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A imagem do horror em Suzano

Lúcio Flávio Pinto - 14/03/2019

Todos os brasileiros deveriam ser obrigados a ver o vídeo do massacre de ontem em Suzano, na Grande São Paulo, onde moram mais de 20 milhões de pessoas (se fosse um país, essa metrópole deslocaria o Chile da sexta colocação entre os mais populosos da América do Sul).

 

Valeria imensamente mais do que qualquer texto escrito ou documentário visual. Quem assistisse a esse curto vídeo, gerado por uma câmera de segurança instalado no hall de entrada da escola, onde começou a matança, poderia se chocar, se emocionar e se indignar. Certamente poderia também tirar lições de vida para tentar prever, prevenir e combater atos de violência como esse. A tendência é que se intensifiquem e se tornem ainda mais selvagens.

 

A reconstituição do atentado à sua mais remota origem, mais de um ano atrás, suscita logo uma questão: em quantos lares, espaços públicos ou privados e escolas se repete neste momento rotina semelhante? Em dezenas ou centenas de milhares? Em milhões delas?

 

Nesses cenários, que equivalem ao mitológico ovo da serpente, quantos pais, responsáveis, parentes e amigos sabem exatamente o que estão fazendo crianças, adolescentes e adultos que buscam ambientes isolados para se ligar a um universo ilimitado através de seus celulares conectados à internet?

 

Mais de um ano atrás, Guilherme, de 17 anos, e Luiz Henrique, de 25, começaram a frequentar espaços na internet dedicados à cultura da violência em suas múltiplas formas humanas e tecnológicas; Não só obtiveram fundamentos para sua adesão a esse tipo novo de fascismo como se adestraram na prática de um tipo de violência: assassinato coletivo. Não genericamente, mas na escola que ambos frequentaram.

 

A Escola Estadual Raul Brasil está bem acima do padrão médio dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio do país. Os dois amigos teriam motivos para se considerar privilegiados por terem estudado nela, bem instalada, com espaço verde nos seus limites, que oferece cursos de línguas estrangeiras.

 

Mas eles queriam se vingar de discriminação, maus tratos ou desprezo que poderiam ter sofrido por parte de colegas ou funcionários, por uma ótica de adolescentes infelizes, desajustados, em famílias instáveis ou conflituosas. Seu principal alvo eram estudantes que usavam sapatos caros, conforme o símbolo destacado por uma música que postaram como código de anúncio da barbárie que iriam instalar.

 

O adestramento foi através de jogos de games violentos, praticados intensamente. A dupla não tinha dinheiro suficiente para fazer treinamentos reais ou para se municiar à altura da matança massiva que pretendiam executar. Sem esses elementos, abundantes no atentado que resultou na morte da vereadora Marielle Franco, eles mesmos sabiam que o ato não seria precedido por preparação e instrumentação adequada. Tudo seria “natural”, como ressaltaram numa postagem, acompanhando o próprio ato.

 

É chocante a desproporção entre a truculência dos dois jovens e seu amadorismo como matadores frios. Mal se expressando, seria como se eles não estivessem credenciados para cometer um mal tão profundo e radical.

 

Dispuseram quase displicentemente da vida de terceiros, as 19 pessoas que tomaram por alvos, incluindo um tio de Guilherme, de 51 anos, executado em seu local de trabalho simplesmente porque desconfiava das intenções do sobrinho ou por vingança dele, demitido quando trabalhava com o tio por roubar dinheiro da loja de carros.

 

Guilherme, apesar de sete anos mais novo do que o comparsa, ficou com a arma mais potente que os dois tinham: o revólver calibre 38, já usado, adquirido provavelmente de um traficante, já que estava com o registro raspado. Guilherme retirou a arma da mochila e começou a atirar imediatamente, sem falar ou sequer mirar, sobre o grupo que se concentrava em frente ao guichê de atendimento da secretaria. Matou três pessoas e seguiu pelo corredor para dentro da escola.

 

Vinte minutos depois entrou Luiz Henrique, que repetiu o ritual, só que retirando da mochila uma machadinha, com a qual aplicou vários golpes violentos nos corpos das pessoas caídas ao chão. Em seguida, se abaixou para retirar a munição do revólver que trazia fixada à sua perna, quando a porta de comunicação com a saída da escola se abriu.

 

Eram os jovens que fugiam dos disparos de Guilherme. Luiz Henrique fica atarantado, confuso. Certamente porque a cena não constava dos games que eles jogaram para treinar. Embora selvagens e impiedosos no ataque às pessoas, eles eram assassinos amadores. Também seus ex-colegas eram amadores na condição de vítimas em matanças.

 

Um pouquinho de calma lhes teria revelado a possibilidade de atacar Luiz Henrique e prendê-lo diante da desproporção de força. Do “grande armamento” apregoado pela imprensa, restava ao segundo assassino, além da machadinha, um arco e flecha e uma versão estilizada da besta, uma arma medieval.

 

Desesperado por não poder evitar a fuga em massa, que não constava dos seus planos, Luiz Henrique atirou a machadinha contra um dos estudantes, tão assustado que pulou o muro da escola, correu por 300 metros em menos de um minuto, chegou ao hospital e foi a primeira vítima a receber tratamento médico.

 

Com a polícia já no local, os dois criminosos se juntaram, Guilherme matou Luiz Henrique e se matou com um tiro.

 

Fim da história? Para quem ver o vídeo, não. O Brasil precisa mudar.


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