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Finados: As ações e reações de quem lida com a morte

Weldon Luciano - 31/10/2018

Karine, a médica, entre Abraão, administrador de cemitério e Ney, dono de funerária -

O que há em comum entre uma médica da UTI, um administrador de cemitérios e um proprietário de funerária? A resposta talvez seja mais complexa do que a pergunta: todos lidam com a morte e são confrontados entre o fim da vida e o dia a dia. O Portal OESTADONET conversou com profissionais destas áreas e buscou saber quais as experiências e a visão que cada um tem da morte durante o exercício de suas funções. Todos ressaltaram que a morte é importante para aprender a entender seus próprios sentimentos em relação a ela, para que os relacionamentos não sejam frios, desumanizados. É no fim da vida, o momento mais difícil para muitos, que eles entram em ação.  

 

Médica da UTI, a despedida de mãe e filha com morte cerebral.

 

Karyne Resende é médica e já são 18 anos convivendo com a rotina da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), cuidando de pacientes graves. Ela ressalta que na faculdade de medicina, o médico é preparado para atuar com as doenças, mas não se aprende a lidar com a morte.  De acordo com as experiências é possível sentir as emoções vividas com a morte, de duas maneiras distintas: na UTI e na enfermaria.

“Tive várias experiências com morte, mas até a hoje tenho uma certa dificuldade porque cada caso é um caso. Não é como uma receita de bolo. Como intensivista já tive muitos casos e em uma UTI o contato com o paciente fica um pouco mais distante, pois muitas vezes ele está sedado, entubado e acaba que a gente mantém um vínculo maior com os familiares. No caso da enfermaria, o contato diário com os pacientes, cria vínculos e não tem como não se apegar, acaba virando uma família. Aquela mesma dor que o familiar sente quando tem uma piora ou quando o paciente parte a gente também sente. Só que a gente tenta sempre manter o equilíbrio nesta montanha russa de emoções. A vivência da morte na UTI muitas vezes é mecânica, mas a vivência da morte na enfermaria é muito mais dolorosa. A gente sempre tenta se preparar, mas nunca estamos preparados quando ela de fato acontece. Medicina nunca é matemática”.

Em 2001, quando a médica era residente se deparou com um caso que marcou muito em sua carreira. Uma criança de 5 anos foi diagnosticada com morte cerebral. “A gente já tinha feito as provas de morte cerebral. Já tinha fechado um diagnóstico e chamamos a família para desligarmos os aparelhos e a família quis rezar, fazer o ritual do luto e foi uma coisa impressionante que marcou toda a equipe. A mãe pegou a criança de 5 anos no colo fizeram orações muito bonitas e a frequência cardíaca que estava em 5 subiu para 150. A saturação que era 10 passou a 98. A mãe parava de conversar e descrever como era o céu para a criança a frequência e a saturação baixavam. Até que a mãe disse para a criança que ela poderia ir e que elas se encontrariam e a criança se foi”, lembra a médica, que não conteve as lágrimas ao lembrar do fato.   

Ela se declara totalmente contrária a distanasia, que é a prática pela qual se prolonga, através de meios artificiais e desproporcionais, a vida de um enfermo incurável. “É preciso trazer o conforto. Assim como o paciente viveu dignamente ele merece morre de forma digna”.

 

Administrador de cemitério: Deus me colocou no lugar certo.

 

Abraão Pimentel atua no setor de sepultamento e atualmente é o administrador dos cemitérios centrais de Santarém: Nossa Senhora dos Mártires e São João Batista. Os logradouros foram fundados em meados do século XIX e figuram até hoje no centro comercial como o lugar de morada eterna de milhares de pessoas. Não há como fazer um levantamento exato da quantidade de sepultamentos feitos desde a fundação porque em determinados momentos os arquivos se perderam. Mas há a crença de que existam mais mortos ali do que habitantes atualmente vivos em Santarém.  Os registros da atual administração apontam uma média diária de três a quatro sepultamentos. Abraão ressalta foi se acostumando com o passar dos anos de profissão.

“Já me adaptei e alguma situações a gente já encara com certa normalidade. Estamos em uma parte frágil da cidade porque estamos na lida com pessoas que estão aqui se despedindo de seus entes queridos. Sinto que Deus me colocou no lugar certo. Participo de um grupo do terço dos homens na minha comunidade e sempre procuro refletir em palavras de consolo para quando eu me deparar com casos como estes eu esteja de prontidão para dar um serviço de qualidade ao ente querido que está sendo sepultado, além de dar um atendimento humanizado aos que ficam”.

O administrador lembra que já presenciou alguns casos em que pais sepultam filhos e filhos sepultando pais e isso acaba sendo muito doloroso. “Lembro do caso de um rapaz que mesmo na idade adulta ainda convivia com mãe e quando ela se foi ele sentiu muito. Teve muita dificuldade para superar a morte dela estava se recusando a sair da sepultura. Tivemos que entrar em ação, puxei uma palavra da bíblia e li com ele. Argumentei que o que ficava ali era apenas a matéria e que a mãe dele viveria o resto da vida dele no coração e após muita conversa ele se sentiu mais consolado e foi para casa”.

Abraão ressalta aos colaboradores que as pessoas que estão ali, passam por um momento frágil e precisam ser bem tratados, acolhidas da melhor forma. “Cada sepultamento é feito de uma forma diferente. Uns preferem fazer uma cerimônia simples e em seguida se despedem, outros preferem cantar, celebrar ou fazer homenagens mais longas. Cada um à sua maneira, de acordo com sua crença e tradição. Respeitamos todas”, conclui.  

 

Proprietário de funerária: do garimpo à preparação de cadáveres

 

Ney Costa é proprietário de uma funerária. Ex-mecânico de avião em um garimpo localizado em Itaituba, passou a morar em um apartamento em cima de uma funerária o que aguçou a curiosidade em conhecer a tanatopraxia, que é o procedimento que consiste na preparação de um cadáver para o funeral. De lá para cá já são 20 anos atuando e convivendo com 25 sepultamentos por mês, quase um por dia.   

“É um setor muito importante, pois somos nós quem cuidamos dos mortos. Isso inclui o respeito e a dignidade, pois se trata de uma pessoa que tem parentes e é preciso manter esta imagem mesmo após o falecimento. No momento de perda, a gente sabe que entregar o corpo para o sepultamento requer o maior zelo possível. É a forma que a gente encontra de tentar amenizar a dor de quem fica”.

Ney lembra que é frequente o contato com histórias de quem parte e de quem fica. Muitos deles marcam, mas nem um deles marcou tanto quando o serviço funerário foi prestado a uma amiga que perdeu um filho recém-nascido. A proximidade e a tristeza vivida naquele momento quase o fizeram desistir da profissão

“Certa vez uma amiga teve um bebê e coube a mim fazer o funeral. Ele era prematuro e viveu cerca de 15 dias e foi uma perda muito dolorosa para ela. O amor de mãe é inigualável. Quando cheguei lá ela gritava o meu nome. E depois do velório, chegada a hora do sepultamento ela voltou a gritar pelo meu nome e suplicou que eu não levasse embora o filho dela. Ela associou a mim o poder de não levar o filho dela embora, o que realmente não dependia de mim. Foi agonizante, deu vontade de largar a profissão, mas a gente sabe que é preciso continuar e sigo até hoje nessa missão. A morte sustenta a vida, é o outro lado da moeda”, conclui.  


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