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Aniversário STM

Choro por ti, Belterra! Capítulo dezoito

16/03/2016

Do combalido prédio da Secretaria Municipal de Administração, Finanças e Planejamento até a sede da Prefeitura, levamos mais ou menos cinco minutos, em marcha lenta, quase parando; os cinco minutos mais extensos que eu já vivi.

Como uma liga elástica e invisível, o tempo, jamais se rompendo, alongava-se e alongava-se até ao infinito. Um tempo sem medida nem espaço, interior, indelével e diáfano, que escorria de algum ponto perdido dentro de mim e, no mais profundo do meu ser, formava um lago de águas turvas onde peixinhos translúcidos trançavam-se a outros seres à toa, como quelônios e jacarés. Projetando-se para fora de mim, esse tempo sem tempo tornava-se a estrada por onde o nosso carro, ao final de um dia que parecia se desdobrar em mil dias, ia deslizando, cada vez mais lento e morrinhento, quase parando, como que adaptado ao ambiente imóvel e pachorrento de uma cidade diferente de todas as cidades do mundo. Uma cidade retalhada por mil estradas e caminhos, repleta de rastros, certamente habitada – a julgar pelo estado das calçadas e cercas das casinhas de madeira pelas quais passamos desde as 9 da manhã, nessa busca pertinaz e angustiada de meu pai pelo menino que ele fora em Belterra, nos dias já remotos dos Anos 30 do século passado – mas completamente deserta.

De um lado e do outro da mítica Estrada Um, no “centro administrativo” de Belterra, eu via a paisagem tristonha e desoladora ir ficando para traz, num ritmo lento, de slow motion, cada detalhe riscando-me como lâmina a retina e penetrando-me os sentidos como finas agulhas, as quais, por instantes do tamanho da eternidade, provocavam como que um amortecimento da consciência e remetiam-me a episódios antigos da minha existência, como, por exemplo, uma viagem destrambelhada que eu fizera, cinco anos atrás, de carro, ao Uruguai. Eu ao volante. Pois, em regra, gosto de dirigir, mormente em longas distâncias. Boas ideias – nem sempre exequíveis, claro – já me ocorreram enquanto dirigia, e isso, para mim, é a parte mais apreciável das viagens. Daquela vez, porém, não conseguia apreciar a paisagem que ia ficando para trás e nem aproveitava os períodos de silêncio que costumam ocorrer nessas ocasiões dentro de um carro em movimento. Isto porque, o livro, que eu julgara terminado e publicado (refiro-me ao romance “A Mulher, o Homem e o Cão”, lançado em 2009), continuava a escrever-se dentro de mim, com os mesmos solilóquios e monólogos interiores, gerando-me certa sensação de insegurança que se agravou ao entrarmos na estrada Pelotas-Chuí (BR 471).

São 259 quilômetros em linha reta, sobre os pampas do Rio Grande do Sul. De um lado e de outro da rodovia, apenas campos alagados, sem nenhuma habitação humana ou estabelecimento comercial. Uma avaria no carro ou falta de gasolina, na estrada deserta e reta, até o infinito, nem pensar! A solidão daquelas paragens gerava, dentro e fora de mim, o silêncio mais absoluto, e uma expectativa indefinida punha-me em suspensão. Senti-me, novamente, afastado de tudo e de todos, como se tivesse regressado ao centro do mundo, esse não-lugar ao mesmo tempo de maravilhas e pavores, onde eu voltava a ser o menino que, enlevado pela paisagem, olhava para as margens alagadas do Rio Amazonas, cheias de pássaros, peixes e quelônios, e ficava mudo, pois não havia ninguém a quem pudesse comunicar o meu assombro; ou o jovem que, anos mais tarde, já em São Paulo, encolhido num porão escuro e malcheiroso, junto com baratas, pulgas e ratazanas, se refugiava da violência que explodia lá fora, entre a “fauna” das ruas. Tristeza, desamparo, temor... Desejo de cair no sono e nunca mais acordar. Receio maior de encontrar dentro do sono o pesadelo que estava vivendo, pois os dias e as noites se confundiam e sequer podia sonhar com o que já passou; o passado não tinha serventia, não havia coisa alegre para lembrar.

Também agora, nas margens da autoestrada Pelotas-Chuí, para onde eu olhasse, até o infinito, via uma fauna muito real, mas absurdamente fantástica, composta por garças, ximangos (um tipo de falcão) e outros pássaros que eu jamais vira na vida ou em livros, de tamanhos e cores variegadas; lontras, jacarés do papo amarelo, flamingos que depois alguém disse vindos do Chile, maçaricos do Canadá... e capivaras, milhares de capivaras, em bando ou isoladas, em seu lento e prudente bubuiar, bobas, que se deixavam quase tocar com as mãos, tão lerdas e inocentes que, ao tentarem atravessar para o pântano situado do outro lado da rodovia, eram atropeladas às centenas, pelos carros que iam e vinham entre Pelotas e Chuí. Morriam e ficavam ali mesmo, inchadas e apodrecidas, para o repasto de corvos e gaviões.

Quatro horas nessa estrada absolutamente deserta e silenciosa, mas, dentro de mim, escutava todos os cantos e guinchos do mundo. Quatro horas nas quais não pensei nenhuma vez que estava indo para Buenos Aires. Quatro horas nas quais me vi várias vezes às portas da loucura, esse outro lado do mistério, de onde ninguém retorna.

Não tenho problemas com a loucura, mas, para mim, ela precisa ser controlada. Quando saí de Santarém do Pará, minha terra natal, em 1977, a fim de travar a batalha da vida, disse para mim mesmo que um dia voltaria para contar o que vi e ouvi aos que ficaram. Ali, na autoestrada Pelotas-Chuí, para suportar à voz enlouquecedora do silêncio, tive que pensar sem eufonizar o pensamento. Bombas de efeito retardado às vezes se escondem num pensamento. Nenhum membro da raça humana, sem discernir as vozes do silêncio, suportaria ouvir um desses pensamentos. E os seres humanos, tão inteligentes para as coisas materiais, iludidos com a sua “sabedoria” e autossuficiência, tornam-se, na maioria das vezes, néscios e obtusos quanto aos movimentos do Espírito. Apenas os seres do charco, os mínimos seres, desprezíveis aos olhos humanos, sabem discernir o silêncio que vai na alma do mundo. Só eles, que conhecem os segredos das águas turvas dos lagos e nada almejam a não ser a paz dos lugares ermos e inatingíveis ao homem, podem saber quem eu sou. Eles, em sua nulidade, e Deus, com quem se confundem. Não posso dizer que os “conheço”, pois estou tão longe de anular-me a mim mesmo para que o Espírito cresça. Mas imagino quem sejam, na plenitude de sua insignificância. Pois conheço essas águas estagnadas, esses remansos da alma em que navegam suas minúsculas existências e onde um simples suspiro soa como um lancinante grito de dor e agonia, que fere as superfícies e provoca círculos sucessivos, concêntricos e infinitos. Ser amazônico que sou, conheço também os rios bravos, rios traiçoeiros, sei como eles andam, como crescem, a força que eles têm por dentro, por quais lugares passam suas veias. Os animais do charco e eu conhecemos muito bem a solidão dos lugares ermos e dos “rios profundos”, sobre os quais escreveu o peruano José María Arguedas.

Ali, nos pampas gaúchos, aquelas vidas mínimas, desimportantes, à margem do tempo e da civilização, “apenasmente” fauna, mas revolucionariamente ativos em sua inocência. Ao olhar para eles, inteiramente largados em sua inconsciência, compreendi que eu havia escrito um livro sobre criaturas que se recolheram para dentro de si mesmas e daí jamais saíram. Outro livro, porém, precisava ser escrito, sobre como vivem e o que pensam os seres esquecidos. Um livro que fosse a metáfora de todas as solidões terrenas.

Mal sabia eu que esse livro, aparentemente impossível de ser escrito mas que todo escritor almeja escrever, já existia dentro de mim e de meu pai e estava, desde as 9 da manhã, a escrever-se a si mesmo, naquele dia longo e tristonho, cheio de reminiscências, com a nostálgica e dolorosa caligrafia do “nunca mais”.

Estrada Um deserta e ja coberta pelo veu sombrio da noite

Eu via a paisagem às margem da Estrada Um ir ficando para trás, e meus olhos doíam. “Quando é que despertarei de estar acordado?”, veio-me esse verso de Pessoa.

– O que faremos agora, meu pai? – perguntei ao pequeno ancião que eu via ao meu lado, o qual, como que saindo de um arvoredo cheio de pássaros e flores, murmurou estas estranhas e aladas palavras, como que saídas de um livro de Fernando Pessoa:

– Não há que fazer nada na véspera de não partir nunca.

Pois papai, sem saber o conceito de poesia, foi, naquela tarde inesquecível, Poeta.

Então eu, lembrando das infinitas horas em que deixei a minha vida escorrer dentro da ampulheta dos sonhos, pensei: “Desde quando vivo a vida vegetativa dos pensamentos?”.

Sossego, sim, sossego... Grande tranquilidade... depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! Que prazer olhar para as margens de uma cidade ao mesmo tempo real e fantasmagórica como Belterra e não enxergar nenhum movimento.

“Por que eu amo infinitamente o finito? Por que desejo impossivelmente o possível? Por que quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, ou até se não puder?”, continuei pensando.

A voz frágil, quase um sussurro, de papai, quebrou o fio dos meus pensamentos. Disse ele, como que falando para si mesmo:

– O que há em mim é sobretudo cansaço. Não disso nem daquilo, nem sequer de tudo ou de nada. Mas cansaço assim mesmo, ele mesmo, cansaço. A sutileza das paixões sem sentido, as paixões violentas por coisa nenhuma, os amores intensos pelo que se supõe haja em alguém. Essas coisas todas e o que falta nelas eternamente. Tudo isso me traz um cansaço, este cansaço. Cansaço. E, antes de cair em novo silêncio, completou: – Dormita, alma, dormita!

Olhei para os olhos de papai e vi neles como que uma pelica de indiferença. Os momentos de euforia haviam cedido a uma serenidade raramente vista num ser humano, como se alguém tivesse ido ao céu e ao inferno e daí voltasse sem nenhuma paixão.

A paisagem morta das margens da Estrada Um já não nos tocava, pois sabíamos que, às 4 tarde, o sol já se inclinando para o seu esquife noturno, onde refaz suas forças para o dia seguinte, nos tornáramos seres invisíveis para os invisíveis seres de Belterra. Os mil olhos que nos espreitaram até então haviam se desinteressado de nossa esdrúxula presença e recolheram-se para os espaços sutis de suas existências. No dia seguinte, algumas velhas mascando fumo e algumas mulheres grávidas contariam seus sonhos e neles dois vultos não identificados mexiam os lábios de modo incompreensível e essa lembrança passaria para seus filhos e aos filhos de seus filhos e tornar-se-ia um mito, o mito de duas almas que vagavam nas lembranças das velhas flácidas e das mulheres grávidas e daí entrava na lembrança das crianças que não puderam nascer.

“Quando é que despertarei de estar acordado?”, voltou-me esse pensamento, ao ver a desolação diante de meus olhos: uma casa construída na época dos americanos, ampla, avarandada, habitada por gente que não existe mais e que no entanto não se foi de todo embora, em estado avançado de deterioração; o mato à porta de entrada e as tábuas quebradas destacaram-se do restante da edificação e doeram-me como uma ferida sem cascão; o absurdo é que, através das janelas, viam-se peças de roupa estendidas dentro dos quartos, mas, a julgar pelo mato crescido em torno da casa e a ausência de vestígios externos, ninguém parecia ali habitar. Onde estavam os moradores daquela casa que saíam sem fechar as portas e as janelas e não deixavam marcas de pés ou sandálias em canto algum? Mais adiante, outra casa, também antiga e “vazia”, em avançado estado de deterioração; e outra, e outra... E outra, encardida de poeira e cercada pelo capim e ervas daninhas, em cuja entrada podia-se ler: “União Belterrense de Estudantes”. Mas onde os estudantes daquela “União”?

Uniao Belterrense de Estudantes )

E assim fomos, eu e papai, deslizando pela Estrada Um deserta e já coberta pelo véu sombrio da noite que se aproximava. O meu dedo registrou esse momento apertando o obturador da digital como se tocasse numa chaga. Uma chaga ao mesmo tempo exposta e invisível: a chaga de uma sociedade que definha numa apatia endêmica, uma fraqueza provocada pelas ventosas de uma oligarquia tosca e parasitária, que, como sanguessuga, se alimenta do suor e do sangue das populações empobrecidas das vilas, pequenas e grandes cidades da Amazônia.

Tudo isso aconteceu dentro de cinco minutos, no reino da minha mente, pois não temos mais reino do que a nossa própria mente. O problema é: como ter controle sobre a mente; será possível governá-la até à fronteira onde mora a vontade? A minha mente, naquela dia, às 4 da tarde, depois de a vigília e o sonho se confundirem, estava cansada, extremamente cansada. E nesse estado, por mais que me esforçasse para manter-me lúcido, dormitava. A noite plúmbea, que já se derramava sobre e debaixo das árvores das margens da Estrada Um, havia se debruçado sobre a minha alma, mas o dia não havia acabado e eu precisava cumprir o meu fado, ao lado de papai, deixando-me levar por ele, atento aos seus movimentos e humores, num trabalho de filho amoroso e testemunha fiel.

E foi num misto de cansaço e sonolência, já ansiando pela minha cama de hotel, que fui despertado pela visão de uma casa verde e branca, de madeira, construída no inconfundível estilo que os americanos criaram para as edificações de Belterra, na qual se podia ler: “Prefeitura Municipal de Belterra”, e, como subtítulo, um pomposo Palácio das Seringueiras.

Mas que “Palácio” era esse que se nos apresentava completamente desguarnecido. Cadê os guardas e sentinelas? Onde os serviçais? Onde os súditos? Estacionados em frente a casa, quedamo-nos olhando para ela e indecisos ficamos sobre o que fazer. Ora, não podíamos vir até Belterra sem conhecer o tal “Palácio” por dentro.

 "Palacio das Seringueiras" em Belterra

Descemos do carro e fomos subindo a tosca rampa cimentada, de apenas três metros, mas logo tivemos que interromper os passos, diante da porta estreitinha, de no máximo 1,20 metros de largura, que estava fechada. Cheguei a pensar em voltar para o carro, mas, ao olhar através do vidro, enxerguei um ponto escuro, em formato de bola, sobre o assento de uma cadeira, atrás da porta do Palácio.

Compreendendo o que significava aquele pontinho negro, papai olhou para mim com expressão interrogativa e bateu com os nós dos dedos sobre o vidro da porta, uma, duas, três, quatro, cinco vezes... e nada de o ponto escuro se mexer.

– Está ferrado no sono! – exclamou papai, voltando a bater no vidro, agora mais forte, fazendo com que a mancha redonda se abrisse, num zás de mola, e, num piscar de olhos, transformou-se num baita caboclo moreno e espigado, de olhos espichados, o qual, como que sem saber se estava dormindo ou acordado, esforçava-se para ficar de pé, na empertigada postura de guarda do patrimônio municipal.

Perto do vidro, vimos-lhe a cara desconfiada, antes de abrir a porta e sair ao nosso encontro.

– O que querem os senhores? – indagou, cordialmente.

Tinha a voz mansa, o guarda, e, aparentemente, não usava outra arma além de sua avantajada figura, mais para cortador de juta nas margens do Amazonas do que sentinela do “Palácio das Seringueiras”.

Apesar da estafa que se estampava no rosto de papai, este ainda teve ânimo para abrir um sorriso e falar:

– Será possível conhecermos as dependências do palácio e saudarmos o Rei e sua corte?

– A Rainha! – corrigiu o senhor guarda. – A Prefeitura é comandada por uma mulher – completou.

– Podemos falar com ela? – insistiu papai.

– Infelizmente, não será possível. A prefeita viajou para a capital e o expediente da Prefeitura se encerrou às 14 horas.

Assim foi que tivemos de nos contentar em tirar fotos ao lado do grande e bonachão guarda municipal.

(Continua no próximo capítulo)


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