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‘Utopias Amazônicas’: pré-lançamento, pluralidade de saberes e a importância de Lúcio Flávio Pinto

Por Yris Soares, Universidade Federal do Pará (UFPA) / Amazônia Latitude - 01/05/2024

Mensagem especial do homenageado, Lúcio Flávio Pinto. - Créditos: Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude

V Sialat tem evento de pré-lançamento do livro ‘Utopias Amazônicas’ e homenagem ao grande jornalista Lúcio Flávio Pinto*

 

No primeiro dia do V Seminário América Latina e Caribe (Sialat), quarta-feira (24), foi realizada a sessão especial intitulada Outros Possíveis, onde ocorreu o pré-lançamento do livro Utopias Amazônicas e uma homenagem ao jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto. Com mediação do professor e doutor em Estudos Culturais, Marcos Colón, a sessão iniciou com uma belíssima apresentação do instrumentista Nilson Chaves que, embalou o Centro de Eventos Benedito Nunes, na Universidade Federal do Pará (UFPA), ao som de Gaia e Sabor do Açaí.

 

A mesa teve início com uma homenagem ao jornalista, que, infelizmente, por questões de saúde, não pôde estar presente. Mas, seu irmão e demais colegas de profissão, luta e vida, marcaram presença para falar do impacto que Lúcio tem no jornalismo e na sociologia brasileira.

 

Violeta Refkalefsky, professora e amiga de Lúcio começou sua fala questionando: “o que faz um profissional como ele ser um jornalista acima da excelência?”. Se levarmos em consideração a ética, a linguagem precisa e o profissionalismo, muitos jornalistas teriam o mesmo impacto do paraense, uma vez que é possível ter essas características. Mas afinal, o que um jornalista e sociólogo que nasceu na beira do rio, que mora em uma periferia, fez para ser um referencial em diversas áreas e ser o único brasileiro na lista dos 100 mais importantes jornalistas da ONG Repórteres Sem Fronteiras?

 

Lúcio nunca se calou. “Ele foi o primeiro jornalista a denunciar o enorme incêndio da Volkswagen na Amazônia, em um momento que o Brasil mergulhava na euforia de um desenvolvimento anunciado pela ditadura. Lúcio foi um dos primeiros a denunciar a violação de direitos humanos nos anos 70, durante o ciclo asqueroso da abertura das estradas pela Amazônia. Ele foi essencial na defesa da Amazônia e sua natureza. E jamais se deixou capturar durante as tentativas de silenciamento e as tentativas de criminalização de seu jornalismo, que não foram poucas”, disse Violeta.

 

 

Autores debatem sobre a obra Utopias Amazônicas
Sessão especial: Outros Possíveis, com José Ángel Quintero Weir, Philip Fearnside, Edna Castro, João de Jesus Paes Loureiro, Flávia Marinho Lisbôa,
José Ribamar Bessa Freire, Bruno Malheiro e Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude

 

 

O sociólogo não impressiona somente no profissional. Para alguns amigos, como o escritor Edyr Augusto, Lúcio vai além: “Já acompanhava e admirava seu trabalho, seus textos exatos, notícias audaciosas e seu senso crítico, quando tive a oportunidade, em um almoço, de conhecê-lo, de fato. Digo que ali demos um ‘match’ com nossos ideais, pensamentos e pesquisas”.

 

Por meio de uma mídia independente e de militância, o Jornal Pessoal, que sobrevive desde os anos 70, o jornalista vem trabalhando sob pressão, analisando, investigando, denunciando e apontando saídas para os problemas que assolam a Floresta Amazônica. Para o engenheiro ambiental e professor de Literatura Paulo Vieira, Lúcio Flávio foi importante para mostrar o que acontecia na Amazônia e inspirar outros pesquisadores e profissionais da região a falar sobre ela. “Há 20 anos, Lúcio me inspirava. Um jovem formado em Engenharia Ambiental que não queria só saber cortar madeira. Ele mostrou como levar a educação para dentro das florestas”, concluiu Vieira.

 

Paulo Faria, irmão de Lúcio Flávio, recebeu simbolicamente a homenagem e o certificado enviado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). “Peço à Universidade que não abandone essa ideia de homenagem. Mas que ela se torne, de fato, uma relação concreta com a instituição. Que seus livros possam ser lidos nas bibliotecas e debatidos em sala de aula”, refletiu Paulo.

 

Representando a Universidade, a professora Edna Castro reafirmou a importância do jornalista para a Amazônia e para a Academia. “Lúcio faz parte do pensamento base da instituição. Ele é responsável por muito conhecimento que foi produzido e ainda se produz nesta Universidade”. Autor de mais de 20 livros, Lúcio jamais abandonou os princípios da investigação na sociologia, e suas pesquisas são subsídios fundamentais para a pesquisa na região amazônica a nível internacional. Sendo assim, fazer essa homenagem foi significativa para todos aqueles que o conhecem.

 

Ao final das falas, Lúcio Flávio apareceu em vídeo, declarando: “Meus amigos, queria dizer para vocês, neste momento, que viver na Amazônia sem utopias não é viver. A utopia é fazer história, uma história acima dos colonizadores que impõem o que eles querem”.

 

Utopias para quem?

 

O que seria uma Amazônia ideal? Ou melhor, para quem seria essa Amazônia? É o que o livro Utopias Amazônicas tenta descobrir por meio de seus capítulos, produzidos por 18 autores de diversas regiões da região.

 

Em uma mesa de apresentação, alguns autores falaram da construção da obra, das problemáticas e soluções que ela visa debater. O colaborador José Bessa relatou a importância de trazer propostas de políticas públicas voltadas para a Amazônia. “O livro traz quatro medidas prioritárias para termos uma Amazônia utópica. A primeira: zerar o desmatamento. A segunda: fortalecer as áreas protegidas nas florestas. A terceira: fazermos a transição para uma bioeconomia com florestas de pé. A quarta: ter a coletividade dos ecossistemas, junto com a autenticação local, regional e global pelo bem viver na Amazônia”. Bessa ainda incluiu uma quinta medida, sendo ela o fortalecimento da diversidade linguística existente na região.

 

A luta pelos territórios é um dos tópicos debatidos na obra. Para a autora Flávia Marinho Lisbôa, é necessário entender as dimensões de gênero na Amazônia. Utilizando o discurso de Foucault sobre utopias e heterotopias, Marinho abordou a relação das mulheres racializadas na defesa dos territórios. “Quando falamos de utopias, qual é o papel da mulher nessa luta? Como elas protagonizam essa luta? Foucault diz que ‘para se ter utopia, basta ter um corpo’. Então busco entender como essas mulheres usam seu corpo e sua ancestralidade na luta e na resistência de um futuro possível”, refletiu.

 

Utopias Amazônicas será lançado em breve e irá trazer uma pluralidade de saberes. São pensamentos literários críticos, pesquisas e ideais de que a Amazônia utópica espera por nós. Qual o futuro da Amazônia e como vamos fazer parte dele?

 

Marcos Colón, organizador do livro, terminou a mesa pedindo “faça-se utopias”, reiterando a importância da obra.

 

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*Lúcio Flávio Pinto é articulista e colunista do Portal OESTADONET




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