Violência interno
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O pequeno Pará e a Vale gigante

Lúcio Flávio Pinto - 05/09/2018

Há meio século o Pará abriga uma empresa que chegou ao Estado ainda na condição de estatal, no final dos anos 1960. No auge da ditadura, cumpria uma missão estratégica definida pelo governo militar: assumir o controle  da província mineral de Carajás, sob o da maior siderúrgica do mundo, a United States Steel, que descobrira as jazidas de minério de ferro em 1967, registrando-a em seu nome.

Os militares consideravam ameaça à soberania nacional deixar uma riqueza do porte de Carajás nas mãos de uma multinacional, ainda mais tão poderosa como a USS. Os técnicos endossaram essa posição, cientes de que a Steel não estava interessada em colocar em funcionamento a mina de Carajás. Preferia sentar nela enquanto mantinha a exploração das reservas da Venezuela, mais próximas do mercado americano e já em operação.

Entre 1969 e 1977 a convivência entre a Companhia Vale do Rio Doce e a USS foi conflituosa, até que a empresa americana aceitou sair do empreendimento e receber indenização apenas pelo investimento que fizera na pesquisa geológica. Como o projeto de Carajás foi concebido visando o mercado dos Estados Unidos, até então impenetrável, não restaria alternativa para os brasileiros se não aguardar o retorno dos parceiros.

Era o que a Vale queria. Ela já se voltava inteiramente para a Ásia, com prioridade para o Japão. Uma logística sem igual permitiu que o minério percorresse a longa distância e chegasse em condições de competitividade com os australianos, fornecedores tradicionais dos asiáticos, com a vantagem do minério mais rico. A Vale se tornou a primeira empresa brasileira verdadeiramente multinacional, mas com grande dependência de um único comprador, que já foi o Japão e agora é a China.

Hoje, a empresa se apresenta como “uma das maiores companhias de mineração e metais do mundo, com base na capitalização de mercado. Somos o maior produtor mundial de minério de ferro e pelotas de minério de ferro e o maior produtor mundial de níquel. Produzimos também minério de manganês, ferroligas, carvão metalúrgico e térmico, cobre, metais do grupo da platina (“PGM”), ouro, prata e cobalto. Participamos da exploração mineral greenfield em seis países”.

Na sua comunicação à bolsa de valores de Nova York, ela informa que opera “um grande sistema de logística no Brasil e em outras regiões do mundo, incluindo ferrovias, terminais marítimos e portos, que estão integrados às nossas operações de mineração. Além disso, possuímos um centro de distribuição para o suporte da entrega de minério de ferro ao redor do mundo. Temos também investimentos nos setores de energia e siderurgia, diretamente e por intermédio de coligadas e joint ventures”.

Seu principal produto são os BRBF, “um produto de alta qualidade resultante da mistura de finos de Carajás, que contêm uma maior concentração de ferro e uma menor concentração de sílica no minério, com finos provenientes dos Sistemas Sul e Sudeste, que contêm uma menor concentração de ferro no minério”.

Esse filé mignon é misturado e vendido no terminal marítimo da empresa, em Teluk Rubiah, na Malásia e em 12 centros de distribuição na China. “Esse processo reduz o tempo necessário para se chegar aos mercados asiáticos e aumenta a nossa capilaridade de distribuição por permitir o uso de embarcações menores. A estratégia de mistura possibilita também o uso de minério de ferro com menor concentração, especialmente do Sistema Sul, permitindo planos de mineração mais eficientes e maior uso de métodos de processamento a seco, o que, por sua vez, reduz as despesas de capital, amplia a vida útil das nossas minas e reduz o uso de água em nossas operações”.

Esta é a poderosa Vale. No ano passado sua receita alcançou 34 bilhões de dólares (120 bilhões de reais), com lucro líquido de US$ 5,5 bilhões. O minério de ferro respondeu por 74% do seu faturamento. A China, por 41.3% das suas vendas.

No Pará, esse gigante quer continuar apenas a praticar o extrativismo vegetal. O Pará acha que pode muda-lo com retórica e ameaças verbais. Na verdade, o Pará não se preparou para dialogar no mesmo nível com a Vale e enfrentá-la, se necessário, com competência, determinação e honestidade. Não apenas com discursos vazios em época de eleição.


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