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Para onde irá Helder? (Análise de Lúcio Flávio Pinto)

Redação - 02/01/2019

Um ano mais velho do que o pai, aos 39, Helder Barbalho assume o governo do Pará 35 anos depois que Jader Barbalho ocupou o cargo pela primeira vez, em 1983, repetindo a façanha na eleição de 1990, quando enfrentou a máquina estadual, usada intensivamente pelo então governador, Hélio Gueiros, contra seu ex-aliado, que virou seu principal inimigo político.

A trajetória é o atestado da importância de uma família como unidade política, a mais importante do Pará. Graças ao saldo popularmente positivo entre os prós e os contras do chefe do grupo familiar, sua então esposa Elcione ingressou na carreira, mantendo-se como deputada federal por quase 20 anos. Divorciada, ela nunca deixou a liderança do ex-marido, que agora elegeu um filho do casal e abre caminho para que o outro troque a atividade empresarial pela política, se quiser.

O currículo de Helder Barbalho se assemelha ao do pai e se revela um dos mais recheados da história republicana do Estado. Entrou na maturidade como vereador de Ananindeua. Elegeu-se prefeito do município, o segundo mais populoso do Pará, a partir dos oito anos, por dois mandatos sucessivos. Foi deputado estadual e por três vezes ministro do governo federal . Faltam-lhe ser deputado federal e senador para só então deixar uma lacuna, até agora vedada aos paraenses: ser presidente da república.

Por trás desses fatos destacados há circunstâncias que relativizam o seu significado. O pai, o primeiro eleito pelo povo governador, depois de quase 20 anos em que o cargo foi preenchido por eleição indireta, sempre vencida pelo partido de apoio ao regime militar, subiu ao poder como uma esperança de mudança. Sua manutenção no poder, entretanto, foi se consolidando enquanto Jader se distanciava dos seus compromissos de campanha e de bandeiras de luta.

A combinação de pragmatismo, fisiologismo e abuso da coisa pública o colocaram na condição de principal liderança individual na política paraense. Sem ela, é improvável que Helder tivesse sido político e, assumindo a carreira, a tivesse levado tão longe. Graças à sua boa  imagem, retórica, capacidade de trabalho e carisma, conseguiu furar a barreira da rejeição superior a 50% dos votos,q ue limitava a expansão do "barbalhismo", e vencer o poderoso situacionismo tucano.

O teste, agora, e o mais importante, será quanto à sua capacidade de mudar os rumos do Estado e da forma de governá-lo, fator ainda mais relevante dentre os fatores que resultaram na vitória eleitoral. O beijo que o pai lhe deu, como símbolo da passagem do bastão de comando político, pode ser um elemento de continuidade se representar o acatamento de uma eminência parda. Com Jader por trás, o filho não irá longe.

Helder, no entanto, apresentou sinais favoráveis à descontinuidade e a uma marca pessoal nova, rompendo com seu próprio passado. A posse inédita na sede dos três principais colégios eleitorais e regiões econômico-administrativas (Belém, Marabá e Santarém) no mesmo dia, poderia ser o compromisso de governar para todos os paraenses, descentralizar o poder e se empenhar pela manutenção da integridade física dos segundo mais extenso Estado da federação.

Essa decisão, por enquanto prática e não apenas uma retórica de marketing, até prova em contrário, foi completada simbolicamente pela presença de representantes de todos os 144 municípios do Pará na festa da posse, também uma inovação. E, mais concretamente, por um secretariado diversificado, desigual, mais técnico do que político, mais distante da prática fisiológica e eleitoreira local, combinando compromissos paroquiais e federais.

Isto é mudança ou maquiagem de continuidade? A resposta terá que ser dada logo. Pelo que Helder dizer - ou pelo que não fizer.


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