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Conversas mostram que advogada supostamente pagou propina para ex-superintendente da Polícia Civil no Baixo Amazonas, revela portal do DF

Portal OESTADONET, com informações do Metrópoles - 22/12/2023

 

A advogada Rafaele Dalmagro pagou ao delegado Jardel Guimarães, superintendente afastado da Polícia Civil no Baixo Amazonas, propina para que o agente da segurança pública ‘amenizasse’ um relatório de fiscalização, que flagrou sete pessoas acusadas de desmatamentos em uma área da União. A informação é do portal Metrópoles, que publicou reportagem mostrando detalhes da conversa entre advogada e o delegado.

 

 

trecho de diálogo operação sobre desmatamento

 

 

Os prints das mensagens de um aplicativo obtido pelo Metrópoles fazem parte do processo da Polícia Federal, que investiga um grupo suspeito apontado como responsável por uma das maiores áreas desmatadas no país. 

 

A reportagem mostra que Rafale Dalmagro, que defendeu um dos integrantes da organização criminosa, teria pago propina a um delegado e a um investigador da Polícia Civil do Pará, Davi Gemaque, para livrar o grupo em uma fiscalização.

 

A residência do delegado Jardel Guimarães foi alvo da operação ‘Retomada II’, deflagrada pela PF, no último dia 6. Além dele, o investigador Gemaque também teve sua casa vasculhada pelos federais. Ambos continuam afastados do cargo por determinação do juiz federal Gilson Jader Gonçalves Vieira Filho, da 4ª Vara Federal Criminal do Pará, com sede em Belém.

 

A operação da PF mirou o grupo que, ao menos nos últimos 10 anos, invadiu e desmatou terras da União, sendo responsável por danos ambientais que chegam a R$ 116,5 milhões. A PF aponta que o chefe do grupo, Bruno Heller, usava parentes como “laranjas”, fazendo registros das terras nos nomes dessas pessoas.

 

A reportagem do Metrópoles mostra que a conversa da advogada Rafaele Dalmagro com o delegado Jardel Guimarães aconteceu logo após o grupo descobrir que estava sendo alvo de investigação.

 

O caso ocorreu em maio de 2021, e a polícia o descobriu após acessar trocas de mensagens entre a advogada e Tatiana Heller, filha do homem apontado como chefe do grupo, após busca e apreensão na primeira fase da operação, em agosto deste ano.

 

Conforme diálogos, Tatiana procurou Rafaele para se orientar sobre como proceder. A advogada disse que conhecia “esse pessoal” e que eles iriam “exigir dinheiro”. “Infere-se que a advogada já teria realizado outras tratativas para o pagamento de propina aos policiais em questão”, diz a PF em relatório.

 

Em outro momento, Tatiana adianta para a advogada Rafaele que vai desmatar uma área e que deve dar "B.O com o Ibama".

 

 

trecho de diálogo operação sobre desmatamento

 

 

Em outro trecho, a advogada conta para Tatiana que o relatório de fiscalização dos policiais foi mantido "como combinado" e que vai lançar parte dos pagamentos como honorários.

 

Uma das mensagens obtidas pela PF mostra parte do diálogo operação sobre desmatamento entre a advogada e o delegado Jardel.

 

Já em 2023, Tatiana manifesta preocupação com sequestro de bens e advogada orienta a não deixar nada na conta corrente Reprodução. 

 

Rafaele diz a Tatiana, que iria comparecer à delegacia no dia seguinte, que os policiais provavelmente iriam pedir alguma coisa em troca, e que iria na delegacia antes da cliente para negociar alguma “vantagem” para Tatiana. A advogada, então, diz que como houve flagrante, a estratégia seria diminuir eventuais efeitos da fiscalização. “A gente tem que agora tentar diminuir ao máximo”, disse.

 

As mensagens mostram a negociação entre Rafaele, Jardel Guimarães, que na época era diretor da Delegacia de Meio Ambiente e Proteção a Animais e Conflitos Agrários de Santarém, e um investigador Gemaque. Com o delegado, ela apenas combina um encontro. Já o policial chega a dizer que faria um relatório “bem de boa”.

 

A PF aponta que o total pago aos servidores supostamente foi R$ 8 mil, pagos diretamente por Rafaele e parte declarado como honorários advocatícios. 

 

Segundo a investigação da PF, o grupo invadia áreas públicas da União, colocava o nome de familiares de Bruno no Cadastro Ambiental Rural (CAR), e buscavam regularizar junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). As propriedades ficam na região de Novo Progresso (PA). 

 

Bruno Heller tinha 11 procurações de membros do seu grupo familiar residentes em outros estados, fora do Pará, que aparecem como titulares de imóveis na região. As procurações davam amplos poderes para que ele os representasse junto ao Incra.

 

A corporação aponta que o engenheiro por trás da organização seria Bianor Emílio Dal Magro, que atua há mais de 30 anos na região de Novo Progresso. A advogada Rafaele é filha de Bianor.

 

A PF ainda investiga a possibilidade de existência de servidores que concediam acesso a dados sigilosos do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ao grupo. Isso porque em um dos diálogos, Rafaele dá a entender que tem acesso privilegiado a essas informações.

 

O diálogo que acendeu o alerta é entre Tatiana e Rafaele, em janeiro deste ano. Preocupada com possíveis autuações que poderiam ser atribuídas às suas terras, Tatiana entra em contato com a advogada pedindo uma espécie de consultoria para verificar possíveis registros de autuações, relatando ter medo de que seu dinheiro seja sequestrado de sua conta.

 

A advogada, então, orienta que a mulher não tenha nenhum valor em sua conta corrente, e diz ainda ter acesso à lista de autuações do Ibama antes do lançamento nos sistemas. Rafaele diz, em áudio, que a lista foi repassada por um servidor do instituto.

 

Para a PF, “isso demonstra indícios de possível prática de corrupção da advogada junto a servidores do Ibama”, pontua a PF.

 

Outro lado

 

Em nota, a defesa da família Dal Magro disse que “há uma distorção dos fatos apresentados pela Polícia Federal, e isso será devidamente esclarecido durante o processo”. “Os investigados estão à disposição da justiça e têm ciência plena de sua inocência”, afirmou.

 

A defesa de Bruno Heller e Tatiana Heller, realizada advogado Vinícius Segatto Jorge da Cunha, pontuou que o grupo familiar atua desde os anos 1970 contribuindo “para o desenvolvimento econômico da área de Novo Progresso e Itaituba”.

 

“Bruno e Tatiana são respectivamente pai e filha, trabalham e empreendem de modo autônomo e independente entre si na lavoura e no ramo da pecuária, mantendo em comum somente os laços afetivos, assim como os demais membros familiares”, disse.

 

A defesa pontuou, ainda, que “todas as circunstâncias abordadas pela investigação serão devidamente elucidadas no momento oportuno perante as autoridades e os órgãos competentes”.

 

Em depoimento em agosto, Bruno Heller negou ser o responsável pelo cadastro e por alterações nas áreas registradas em nome de parentes. Ele não soube informar um motivo claro para o qual toda a documentação, com procurações que lhe davam poderes ilimitados a ele, estavam guardadas em sua casa, segundo a PF.

 

A reportagem tentou contato com a defesa de Jardel, mas não obteve retorno. Também não houve retorno da Polícia Civil do Pará. O espaço permanece aberto para manifestação.




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