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Morte de Marielle: a vítima é a verdade

Lúcio Flávio Pinto - 30/10/2019

Créditos: Imagem do Facebook

O presidente Jair Bolsonaro (do PSL) se surpreendeu ao ver o governador Wilson Witzel (do PSC) chegar à sede do Clube Naval, no Rio de Janeiro. Talvez por ser a festa de aniversário de um militar, provavelmente um almirante. O governador também pareceu surpreso. Witzel se aproximou de Bolsonaro para conversarem. Informou-o que seu nome fora citado num processo. Bolsonaro, já irritado, perguntou de que processo se tratava. "Da morte da vereadora Marielle", respondeu Witzel, lacônico.

 

O encontro, reconstituído hoje por Bolsonaro, foi no dia 7. No dia 17, integrantes do Ministério Público do Rio foram a  Brasília conversar com o presidente do Supremo Tribunal Federal. Informaram o ministro Dias Toffoli sobre a referência a Bolsonaro. Nesse caso, o STF teria que se manifestar, mandando apurar os fatos, por envolverem o presidente da república. Logo em seguida, Toffoli foi ao Palácio do Planalto para uma conversa reservada com o presidente. Provavelmente para lhe transmitir a informação recebida dos promotores.

 

Todos os personagens mantiveram silêncio sobre o assunto, que só se tornou público ontem, através do Jornal Nacional da TV Globo. A emissora noticiou que, no final da tarde do dia 14 de março do ano passado, o ex-policial militar Élcio Queiroz foi ao condomínio Vivenda da Barra. Na portaria, se apresentou e disse que pretendia ir à casa 58, onde mora Jair Bolsonaro. O porteiro ligou duas vezes para a residência pelo telefone interno. Nas duas vezes, identificou a voz como sendo a do presidente.

 

O visitante, porém, não foi à casa 58. Acompanhando a trajetória do carro por câmeras internas, o porteiro constatou que o carro estacionou na casa 62, do sargento aposentado da PM Ronnie Lessa. Pouco depois, o mesmo motorista conduziu o carro  até o bairro da Lapa, onde foi assassinada a vereadora Marielle Franco, do PSOL, junto com seu motorista, Anderson Gomes.

 

Tumultos à parte, as informações divulgadas servem de confirmação sobre os assassinos, que são militares da reserva da PM, integrantes possivelmente de uma milícia, em um atentado político. O que ainda está indefinida é a cadeia de comando, que leva aos mandantes do crime. Há várias hipóteses em consideração, todas contaminadas por falhas e contradições.

 

A primeira suscita a participação de Jair Bolsonaro na trama. Ele próprio desfez essa teoria, com seu estilo estridente , autoritário, arrogante e irracional. De fato, um dia antes, no próprio dia e no dia seguinte, ele esteve em Brasília, no exercício do seu cargo de deputado federal. O registro digital é prova suficiente, à qual outras provas poderão ser juntadas.

 

A conclusão óbvia é de que a voz que atendeu o telefonema do porteiro do condomínio na casa do presidente não era a dele. Mas deve ter semelhança suficiente na voz para confundir o porteiro. Seria então de quem? O filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro, mora na casa 32 do mesmo condomínio, cedida pelo pai. A voz teria sido então de Carlos, colega de legislatura da vereadora assassinada, seu adversário político?

 

Uma vez autorizado a entrar no condomínio, por que o motorista não seguiu para a casa de Bolsonaro, desviando-se para a de Ronnie, ainda mais estando ciente da presença de câmeras de observação, que o denunciariam ao porteiro?

 

Seria porque tanto o motorista quanto a pessoa que se fez passar por Bolsonaro sabiam que ele estava em Brasília, com isso montando um álibi perfeito, que o presidente poderia exibir a qualquer momento para se defender?

 

Nesse caso, o presidente integraria o plano de morte? Ou não sabia que iriam usá-lo para criar uma pista falsa para a polícia? Mas se o porteiro julga ter ouvido a voz do presidente, quem poderia imitá-lo? O filho, Carlos? Em conluio com o pai ou sem que ele soubesse? Ou os Bolsonaro foram apenas bodes expiatórios usados pelos assassinos, aproveitando-se das ligações do pai e dos três filhos com milícias e policiais?

 

Bolsonaro reagiu, indignado e descontrolado, suscitando a possibilidade de que o porteiro tenha mentido ou tenha sido vítima de uma trama armada pelo delegado que o ouviu no processo, fazendol-o assinar em cruz o depoimento, talvez sob a inspiração do governador Wilson Witzel, que teria vazado as informações para a TV Globo. De forma categórica, e temerária, Bolsonaro garantiu que a Globo teve acesso aos autos do processo e não apenas ao livro da portaria do condomínio, como alega a emissora, caracterizando dessa forma a parceria de Witzel com a empresa.

 

Witzel teria agido assim por querer tirar de Bolsonaro a possibilidade de se candidatar à reeleição, abrindo espaço para o governador carioca disputar a presidência. A Globo, para se livrar de um inimigo, que já anunciou sua disposição de enfrentá-la para acabar com o seu poder, alimentado por muita publicidade do governo federal. Deixou a ameaça de só renovar a concessão da emissora,q ue vencerá em 2020, se o processo estiver "enxuto". A emissora reagiu assegurando que há 54 anos mantém a concessão porque age corretamente. E que não depende de verba pública para se manter.

 

Quem mente? Quem diz a verdade? Há mentiras por dentro de cada versão individual?

 

Qualquer que seja a resposta, a verdade, por linhas tortas, está cada vez mais próxima.




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