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Império de comunicação em declínio no Pará

Lúcio Flávio Pinto - 07/06/2018

Créditos: Ilustra��o: Luiz Pinto

A implosão, causada pela guerra interna dos seus donos, os irmãos Maiorana, pode estar levando o império de comunicação a ingressar na rota descendente. A partir de agora, o fim ainda poderá ser evitado?

Desta vez, os irmãos Maiorana não conseguiram se reunir para comemorar o aniversario da mãe, Lucidéa, que é no dia 10, mas foi marcado para três dias depois, por coincidir com o dia  das mães. Embora muito doente já há algum tempo, Déa sempre foi o ponto de aglutinação dos sete filhos (cinco mulheres e dois homens), apesar das crescentes divergências e conflitos entre eles, no exercício do controle do maior grupo de comunicação do Pará. Concluía-se desse fato que a desunião só resultaria numa guerra aberta quando morresse a viúva de Romulo Maiorana, o construtor do império, que integra a Rede Globo de Televisão e compreende jornais, emissoras de radio e outros negócios.

A já precária tradição chegou ao fim quando Romulo Maiorana Júnior enviou uma dura mensagem aos irmãos para dizer que só compareceria ao almoço do aniversário se fosse sozinho com sua família, reagindo ao que considerou como um gesto de hostilidade pessoal que teria sofrido. O acordo que eles tinham firmado, suspendendo escaramuças frontais, se tornou letra morta no papel.

O que pode ter sido o capítulo final de uma longa guerra interna começou em setembro do ano passado, quando cinco irmãos, sob o comando de Ronaldo e Rosângela, sem a participação da mais velha de todos, Rosana (que já vendera sua parte na sociedade e mora no Rio de Janeiro), destituíram Romulo Jr. do cargo de presidente executivo da corporação, abaixo apenas da mãe, que exerce o cargo honorário de chefia.

Até por causa do próprio nome e por ser mais velho do que Ronaldo, Rominho (como também é conhecido) foi o sucessor natural do pai quando ele morreu, em abril de 1986. Em alguns incidentes sua liderança foi contestada pelos irmãos, mas reafirmada pela mãe, que detinha 51% do capital das empresas.  

Com esse respaldo, que se ampliou quando Déa antecipou apenas a Romulo Jr. os 7% que caberiam ao filho quando ela morresse, Romulo Jr. (que comprou ainda a parte de Rosana, chegando a 21% das ações) foi concentrando cada vez mais poder no conglomerado. Tornou-se praticamente um ditador, impondo a sua vontade sem consultar os demais sócios nem lhes prestar contas.

Esse mando absoluto sobre o grupo de comunicação deu a Rominho a condição de uma das pessoas mais influentes no Pará, ouvido em muitas decisões e delas partícipe. Seu nome era lembrado em cada nova eleição como candidato potencial a um cargo eletivo majoritário, de senador ou governador. Ele sempre estimulou essas especulações, mas nunca decidiu enfrentar uma disputa eleitoral.

Em setembro do ano passado, Romulo Jr. foi de férias à Europa com toda família, numa viagem programada algum tempo antes. Os irmãos aproveitaram para convocar assembleias extraordinárias, realizadas em pleno sábado, e o derrubaram da direção de Delta Publicidade, que edita os jornais, e da TV Liberal. A manobra só se tornou possível porque os irmãos dissidentes conseguiram convencer a mãe a apoiá-los, não se sabe ainda exatamente como.

Rominho tentou desfazer o ato junto à mãe, mas seu acesso foi bloqueado pela interdição de Déa e a designação de Ronaldo como seu representante, em processo que tramita em segredo de justiça pela 1ª vara cível de Belém. Romulo Jr. recorreu à justiça, mas seus irmãos já possuíam o controle acionário tanto de Delta quanto da TV. Ele acabou tendo que aceitar sair da corporação.

Em abril, anunciou que recomeçaria no negócio jornalístico com um portal de informações. O portal, chamado de Roma News, entrou no ar no dia 13, tendo o filho, Romulo Neto, como diretor geral. Aos 58 anos, seu pai parece acreditar (ou se empenha em fazer crer) que é o início do grupo Liberal do B, com perspectiva de recuperar ao menos parte do poder anterior.

Os irmãos agiram de forma a parecer que se tratava de uma separação consensual, marcada por um espírito olímpico e fraternal. Mas deixou de ser o clima verdadeiro. O Liberal teve que publicar anúncios de lançamento do “portal jornal” em função de uma cláusula do acordo de afastamento de Rominho, que lhe deu direito a esse espaço.

Mas não publicaram um texto (de quatro laudas) através do qual ele se despediria do antigo ninho e anunciava seu novo voo (meu blog foi o único espaço jornalístico que abriu espaço para a sua manifestação, embora ele me tenha dedicado algumas referências críticas sem identificar o destinatário). Mesmo sem fazer citações pessoais ou qualquer ataque direto, no seu (impropriamente denominado) editorial, Romulo Jr. fez venenosas referências indiretas e deixou no ar as sementes da divergência e, conforme a evolução dos seus negócios, de entrechoques futuros, talvez inevitáveis. Os irmãos ainda deverão continuar a medir forças em torno do espólio do pai. Mais virulentamente do que antes

Apesar do esforço em parecer humilde, iniciativa condenada ao fracasso por sua própria personalidade, Rominho não consegue dissimular a pretensão de voltar ao topo do poder. Como sempre, não só pelos dividendos do negócio em jornalismo e  comunicação,  como pela incursão diretamente na política, que sempre anunciou em época eleitoral e sempre adiou.

Não sem certa relutância, ele informou que se filiou ao PMN dois meses atrás, a convite de amigos do partido. Nega, porém, que já tenha decidido se candidatar na eleição de outubro, desmentindo a si próprio. Ele mesmo disse que faltava só definir se sairia para disputar o governo ou o Senado. Qualquer que fosse a alternativa escolhida, só concorreria a um cargo majoritário. Foi a primeira contradição com o slogan que anunciou para o portal: “A verdade em notícia”.

Na sua fantasiosa reconstituição da trajetória que seguiu ao substituir o pai no comando das quatro empresas: do grupo (O Liberal, TV Liberal e rádios Liberal AM e FM), diz que sua primeira providência “foi me afastar das propostas” de compra “e das aves de mau agouro, que nessas ocasiões correm para assediar”.

Como “jamais me passou pela cabeça em sair dos negócios, vender ou deixar de executar meus planos”, investiu na expansão das empresas. Destaca ou, nesses “anos muito difíceis, mas profícuos, a saída do velho prédio da Gaspar Vianna e suas rotativas para entregar aos leitores o mais moderno prédio de Jornal, integrado por uma arquitetura de vanguarda, junto ao que tinha de mais moderno em equipamentos”, que lhe permitiu colocar o jornal  nas ruas “com todas suas capas em cores”. Lembrou que, hoje, as Organizações Romulo Maiorana “não são mais aquelas quatro, e sim mais de 20”.

Chegada a hora “de passar o comando negociando minha saída” (antes do conflito do dia das mães), decidiu criar um grupo só dele, o Roma, “já com mais de 300 funcionários, focado na ética, responsabilidade e qualidade, onde a comunicação será também presente e atuante através dos players: Roma News (Canal 523 – HD), Roma News Portal e Jornal digital, Roma – FM 90.5, que, fazendo uma programação interligada com as Rádios de Castanhal, Itaituba e Marabá (todas com o nome de ROMA FM), atingirão todo o Estado do Pará com o melhor do conteúdo noticioso”.

As outras empresas do grupo são a RM Graph; Roma Construtora; Roma Incorporadora; Roma Cabo com internet rápida, TV e telefonia; Roma Hotéis; Roma Park; Roma Empreendimentos & Eventos.

Um novo império? Pelo arrolamento, sim. Mas pelo que essas novas empresas demonstraram, principalmente o portal Roma News, nada mais do que tigres de papel num sonho de verão. Romulo Maiorana Júnior não é mais o mesmo personagem. Seu peso diminuiu muito e não há perspectiva de que retome a condição anterior. Sua estrela começou a apagar. Mas a constelação do império que ficou com os irmãos pode não ser menos ilusória. O grupo Liberal, agora com um outro tipo de relacionamento com o seu principal antagonista até então, o grupo de comunicação do senador Jader Barbalho, parece ter entrado numa rota descendente de poder – e mesmo de sobrevivência.


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