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Çairé: Onde o sagrado e o profano se encontram

Sílvia Vieira, Repórter de O EstadoNet - 15/09/2016

Créditos: Sincretismo religioso é uma das marcas do Çairé, que se realiza em Alter do Chção, há mais de 300 anos. Foto: Tamara Saré/arquivo

Considerada a mais antiga manifestação da cultura popular da Amazônia, a Festa do Çairé, da vila balneária de Alter do Chão, em Santarém, região oeste do Pará, resiste há mais de 300 anos, mantendo o seu simbolismo e essência, embora o evento tenha adquirido novos contornos com a introdução do Festival dos Botos em 1988, que promove a disputa de títulos entre Cor de Rosa e Tucuxi. Este ano, a festa acontece de 15 a 19 de setembro.

A palavra Çairé origina-se dos dois termos ÇaiErê, que significa “Salve! Tu o dizes”, que era usada pelos índios como forma de saudação.

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A origem do Çairé remonta ao período da colonização, quando os padres jesuítas, na missão evangelizadora pela bacia do rio Amazonas, envolviam música e dança na catequese dos índios Borari.

O primeiro Çairé que se tem notícia foi organizado pelo Padre João Maria Gorzoni na aldeia dos Tapajós. Posteriormente foi levado para outras missões, havendo notícia da realização do Çairé nas Missões de Santo Inácio, São José, Nossa Senhora da Purificação (ou da Saúde) e Nossa Senhora da Assunção, ambas no rio Tapajós, bem como em Gurupatuba, no rio Amazonas.

As comemorações religiosas, que remontam à época em que os índios Borari organizavam rituais de boas-vindas aos colonizadores portugueses, começam com a busca de dois grandes mastros na mata, onde são colocadas flores, frutas e bebidas que representam a abundância. O ritual com valor competitivo entre homens e mulheres, só é concluído com a derrubada mais rápida de um daqueles troncos, no último dia da festa.

Em 1943, a Festa do Çairé foi suprimida por determinação dos religiosos franciscanos e só voltou a acontecer em 1973, por iniciativa dos moradores da vila de Alter do Chão, já desprovida de seu caráter religioso original.

O Çairé é representado por um semicírculo de cipó torcido, envolvido por algodão e enfeitado com fitas e flores coloridas. O símbolo possui três cruzes dentro do semicírculo e outra na extremidade, representando as três pessoas da Santíssima Trindade e um só Deus. Trata-se de uma criação indígena com base nos escudos portugueses. No dia da abertura da festa, o semicírculo segue à frente da procissão, conduzido por uma mulher, que é chamada de Çaraipora.

Consta na Grande Enciclopédia da Amazônia, escritos do historiador Carlos Roque que dizem que Çairé é um semicírculo de madeira, que contém o relato bíblico do dilúvio: o grande arco representa a arca de Noé; os espelhos, a luz do dia, os doces e as frutas, a abundância de alimentos existentes na arca; o algodão e o tamborim, a espuma e o ruído das ondas durante os 40 dias de dilúvio. Os três semicírculos simbolizam a Santíssima Trindade e as três cruzes o calvário, com Jesus Cristo crucificado entre os ladrões.

 




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