio, é de 57%. E a de Tucuruí, no Tocantins, a segunda maior, com potência de 8,4 mil MW, é de 49%.

 

Tucuruí e Belo Monte utilizam grandes turbinas. As 23 de Tucuruí precisam de 350 milhões de litros de água por segundo para gerar tudo que suas máquinas podem oferecer. Por isso, o reservatório de Tucuruí, a mais velha, que começou a operar no final de 1984, ocupa pouco mais de 3 mil quilômetros quadrados, armazenando 54 trilhões de litros de água.

 

Já Belo Monte, por pressão da opinião pública, que rejeitou os grandes alagamentos, quase não tem reservatório. A retenção de água para as turbinas serem movimentadas é seis vezes menor do que as do lago de Tucuruí.

 

Por isso, devido à excepcional estiagem do Xingu em outubro, a usina gerou quantidade mínima de energia, já que a vazão ficou por alguns dias no limite mínimo exigido pelo contrato de concessão. Sem a retenção de água no inverno, quando o rio atinge a sua vazão máxima, a partir de deste mês, a diferença entre o máximo e o mínimo de potência real gera a perda de 60% do máximo que as turbinas poderiam oferecer, com apenas 40% na média.

 

As duas hidrelétricas do Madeira são a fio d’água, ou seja, com fluxo corrente, sem represamento significativo. Mas suas turbinas são muito menores, com potência quase 10 vezes inferior a cada máquina de Belo Monte. No entanto, são as maiores turbinas do tipo bulbo do mundo, projetadas para atingir a plenitude mesmo com quedas inferiores de água.

 

Belo Monte possui seis turbinas bulbo na casa de força secundária. Em conjunto, geram 233 mil MW, um terço de cada uma das 18 máquinas enormes instaladas na casa de força principal, mas com muito maior energia firme, por serem realmente a fio d’água.

 

A pergunta que fica é: por que não construir apenas as turbinas bulbo, capazes de atender o consumo das áreas próximas às usinas, sem exigir as mais extensas linhas de transmissão do mundo, com amis de 2 mil quilômetros para levar a energia bruta da província energética amazônica para os grandes centros hegemônicos, no sul do país? Para consolidar a condição de colônia da Amazônia?

 

(Publicado no site Amazônia Real)




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