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Globo: pior sem ela

Lúcio Flávio Pinto - 14/04/2019

O jornalista Edilson Martis, acreano (recuso o acriano) de nascimento e morador do Rio de Janeiro há muitos anos, publicou o seguinte comentário no seu Face sobre o prefeito Marcelo Crivela:

 

Este Senhor, pastor da igreja Universal, aumentou criminosamente, de forma estúpida, o IPTU da cidade.

????Obrigou famílias a mudar de bairro, ou mesmo vender seus imóveis, tamanha a estupidez desse aumento.

Já se sabia o abandono a que fora relegada a cidade do Rio de Janeiro.

Este temporal escancarou o caos em que o Rio já se encontrava.

Esse aumento criminoso de IPTU, contou, por óbvio, com a aprovação dos espertos vereadores.

Ele agora "planta" uma briga com a tv Globo tentando tirar de foco sua incompetência como gestor.

Crivella e sua igreja são um blefe.

 

O leitor José Roberto Costa comentou a postagem:

 

Pode até ser.... mas acho q devemos capitalizar a crítica à Globo q é o q precisamos neste momento. Se outros políticos de vitrine fizerem o mesmo q ele (até o Bolsonaro tbm) aumentaremos a força crítica contra a Globo. A Globo perdeu pra nós q votamos no Bozo, perdeu pras redes sociais e agora precisa ser imprensada contra a parede com todas as forças disponíveis, e se obtivermos sucesso, pode acreditar q todas as outras mídias vão tbm se redimir.

 

O diálogo é exemplar da polêmica que está sendo travada no Brasil em torno da Globo. Acusada pelos petistas de fazer campanha contra Lula, distorcendo todo noticiário a respeito dele, agora recebe as mesmas acusações de Bolsonaro, sua turma e seus adeptos. Esquerda e direita juntas contra algo maior e pior: a manipulação da opinião pública por aquela que ainda resiste como uma das maiores redes de televisão aberta do mundo.

 

Pode-se perguntar se a Globo resistirá melhor às adversidades do mercado, alterado pela mídia digital e a cultura da internet, ou aos seus adversários e inimigos em todo espectro político e ideológico. Sua sobrevivência é posta em questão tanto tecnologicamente quanto culturalmente, no seu mais amplo significado antropológico. Ela será mesmo um inevitável cadáver mercadológico e um monstro da manipulação, que merece o mais feroz combate, sem seleção de meios e modos de ataque?

 

Crivella integra esse exército Brancaleone. Seu ânimo se manifestou quando ele foi questionado por uma repórter da TV Globo, durante entrevista sobre o decreto declarando a cidade em estado de calamidade. A jornalista questionou a afirmativa do prefeito de que o que aconteceu no Rio “foi um drama corriqueiro" (apesar do reconhecimento da calamidade). Crivela ignorou a repórter, virando-se para falar só com os outros repórteres, dando razão a políticos não dão entrevistas à emissora.

 

Para Crivela, a Globo "é absolutamente contra a cidade" e "anuncia o tempo todo os problemas do Rio", comportamento de "chantagem". "O que a Globo quer é dinheiro na sua propaganda. O que ela quer é que a gente faça uma festa no Carnaval, e ela possa vender R$ 240 milhões, com a prefeitura pagando".

 

O prefeito, como qualquer outro que faz restrição à Globo, prestaria um grande serviço ao país revelando os mecanismos de chantagem usados pelo grupo de comunicação para tirar dinheiro do tesouro público, usando como arma a informação, falsa ou verdadeira. Independentemente da qualidade da informação, seu uso como forma de intimidar autoridades seria fácil de provar. Já apresentei essas provas contra a imprensa paraense várias vezes, sem dispor do aparato de apuração da Globo.

 

Contudo, o que se observa nos últimos tempos na Globo é seu maior apreço pelas informações corretas e a cobertura ampliada dos acontecimentos, sem vetos ou campanhas. Se faz isso porque não gosta de Bolsonaro (como não gostava de Lula ou não gosta de Crivela), é uma coisa – até agora não demonstrada. Mas que seu jornalismo melhorou quanto ao rigor e isenção, só os tendenciosos não reconhecem.

 

A cobertura dada pela Globo dos temporais no Rio tem sido coerente com a dimensão da tragédia, com imensos prejuízos materiais, danos a milhares de pessoas e a morte de 10 vítimas. Era sua obrigação mostrar que a prefeitura demorou a acudir a população e, ao marcar sua presença, agir de forma ineficiente, quase patética.

 

Além de responder ao prefeito, a Globo desmentiu suas declarações sobre o carnaval, garantindo que “compra os direitos de transmissão das escolas de samba e paga um valor seis vezes maior do que aquele que elas recebem de subvenção da prefeitura". Crivela não voltou ao assunto.

 

Os brasileiros devem estar atentos ao trabalho da Globo e denunciá-la quando pratica erros ou comete atos imorais. É preciso mantê-la sobre controle externo da sociedade, no livre jogo da crítica e da divergência. No entanto, basta comparar o que faz o grupo Globo com a atuação dos concorrentes para concluir que sua liderança não é indevida ou usurpada. Se a Globo desaparecesse agora, o Brasil passaria a ter um jornalismo (e um entretenimento) de qualidade bem inferior. E de significado mais perigoso para a democracia.


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