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200 anos de Von Martius na Amazônia, o naturalista que naufragou no rio Amazonas e presenteou Santarém com o crucifixo da Catedral

Weldon Luciano - 04/03/2019

Crucifixo doado por Von Marthius está entronizado na matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Santarém -

A Folha de São Paulo, em publicação feita pelo jornalista José Hamilton Ribeiro, segunda-feira, 4 de março, relembrou os 200 anos da viagem do pesquisador alemão Carl Friedrich Philipp von Martius pelo Brasil. Aos 23 anos, acabou vindo de Munique na comitiva da princesa Maria Leopoldina, da Áustria, futura imperatriz do Brasil para embrenhar se nas matas brasileiras com a tarefa de fazer um inventário da natureza no país. Em 1819 ele esteve em Santarém, onde quase morreu afogado e depois presenteou a cidade com um dos mais belos artefatos expostos na Catedral da cidade: o crucifixo de Von Martius. A matéria completa pode ser acessada aqui.  

 

A publicação relembra que a viagem começou em 1817, chegando ao fim em 1820 e foi dividida em três etapas: na primeira, percorreu-se um trajeto que passava por Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Pernambuco e Bahia; na segunda, Piauí, Maranhão; na terceira, exploram a bacia amazônica.  

Composta por grandes estudiosos como o zoólogo Johann Baptist Spix, da Real Academia da Baviera, a equipe passou a realizar diversos estudos sobre a fauna e flora, considerados fundamentais para a ciência até hoje. Coube a Martius, ligado a botânica, registrar as plantas e tudo mais que fosse do interesse da ciência enquanto Spix observaria os bichos.

 

Ainda segundo o jornalista José Hamilton Ribeiro, Martius tinha ainda outra missão: estudar os indios, ver como viviam, que língua falavam anotar seus cantos e danças para transcrever músicas em pentagramas, de modo que pudessem ser executadas em Munique. Foram mais de 14 mil km de viagem, sendo 4.800 km em lombo de mula, 8.200 km em rios e mais de 1.000 km no mar. A parte de terra revelou-se a mais sofrida. As mulas eram imprescindíveis. O pessoal chegou a ter de lidar com 50 animais e uma variada equipe para manejá-los.

 

 

Passagem por Santarém

 

José Hamilton Riberio também relembrou a passagem do alemão por Santarém. A Amazônia era a parte da aventura mais aguardada pelo estudioso. “Por volta de julho de 1819 teve início a exploração da bacia amazônica. Era o trecho da viagem mais aguardado por Martius. Desbravar a região era o sonho de qualquer botânico da época -e de agora também. E de fato a Amazônia traria aos viajantes um espanto acima do esperado. De pronto duas sensações: o medo e o deslumbramento.

 

Medo diante de tanta água e deslumbramento com a natureza. Lá, sentiram o sol e o calor. Chegaram a dizer que o sol na Amazônia alcançava o zênite e isso redobrava a força da terra para engendrar no seu seio uma vida portentosa. Também diziam que a linha do equador provoca efeitos na natureza e no homem”.

 

Nas palavras do próprio Martius, o "Equador é o lugar no mundo onde o homem experimenta a menor força da gravidade e o Sol percorre o maior arco no seu percurso pela abóbada celeste: a exposição solar é mais fortes e as sombras são menores”.

 

Sobre o episódio do quase afogamento, o jornalista detalhou a sucessão dos fatos que deram origem ao crucifixo Von Martius. “Quase se perderam, todavia, com certas miragens. Quando o barco que os levava chegou a Santarém, no Pará, Martius, vendo a água azul e transparente que vinha do Tapajós, saltou no rio. Estava no vigor de seus 25 anos e nadava muito bem: não avaliou a correnteza. Foi sendo levado, sem forças para resistir. Gritou pelos índios que remavam, mas ninguém o ouviu. Salvou-se por um vigia da tripulação, que por acaso o avistou. Já em Munique, para agradecer o milagre de estar vivo, mandou confeccionar um grande crucifixo de ferro, com uma camadinha de ouro, e o enviou para a Igreja Matriz de Santarém, onde permanece exposto ainda hoje. Numa palestra acadêmica, 40 anos após a viagem, Martius confirmou que por pouco não foi tragado pelo Amazonas”, conclui. 


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