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Boechat e a verdade

Redação - 11/02/2019

Lúcio Flávio Pinto:

 

Joaquim Carvalho trabalhou em O Globo na mesma época em que Ricardo Boechat era responsável pela Coluna do Swann, que depois levaria o nome do redator. Carvalho gostava de passar notas para a coluna. Boechat sempre as publicava, com o devido crédito, mesmo não conhecendo pessoalmente o repórter da sucursal de São Paulo.

 

Em excelente artigo publicado hoje no Diário do Centro do Mundo, Carvalho cita “um episódio define bem como era Boechat e o valor que dava à essência do jornalismo: a notícia, de preferência exclusiva”. É um relato que merece ser reproduzido, pelo que representou na carreira de Boechat e pela lição que pode proporcionar a qualquer jornalista.

 

Diz Joaquim Carvalho:

 

Quando Veja vazou o áudio com a conversa entre Ricardo Boechat e Paulo Marinho, braço direito do controverso empresário Nélson Tanure, foi uma decepção.

 

Por telefone, Ricardo Boechat leu para Paulo Marinho um texto que seria publicado em O Globo, com informações negativas para o concorrente de Tanure, Daniel Dantas.

 

A matéria tá muito bem-feita, meu querido. Tá na conta. Não precisa botar mais p… nenhuma, não. O resto é como você falou: é adjetivação que você não pode colocar. (…)”, disse Paulo Marinho, hoje muito amigo de Jair Bolsonaro.

 

Boechat também havia orientado o chefe de Paulo Marinho, Nélson Tanure, sobre como se comportar num encontro com João Roberto Marinho, um dos donos do Globo.

 

Quando o áudio foi transcrito pela revista, Boechat explicou, publicamente, que seu interesse era pela notícia e, nesse trabalho, conversava com pessoas de todo tipo.

 

Ficou ruim, e ele foi demitido das organizações Globo depois de 31 anos na empresa. Em um artigo,  reconheceu que errou, mas não por dinheiro ou dolo.

 

“Cruzei a barreira da boa conduta profissional por um motivo tolo: vaidade. A vaidade de me supor em posição de prestígio nos dois maiores jornais de minha cidade (Tanure havia cobrado o Jornal do Brasil) cegou a autocrítica com que sempre procurei orientar minha atividade jornalística”, disse ele.

 

Alguns meses depois, foi para a TV Bandeirantes, mais tarde para a rádio Band News e, depois,  se tornou colunista da revista IstoÉ.

 

Na difícil tarefa de manter uma comunicação incessante com o público, Boechat já desagradou a direita e a esquerda.

 

Muitas vezes, falou demais, e chegou a reconhecer o exagero.

 

Mas seria desonesto se não reconhecesse em Boechat um jornalista autêntico no que diz respeito à busca pela notícia.

 

Ele era daqueles profissionais que, diante de uma informação importante, de preferência exclusiva, deixam transparecer o brilho nos olhos e seriam capazes de gritar:

 

“Parem as máquinas”.

 

Hoje, as máquinas pararam, para dar a notícia de sua morte.




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