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Tradição: Um gambá que não fede, dá alegria e anima uma das mais antigas celebrações no interior da Amazônia

Portal OESTADONET, com informações de Florêncio Vaz - 28/06/2018

A festa de São Benedito, na comunidade de Pinhel, no interior de Aveiro, começa dias antes, com a limpeza das ruas e da capela do santo e a esmolação feita pelos foliões nas comunidades vizinhas, programação principal inicia com a alvorada na madrugada do dia 28 de junho. Em seguida ocorre o banho de cheio às margens do rio Tapajós. Durante o dia os foliões fazem esmolação nas casas, e no fim do dia acontece a levantação do mastro. À noite, tem ladainha, apresentação de quadrilhas, carimbós e outras danças populares, inclusive o gambá. A noite termina com a festa dançante animada com aparelhagem. No dia 29, há torneio de futebol, procissão, ladainha e a aguardada festa dançante, com bandas de fora. Na manhã do dia 30, a derrubada do mastro e a varrição nas casas dos moradores e a dança do boi ‘tá brabo ou vaca braba encerram a festa, com muito tarubá e animação.

A comunidade de Pinhel, localizada à margem esquerda do baixo curso rio Tapajós, é conhecida na região por ser a “terra do Gambá”. A tradição das festas de santo é muito respeitada em Pinhel, e a principal delas é a de São Benedito, celebrada anualmente entre 28 e 30 de junho, e que atrai moradores dos lugares e cidades vizinhas. É durante esta festa que os nativos dançam o gambá, um ritmo tradicional e parte da sua identidade cultural. Por isso Festa do Gambá ou Festa de São Benedito são expressões quase sinônimas. Mas as folias e a dança do gambá é que estão inseridas nos festejos de São Benedito.

A tradição da festa de São Benedito ou Gambá de Pinhel é um exemplo da profunda relação dos moradores da região com o divino, com o sobrenatural, simbolizado na pequena imagem de madeira do santo negro. Os ritos das procissões, folias, ladainhas, o beija-fitas das imagens ou a levantação e derrubada do mastro conferem ar transcendente à vida cotidiana dessa gente. Em Pinhel, a festa é a forma por excelência para se comunicar com o sagrado. Por isso, ouvir a ladainha cantada em tom meio choroso e arrastado, quase como um lamento, e ver homens e mulheres com rostos devotos diante da imagem pequenina de um santo, proporciona um desses momentos de vivenciar o poder de transcendência que essas festas ensejam. Quando os moradores de Pinhel e vizinhança se reconectam com São Benedito, na sua festa, eles se reconectam com sua territorialidade, com sua história, sua cosmologia e sua identidade.

Identidade. Esta palavra ajuda a explicar o gesto do jovem que recolheu a imagem de São Benedito jogada no mato pelo sacerdote e a entregou aos cuidados dos parentes mais velhos. Ajuda a explicar também a ousadia de Seu Armindo Lopes, ao enfrentar a proibição dos padres católicos, dizendo que não poderia abandonar uma tradição herdada dos seus pais e avós. É a sua identidade que os moradores de Pinhel ostentam quando carregam as bandeiras, tocam os tambores gambá, dançam, levantam e derrubam o mastro, seguram com cuidado a pequena imagem do santo negro, bebem tarubá e cerveja nas suas teimosas “beberronias”. Identidade esta muito bem fincada na velha Pinhel de índios, negros e cabanos.

O termo gambá se refere ao tambor usado pelos foliões, que é confeccionado de um tronco oco de madeira, fechado em uma das extremidades com um pedaço de couro retesado. O gambá é o principal instrumento que marca a música e a dança que tomam o mesmo nome. Os três tocadores dos tambores gambá sentam-se sobre eles e batem o couro, com as duas mãos. O grupo dos foliões inclui, ainda, dois tocadores de reco-reco e um de caracaxá e o mestre-cantor, que toca uma caixa (tambor mais leve) com duas baquetas. É ele que puxa as músicas, cujos refrões, bem conhecidos, são repetidos por todos. As letras são versos curtos e simples, de louvação a São Benedito e à Mãe de Deus, ou rememoração de fatos engraçados ou crenças da comunidade. Há folias específicas para a alvorada, levantação e derrubada do mastro, ladainha, varrição e dança no salão, entre outras.

Os brincantes dançam aos pares, formando um círculo. O homem faz galanteios à sua dama, requebra e mexe os braços, colocando-os nos quadris ou levantando-os e estalando os dedos, como na castanhola. A dama também mexe os braços e quadris, reagindo às investidas do cavalheiro. Em momentos mais livres, dançam grupos de crianças, rapazes, duplas de senhoras ou simplesmente homens e mulheres misturados no salão.

Segundo o pesquisador Florêncio Vaz, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará(UFOPA), no trabalho intitulado “Gambá de Pinhél: resistência, reinvenção e identidade cultural no rio Tapajós”, falar de Pinhel, tanto da terra como do povo que ali vive, é falar de séculos de história de lutas e resistência. Uma parte dessa história, sobrevivendo na memória dos nativos, e outra parte, bem maior, sufocada e enterrada – literalmente. Bem antes da chegada dos primeiros europeus ao rio Tapajós, no século XVII, em busca das drogas do sertão (cacau, canela, casca preciosa e outros produtos da floresta) e nas suas tropas de resgate atrás de escravos indígenas, o lugar já era habitado. Aliás, desde 11.200 anos que esta região da Amazônia já é território dos nossos antepassados indígenas.

Segundo Florêncio, lamentavelmente ficaram poucos relatos escritos sobre quem eram os indígenas encontrados pelos europeus ali naquela terra. A história não foi escrita pelos vencidos, como disse o professor amazonense José Ribamar Bessa Freire: “[...] até hoje, a história da Amazônia se resume a uma parcializada e primária visão dos vencedores” (1983, p.76), ou seja, dos missionários e colonizadores, no caso da Amazônia. Porém, em um sentido mais profundo, a guerra entre conquistadores e nativos ainda não acabou. E nós aqui estamos em uma tentativa de construir uma outra história, a partir do pouco que ficou escrito, do que está enterrado e do que foi sufocado. Hoje os moradores de Pinhel começam a falar.

Os mais velhos dizem que antigamente o lugar era habitado pelos “Maytapus”, mas falam também da presença dos “Cara Preta”, ou falam simplesmente dos “índios”, que deixaram seus sinais: as faixas de terra preta, os pedaços de cerâmica, machadinhas, beiju de índio no fundo da terra e nomes de lugares, como Itepu, Cumaru, Uruá, Pajé, Itapara, Badajó, Baraúna, Itacoã, ponta do Apiaká etc.

No começo os viventes daqui eram os índios. Trabalhavam e cultivam aqui. Os viventes eram eles. As terra preta, tudo. Eles apareceram com a maniva aqui. O machado era de pedra. As panelas eram de barro. Os Cara Preta e outras classes de índio moravam aqui.

ACESSE O CONTEÚDO COMPLETO DA PESQUISA DO PROFESSOR FLORÊNCIO VAZ, CLICANDO AQUI


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