Violência interno
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Eliezer Batista e o caminho para a Ásia

Lúcio Flávio Pinto - 29/06/2018

Eliezer sempre criticou os procedimentos aventureiros e audaciosos do filho, o que provocou estremecimento na relação entre os dois. A reconciliação com Eike Batista veio nos últimos tempos, quando Eliezer adoeceu. -

O engenheiro Eliezer Batista, que morreu no dia 18, no Rio d Janeiro, aos 94 anos, foi o não residente que por mais vezes esteve no Japão. Fez 178 viagens de avião para Tóquio. Em algumas dessas viagens, fez o longo trajeto de volta, com mais de 20 horas de duração antes da era dos jatos, dois dias depois de ter chegado. Falando japonês (como russo e várias outras línguas), aproveitava intensamente a sua estada. E precisava. Eliezer estava mudando uma das histórias mais incríveis e menos conhecidas da exploração de recursos minerais do Brasil e do mundo.

Sua primeira grande participação foi na exploração do quadrilátero ferrífero de Minas Gerais. Esse depósito, o maior do mundo na época, permaneceu na condição de reserva dos interesses estrangeiros, em particular do americano Percival Farquhar, até 1942. Só com a decisão de Getúlio Vargas de se incorporar às forças aliadas na Segunda Guerra Mundial é que os Estados Unidos concordaram com o início da produção da mina, sob o domínio de uma empresa estatal criada nesse ano, a Companhia Vale do Rio Doce.

Eliezer participou da construção da ferrovia Vitória-Minas, que levaria o minério até a capital do Espírito Santo, onde seria construído um grande porto. Minas Gerais se tornaria o maior exportador de minério do Brasil graças a esse novo eixo.

O segundo capítulo seria escrito mais de 2,5 mil quilômetros de distância ao norte, na Amazônia. Em 1967, no maior feito da geologia mundial, pela rapidez dos seus resultados e a sua magnitude, a United States Steel se tornaria proprietária exclusiva daquela que viria a se revelar como a melhor jazida de minério de ferro de alto teor do planeta: Carajás, na região central do Pará.

Em 1969 os militares, no auge da ditadura, por uma imposição da doutrina de segurança, eixo ideológico da ocupação da fronteira amazônica, forçaram a Steel, que era a maior produtora de aço do mundo, a ceder o controle do empreendimento à Vale, que ficou com a maioria do capital da empresa que os dois grupos formaram.

Mas a USS permaneceu com seu poder. Qualquer decisão exigiria a aprovação de quatro dos cinco diretores da Amazônia Mineração. Dois deles eram da multinacional americana, que vetava o que não fosse do seu interesse.

A Steel estava convicta de que a Vale não teria condições de viabilizar a exploração de Carajás, a mil quilômetros do litoral, em serras cercadas por densas florestas (hoje reduzidas ao perímetro em torno das jazidas), sem a sua participação. O principal objetivo de Carajás era justamente abrir um caminho para vendas aos EUA. Enquanto Carajás permanecia em compasso de espera, por anos ou décadas, a Steel se supriria de minério nas suas jazidas na Venezuela.

Eliezer tinha outra perspectiva. Ele olhou para a Ásia como a peça que faltava para permitir o início das atividades no coração da Amazônia Oriental. O périplo de viagens resultou numa ampla composição de interesses, que iriam além da mineração, abrangendo metalurgia, siderurgia e energia.

O Japão seria o maior comprador do minério de Carajás. Mais da metade da produção percorreria 970 quilômetros por ferrovia até um porto tão grande, em São Luís do Maranhão, quanto o de Tubarão, em Vitória. Embarcada em supergraneleiros, na maior frota mundial, formada pela CVRD, navegaria por 20 mil quilômetros até o Japão, com frete de retorno graças a petróleo do Oriente. Um feito de logística com a assinatura de Eliezer, mestre na matéria por sua excelência técnica de engenheiro e por sua visão prospectiva rara.

Com a peça asiática, a USS, que entraria em decadência, foi deslocada do acesso ao filé mignon de minério de ferro mundial. Um novo eixo geopolítico penetraria no Brasil através da Amazônia, dando um salto econômico e tecnológico graças a Carajás, salto ampliado pela entrada em operação, no ano passado, de uma nova mina, a de S11D, mina que adotou o nome de Eliezer.

O futuro desse novo capítulo da velha relação do Brasil colonial com metrópoles dominantes, tendo como elo matérias primas (ou commodities, na linguagem atual), a Ásia é a protagonista. Não mais através do Japão, mas da China, que fica com 60% da produção, garantindo o suprimento de insumo fundamental ao seu futuro de nova potência mundial.

Eike ausente

Eike Batista não foi uma das 300 pessoas que participaram da missa de corpo presente por Eliezer Batista, no dia 18, na sede da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro. Foi notada ausência do mais destacado dos sete filhos (seis homens e uma mulher, todos com nomes estrangeiros, influência da mãe alemã).

Especulou-se que a motivação possa ter sido para poupar a família dos efeitos da presença do homem que já foi o oitavo mais rico do mundo e, da mesma maneira meteórica como subiu, desceu e foi despejado da lista dos bilionários. Certamente ele provocaria polêmica, como sempre fez, e desviaria para si o centro dos acontecimentos.

Atribuía-se a súbita fortuna de Eike a informações privilegiadas que o pai lhe teria fornecido, graças ao seu acesso a algumas das principais fontes de poder no Brasil e no mundo, principalmente através da Companhia Vale do Rio Doce, que presidiu por suas vezes, e aos cargos que ocupou no governo federal nas gestões de João Goulart (antes de 1964), Collor e FHC. Mas Eliezer sempre criticou os procedimentos aventureiros e audaciosos do filho, o que provocou estremecimento na relação entre os dois. A reconciliação veio nos últimos tempos, quando Eliezer adoeceu.


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