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Cientistas usam calendário de parede para monitorar produção de açaí por ribeirinhos

Embrapa - 02/04/2019

Solução simples ajuda a monitorar produção em açaizais nativos - Créditos: Foto: Maria Silveira

Pesquisadores da Embrapa criaram uma solução simples para sanar a falta de dados sobre a coleta familiar em açaizais nativos no norte do País, que é feita geralmente em locais de difícil acesso. O grupo do engenheiro florestal Marcelino Guedes, da Embrapa Amapá, adaptou um calendário de parede para que as próprias famílias ribeirinhas possam anotar, diariamente, quanto açaí coletam e a quantidade consumida. Com a ferramenta simples, os pesquisadores descobriram, por exemplo, que algumas famílias grandes costumam consumir mais do que vender o fruto e que o consumo médio gira em torno de pouco mais de 20% do total coletado na região estudada.

 

A falta de dados sempre foi um desafio para os pesquisadores da área, pois apesar do aumento da comercialização do açaí e da ampliação dos estudos sobre a espécie, ainda não se tinha acesso ao volume de produção dos açaizais nativos e, principalmente, o quanto dessa coleta era consumida pelas famílias extrativistas.

 

Guedes informa que a lacuna nos dados pode gerar subestimativas da capacidade produtiva dos açaizais nativos, pois é comum obter os números da produção só a partir da fase da comercialização. Além disso, monitorar regiões alagadas, isoladas e de difícil acesso, onde ocorrem os açaizais, não é tarefa fácil. Para complicar, a confiabilidade das informações depende de um acompanhamento regular, praticamente diário, o que exige a permanência do coletor dos dados no local.

 

Ao examinar esses desafios, a Embrapa desenvolveu o calendário adaptado no qual um membro da própria família produtora anota diariamente a quantidade de açaí consumida e vendida. Guedes ressalta que esse método participativo já foi utilizado para avaliar atividade de caça, e pela primeira vez é validado para acompanhar a produção de açaí.

 

O procedimento não deve ser confundido com a construção participativa de calendários sazonais de produção, comuns na área agrícola. “No caso desses, são construídos a partir de relatos populares e científicos, para definir os melhores períodos para plantio e épocas de colheita das culturas. No caso do calendário do açaí, o monitoramento depende da anotação da produção pelos próprios membros da família”, esclarece o pesquisador.

 

Em famílias numerosas, consumo é maior do que as vendas

 

O método recomendado pela Embrapa resulta de uma experiência realizada com moradores agroextrativistas do Estuário Amazônico (ponto de encontro entre o rio e o mar, entre os estados do Amapá e Pará), mais precisamente da Ilha das Cinzas, município de Gurupá (PA). Analisando os dados anotados nas folhas do calendário, a equipe observou que, naquela comunidade, o consumo médio das famílias moradoras foi de 23,3% do total produzido no período de um ano e meio. Em alguns casos, de famílias mais numerosas, o volume consumido chegou a ser maior do que o comercializado.

 

Naquele ambiente, o método foi aplicado, testado e validado envolvendo diretamente 50 famílias durante um ano e meio, entre 2015 e 2016. Além da Ilha das Cinzas, outras comunidades demonstraram interesse nos calendários. Assim, novos calendários foram confeccionados e distribuídos em mais cinco comunidades, com apoio do Projeto Bem Diverso.

 

A equipe técnica recomenda que o calendário adaptado para monitoramento da produção (consumo + venda) de açaí seja institucionalizado pelos órgãos de extensão rural, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a fim de aperfeiçoar a quantificação do potencial produtivo dos açaizais nativos da região.


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