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Memória de Santarém: Os arigós raptavam crianças? Lenda urbana dos anos 50

Lúcio Flávio Pinto - 13/08/2018

Trecho inicial da rua 24 de Outubro, no.bairro da Aldeia, em Santarém. Foto: Blog O Mocorongo -

Um dos componentes mais importantes na minha formação foi a caminhada que fazia entre a casa da minha família materna e a paterna, separadas por uns dois quilômetros, na Santarém dos meus anos juvenis, com não mais do que 15 mil para 20 mil habitantes (enquanto Belém estava acima de 230 mil, o dobro de Manaus).

A casa dos meus tios maternos, que era o eixo das minhas férias depois que nos mudamos para Belém, em 1955, ficava no centro da cidade, como a nossa casa. Suas ruas eram cimentadas, abauladas, tinham meio-fio, calçadas, locais de lazer e entretenimento, boas ou mesmo belas casas, abrigo das famílias tradicionais. E, com a praia, que fazia a cidade respirar um ar de cidade litorânea, com banhistas indo e vindo, com trajes que seriam de uso proibido na distante capital.

A casa do meu avô paterno ficava na Aldeia. O nome não deixava dúvidas: foi a área de confinamento dos índios Tapajó quando os portugueses ocuparam aquele sítio privilegiado, a partir da metade do século 17. Com a redução da sua população até a sua completa extinção, gente que resultou da miscigenação foi ocupando os abundantes espaços disponíveis, à falta de condições para se estabelecer no núcleo favorecido.

Quando chegou a Santarém, fugindo mais uma vez dos rigores da seca no sertão do Ceará, meu avô paterno foi para a Aldeia com a numerosa família. Montou uma venda e deu-se relativamente bem por alguns anos, tempo suficiente para encaminhar os filhos para uma posição mais acima da dele. O velho Raimundo era uma referência na Aldeia.

Depois de desfilar pelo centro, em seguida ao desembarque no aeroporto, minha missão seguinte era ir para a casa do vovô. Mesmo pequenino (abaixo da altura da média dos meninos da minha idade), eu seguia sozinho. Tinha a possibilidade de tomar por dois caminhos. O mais próximo do rio era de melhor qualidade, coberto por aguada de cimento.

Com o amiudamento da minha circulação, algumas pessoas que me viam me cumprimentavam ou me apontavam: “É o filho do Elias Pinto” (meu pai seria deputado estadual e prefeito municipal). Os mais entusiastas me convidavam a entrar e me davam algo para beber, um suco de frutas locais, como o muruci (nunca ninguém disse murici) ou a cajuína.

Ao fim da rua, costumava parar um pouco na praça de São Raimundo Nonato, o padroeiro do bairro, para ver os jacarés no fosso. Isso mesmo: jacarés, pequenos ou mais graúdos, que relaxavam num monte de cimento à maneira de ilha, ou na pouca água disponível. Os visitantes e moradores eram protegidos dos jacarés pelo fosso (de uns três metros de profundidade?) e por um grosso grilhão de ferro, que os moleques facilmente transpunham, um desafiando o outro em ousadia para se aproximar dos animais, invariavelmente famintos e estressados.

A passagem pelo fosso dos jacarés podia ser rápida ou mais demorada, dependendo de haver ou não moleques conhecidos por ali. Dobrava à esquerda e fazia uma parada na casa da tia Cleonice (que me homenageou batizando seu filho de Rei de Lúcio), cujo marido, Astro, era dono de uma boa padaria. Finalmente, chegava à casa do vovô.

De enchimento, coberta de palha (eu adorava me embalar na rede sentindo o vapor de água que filtrava pela palha, artisticamente trançada, enquanto apertava a pele fria do braço da tia Laura), a casa ficava na esquina da rua estreita com uma larga avenida. O promontório onde estava lhe dava a autoridade de uma casa patriarcal, com seu extenso quintal coberto por árvores frutíferas e um igarapé em extinção nos fundos.

O outro caminho era mais agreste. Era pela rua Rui Barbosa (digo por ouvir dizerem: nessa época, as ruas eram conhecidas pelos nomes dos que nela moravam), que começava no colégio da elite, o Dom Amando. Para ele fluíam alunos (só anos depois se tornaria misto) de todo Baixo-Amazonas, submetidos a uma educação rigorosa pelos religiosos americanos (passavam direto para o vestibular em Belém, saindo-se quase sempre bem).

O primeiro trecho ia até a avenida Barão do Rio Branco, que levava da beira do rio ao aeroporto, na serra, o cemitério de um lado e, de certa forma ironicamente, o colégio Santa Clara, o asilo e o hospital do Sesp do outro lado). Uma fileira de mangueiras vistosas separava a pista em duas mãos para os poucos carros que circulavam pela cidade (o mais famoso era o Nash do Lauri Vaughan, que transportava os mais abastados ou passageiros dos voos da Panair, com a qual tinha contrato, do aeroporto para o destino).

A partir da avenida, o cenário começava a mudar. Casas de alvenaria eram substituídas ou entremeadas por construções de madeira cobertas por telha ou palha, com altas calçadas ou sobre estacas de maçaranduba, que as protegiam do areal. Era muita areia, assinalando o prolongamento das belas praias do Tapajós, alvas e finas, ocupadas pelos homens. Nas chuvas, a água descia com violência dos terrenos mais altos, cavando caminhos no solo e erodindo certos pontos, como o famoso buracão da Bajona de Miranda,

Sob o sol forte, a caminhada era mais difícil. Não havia mais árvores, quase só coqueiros nos quintais. Os pés afundavam na areia escaldante no verão e se enlameavam no inverno. Para um moleque, porém, era melhor, cheirava a aventura, sobretudo quando um cachorro fanfarrão saía de uma casa e avançava latindo ameaçadoramente, quase sempre apenas para efeitos cênicos. Duvidando do velho ditado de que cão que ladra não morde, eu corria como podia. Se a casa do vovô estava perto, chegava ofegante. Era o bastante para ser recepcionado com todo carinho protetivo.

Meu avô Raimundo Pinto era um típico sertanejo: rigoroso, duro, de poucas e enfáticas palavras, e muita ordem. Sempre com seu traje de todos os dias: slack de tecido grosso, blusa de mangas compridas e alpercatas. Sentava-se à porta, no fim da tarde, para cumprimentar os passantes e supervisionar minhas brincadeiras com os colegas. Uma das diversões preferidas era empinar papagaio (em Santarém eram as rabiolas, enquanto em Belém se usava papagaios, raramente cangulas, jamais curicas, na ordem decrescente de tamanho).

Vovô dava ordens para minha vó Brígida, minha tia Laura ou minha prima Naty levarem refrescos, pão, bolo ou um guarda-sol, que qualquer delas mantinha sobre mim enquanto eu empinava, como se ainda estivéssemos na época da escravidão. Certa vez Naty saiu comigo cedo para tomarmos banho na praia da Vera Paz, o lugar mais idílico da frente de Santarém, hoje desfigurado. Esquecemos da hora. Ao chegarmos, eu estava mais para camarão do que para pinto. Naty, já moça, levou uma surra do vovô. Mas logo esqueceu.

A cultura da Aldeia tinha a sua marca, distinta da que circulava pelo centro colonizador dos brancos. Neste, o clube frequentado era o Recreativo, num prédio em estilo europeu, enquanto na Aldeia era o Veterano. O São Raimundo popular contra o São Francisco do outro lado nos jogos de futebol, homenagem aos dois santos padroeiros. E a presença dos nordestinos ao lado dos caboclos, quando os imigrantes começaram a sair do confinamento no Mojuí dos Campos, as áreas de colonização.

Da mesma maneira que me metamorfoseava quando chegava de Belém em Santarém, distantes por si muito mais do que a separação física de 800 quilômetros, eu conseguia ser da Aldeia e da cidade sem qualquer distinção, me sentindo bem adaptado em cada uma dessas culturas, uma capacidade que me acompanharia por toda vida e seria fundamental para o bom exercício do jornalismo profissional, a partir dos 16 anos.

Uma história que mamãe me contou, quando já adulto, me fez perceber as diferenças. Como sempre ao final das tardes, eu, com 2 para 3 anos, estava na janela, todo limpo e perfumado, com minha roupinha bem passada, seguro pela empregada. Um “centreiro” passou, montado em seu cavalo magro, com sua sela aparelhada para carregar os produtos trazidos da colônia para vender no mercado. O arigó (o tratamento dado aos cearenses, ainda pejorativos então) passou, ficou me olhando e perguntou sobre o meu preço. Queria me comprar.

Mamãe, ao ouvir a frase, correu para me retirar de onde eu estava e fechou a janela, que não voltei a frequentar, segundo seu testemunho. As pessoas da cidade achavam que os arigós raptavam crianças quando não as podiam comprar. Quando soube desse episódio pude considerá-lo, antropologicamente, como uma fantasia. A caminhada entre a Aldeia e o centro de Santarém já consolidara em mim o outsider que viria a ser, seguindo o caminho que Carlos Drummond de Andrade apontou: Lúcio, vai ser gauche na vida. Fui.




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