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O sublime é simples

Nicodemos Sena - Balaio Amazônico - 19/05/2019

Luiz Ruffato, mineiro de Cataguases, autor de Três contos -

Há pessoas que, ao virem à minha casa e verem as paredes cobertas por prateleiras repletas de livros e imaginarem que estão diante de um homem cheio de “sabedoria”, perguntam-me quais os livros dos quais mais gosto. Diante dessa pergunta “de criança”, eu teria que falar horas e horas; teria que me referir ao “D. Quixote” de Miguel de Cervantes, a “Os Miseráveis” de Vitor Hugo e “Robinson Crusoé” de Daniel Defoé, a “Montanha Mágica” de Thomas Mann e a todos os livros dos escavadores de almas Fiodor Dostoievski, Thomas Hardy, e do santo herege Leon Tolstói, e dos infernais Ferdinand Celine, Edgar Alan Poe, Dante Alighieri, Jack Kerouac, sem esquecer de Jack London, Willian Faulkner, Hernest Hemingway, Albert Camus, Gabriel García Márquez, Juan Rulfo, José Saramago, Fernando Pessoa, estrangeiros, e, entre nós, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Dionélio Machado, Oswaldo França Júnior, Ignácio de Loyola Brandão, Ricardo Guilherme Dick, Vicente Franz Cecim, e outras joias esplendorosas da nossa literatura de ficção. Na poesia, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Jorge de Lima e Carlos Drummond de Andrade.  Mas, certamente, poucos estariam dispostos a ouvir-me até o final. Então, para encurtar a conversa e pouparmo-nos mutuamente, costumo responder-lhes, também simplesmente, como responderia uma criança: “Gosto dos que eu gosto”. Talvez por esperarem de mim a famosa lista dos “Dez Mais”, decepção se estampa em seus rostos.

 

Pensando melhor, talvez eu devesse enfrentar meus ingênuos mas sinceros perguntadores, ainda que terminasse o dia conversando com a minha cadelinha Tapioca, que nunca me deixa sozinho. Isso porque, como disse Máximo Gorki, que integra a lista de escritores do meu coração: “As perguntas, realmente sérias, são apenas aquelas que uma criança pode formular, pois só as perguntas mais ingênuas são realmente perguntas sérias”. O mesmo Gorki afirmou: “Tudo que é sábio é simples e claro”.

 

Pensamento puxa pensamento e frase puxa frase, lembro de Graciliano Ramos dizendo que “só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida.” E, desse modo, alcanço o ponto ao qual desde o início queria chegar: para mim, o que conta são os sentimentos que brotam da vida vivida com a pureza de uma criança. O “sentimento do mundo” (Schopenhauer, Drummond).

 

Toda busca, toda ânsia humana pela felicidade não passa de saudade dos tempos sem lei nem moral em que passado, presente e futuro fundiam-se num só tempo, ou melhor, no sem-tempo, e onde as fronteiras entre lucidez e loucura são derrubadas e tudo é possível; espaço mítico, da Infância que todos buscamos, no qual “o sublime é simples”, como disse Machado de Assis, o “Bruxo” do Cosme Velho, no artigo “Instinto de nacionalidade” (1873).

 

Talvez por isso agradou-me tanto a leitura do libreto intitulado “Três contos”, de Luiz Ruffato, mineiro de Cataguases (1961) mas cidadão do mundo, uma das joias raras no quadro da literatura brasileira contemporânea.

 

Ruffato é autor de uma obra já vasta, merecedora de atenção da melhor crítica e laureada com os prêmios literários mais importantes do nosso país. Mas, nem por isso, deixou de produzir textos com a mesma simplicidade e frescor que lhe caracterizam o estilo. Observe-se, no entanto, que a referida “simplicidade” é apenas aparente, pois Ruffato é mestre na sofisticada técnica que outro grande mestre da Literatura (Miguel de Cervantes) chamou de “disfarce” ou “mentira necessária”, a qual distingue a alta literatura, realizada com arte e imaginação, da mera retratação mimética da “realidade”. Luiz Ruffato é um narrador altamente sofisticado, o que ficou claro desde o seu primeiro livro publicado (“Histórias de remorsos e rancores”, contos, 1998), passando pela invenção de “Eles eram muitos cavalos” (2001, romance, Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes e Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional), sobre o qual o escritor Ivan Ângelo afirmou: “O autor demonstra originalidade, ousadia formal, domínio da narrativa e do assunto, criação de uma linguagem que define o lugar e as pessoas”, até essas três pequeninas joias a mim trazidas nesse libreto, também tão simples (fazendo-me lembrar da “geração mimeógrafo” dos Anos 60) mas sofisticado, produzido no mesmo diapasão pelas Edições Mantiqueira, com ilustrações de Tadeu Costa, professor da disciplina Tipografia na Universidade Senac.

 

Em tempos de ilusório brilho das edições embaladas com o perfume fátuo da fama adquirida à base de fraudes, adentrei na leitura dos “três contos” de Luiz Ruffato como quem adentra em pequeno bosque plantado a um canto de terreno solitário. E não me arrependi. Li-os de uma assentada e saí com uma vontade louca de escrever um conto. Pois Ruffato é um daqueles raros escritores que suscitam nos leitores essa impressão (falsa, diga-se desde logo, pois Literatura é coisa séria, para quem nasceu com o talento e só depois se aperfeiçoa com a técnica) de que também poderiam ter imaginado e escrito as coisas trazidas na narrativa.

 

“Sausalito”, “24 de junho de 1978” e “Natal de 1981”, os contos do libreto, são como três gotas da calda do mais delicioso pudim ou três amoras no bolo do aniversariante. Quem quiser “comer” a obra toda de Luiz Ruffato bem poderá começar por esses três simples e sofisticados (e deliciosos) petiscos...

 

Senão vejamos:

 

Enredo do primeiro conto: “Sausalito”.

 

Era junho de 1962, mês da Copa do Mundo do Chile. Um pai trás para casa, trocado por dois maços de cigarros, “um vira-lata que encarnava todas as raças de cachorro existentes. Malhado, branco e amarelo, olhos marrom, nem grande nem pequeno. Manso com as crianças, destemido com os estranhos, tinha birra incompreensível por fardas”. E, nisso de birra por fardas, já adianto, simpatizei de cara com o pequeno personagem de Luiz Ruffato.

 

Mas precisava dar um nome ao cãozinho. E é a partir dessa necessidade que a trama do conto se desenvolve. E a questão se resolve quando o pai, com os ouvidos grudados no rádio, escuta o locutor Oduvaldo Cozzi, da Rádio Guanabara, informar que um cachorro invadira o gramado e, na fuga, driblara até mesmo o Garrincha, levando o juiz francês Pierre Schwinte a paralisar a partida.

 

O pai afasta o rádio de si e grita à mulher:

 

– Luzia, vai se chamar Sausalito!

 

Brasil X Inglaterra era o jogo. E o estádio onde aconteceu o jogo era o Sausalito. E assim o cãozinho ganhou um nome, do mesmo modo espontâneo, ocasional e bizarro como fora encontrado e trazido para casa.

 

O enredo do segundo conto é ainda mais simples. O narrador, em primeira pessoa como em “Sausalito”, apaixona-se por Monalisa, cuja imagem ele apenas entrevê num ponto de ônibus, mas, ao final, no dia 24 de junho de 1978, dia da partida do Brasil contra a Itália na Copa do Mundo da Argentina, descobre que Monalisa fora seduzida por Rubens, seu colega de trabalho.

 

No terceiro conto, a mesma singeleza de enredo: Garoto que trabalha desde os quinze anos para ajudar os pais pobres larga inesperadamente o emprego e se afunda no álcool e na ociosidade, desaparecendo, por fim, no Natal de 1981 (mais uma data, novamente, fatídica para o personagem) , sem deixar pistas. Registre-se, aqui, a importância das datas nas obras de Luiz Ruffato. Por exemplo, os 70 fragmentos de “Eles eram muitos cavalos” acontecem todos no dia 20 de maio de 2000 na cidade de São Paulo, e esse elo dá unidade ao livro.

 

Se as coisas parecem “simples” em Luiz Ruffato. Simples pelo conteúdo, simples pelo “pano de fundo” composto por personagens desimportantes socialmente, relegados ao submundo de uma vida obscura e sacrificada de classe operária nas periferias das cidades, onde vivem seus pequenos-grandes dramas, quase sempre finalizados por perdas e frustrações. Se não é pelo “o que” é narrado que as histórias de Luiz Ruffato se notabilizam, qual então a chave para se entender por que essas histórias de gente humilde e socialmente desimportante se mostram tão marcantes e importantes para o universo existencial e filosófico de seus leitores? Qual o dínamo das narrativas de Luiz Ruffato, que faz dele um narrador dos mais carismáticos da Literatura Brasileira contemporânea? Dínamo esse que se encontra em todas as suas narrativas, longas ou curtas, como esses “três (minúsculos) contos”.

 

Ressalta-se, de início, em “Sausalito”, sua capacidade de humanização de coisas e animais, como recurso, eficiente, para realçar a animalização do humano. Essas coisinhas em geral mínimas, invisíveis e desprezadas, como o cãozinho trazido sem nome para casa, a lembrar a cachorrinha Baleia de Graciliano, as quais, em sua louca liberdade, podem “falar” coisas proibidas aos seres humanos. Animais filósofos e politizados, capazes de arrostar moinhos e a covardia humana transfigurada tanto nos militares do Tiro de Guerra (em “Sausalito”) ou no Soldado Amarelo (em “Vidas Secas”) ou em Bolsonaro e os militares fascistas de 1964 ou de agora. Daí decorre a evidente filiação de Luiz Ruffato com a melhor tradição do romance social brasileiro, desde Aluízio Azevedo, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Oswaldo França Júnior...

 

Outro aspecto importante do dínamo Ruffato é essa voz narrativa que, mesmo quando em terceira pessoa, nunca é impessoal, fria, meramente descritiva. Os narradores de Luiz Ruffato traem sempre um tom de envolvimento com os dramas e penúrias dos personagens. Pelo tom melancólico matizado por uma carga vivencial inegável, a lembrar que também Luiz Ruffato, antes de se tornar o bem-sucedido jornalista e escritor, também se ocupou de pequenos ofícios e foi operário, o narrador do terceiro conto do libreto, em terceira pessoa, bem poderia ter contado em primeira.

 

Por fim, os narradores-personagens de Luiz Ruffato são seres em trânsito ou “transformers” da existência; como Ulisses anônimos, quase sempre naufragados no alto mar da aventura humana. Esse forte toque autobiográfico, que, na mente do leitor desinformado pode transformar o autor em personagem e o personagem em autor, atrai o leitor para dentro da narrativa e o faz, em muitos momentos, sentir-se como que capaz de viver e mesmo narrar as aventuras e desventuras contidas no livro. Ruffato é um daqueles autores, portanto, de cuja leitura o leitor se sente tocado para sair de seu mundinho estagnado, da sua pseudo-segurança de mente “ilustrada” e adestrada, onde tudo é previsível e parece que nada acontece, ou seja, de seu torpor de mero consumidor de manufaturas da indústria cultural, para caminhar nas sendas aparentemente brutas e tenebrosas da imaginação criadora. A literatura de Luiz Ruffato, impregnada e dinamizada por uma empatia autêntica com o drama dos mais fracos e despossuídos, sem prejuízo para a necessária polifonia das vozes narrativas, manipuladas de maneira livre e criativa, mostra-se capaz não apenas de envolver o leitor no drama-tragédia dos personagens, como incitá-lo a interferir na história. Aquilo que se afigurava, à primeira vista, simples e até mesmo trivial, se revela, ao final, raro e sublime.

 

E isso, em Literatura, é tudo.

 

* Nicodemos Sena é escritor e jornalista, autor, entre outros, de “A espera do nunca mais – Uma saga amazônica”




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