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Choro por ti, Belterra! Capítulo dezessete

21/01/2016

Antes de voltarmos para o carro, que nos esperava na beira da estrada, caminhamos rumo a uma casinha de madeira, carcomida pelo tempo e pelo desleixo da Administração Pública – igual, aliás, a todas as casas construídas pelos americanos. Em tudo transparecia o abandono: mato crescendo pelo alambrado que servia de cercado, e, o que outrora já fora uma calçada não passava, agora, de um amontoado de cimento encoberto pelo terreno arenoso.

Todavia, apesar de seu lastimável estado, no prédio precário, conforme se podia ler na parede lateral, instalava-se a “Secretaria Municipal de Administração, Finanças e Planejamento da Prefeitura de Belterra”.

Com efeito, a maçaroca de fio elétrico no alto do poste-padrão de energia, fincado ao lado do prédio, denunciava com que zelo os funcionários da companhia de energia trabalham em Belterra.

Por sua vez, a ponta danificada do velho e musguento telhado fazia o prédio da Secretaria Municipal parecer-se com um velho e infeliz papagaio que tivesse quebrado o bico, a denunciar o esmerado serviço do Setor de Obras e Conservação do Patrimônio do município de Belterra.

Precario e lastimavel estado de um predio publico em Belterra

Outra coisa que logo me chamou a atenção foi a quantidade de logotipos e legendas pintados sobre as paredes do prédio. Além do brasão do município, podiam-se ver os símbolos da FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), da DED-Deutscher Entwicklungsdienst e até da União Europeia!!!

Tal mistura de nomes e entidades, como acontecia na minha juventude, quando em tudo que eu lia, via ou assistia procurava encontrar “o sentido oculto” das coisas, deixou-me intrigado. Mas procurei afastar as desconfianças – pois não podia esquecer que eu decidira nesse dia dedicar toda a minha atenção aos movimentos e emoções de meu pai. Todavia, o “pregador de verdades”, que a um bom tempo eu julgara morto dentro de mim, voltou a falar.

Falou-me do sofrimento das classes que trabalham. (Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre). Falou da injustiça de uns terem dinheiro e de outros terem fome, que não sei se é fome de comer ou se é fome da sobremesa alheia, fome de justiça ou fome de comer o que os corruptos e tiranos comem sem seus banquetes palacianos. Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se. Disse que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros! E que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles e que injustiça é como haver morte. Disse que ele nunca daria um passo para alterar aquilo a que chamam “a injustiça do mundo”. Mil passos que ele desse para isso seriam só mil passos. Disse, ainda: “Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda, e uma jaqueira não ter nascido pinheiro ou carvalho”. E me propôs um enigma: “Corte uma laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais. Para qual foste injusto? Tu, que as vais comer a ambas?”.

Tais pensamentos, porém, não me acalmaram. Eu não conseguia calar as perguntas que me vinham à mente: O que fazem os alemães em Belterra, deixando suas marcas num prédio público? Que parte poderá ter a defesa da cidadania com o descalabro da administração pública? E o que leva a União Europeia a pôr as suas impressões digitais num lugar esquecido como Belterra?

O “pregador de verdades”, agora pela boca do meu papai, que me olhava de um modo esquisito, falou-me: “Meu filho, não te martirizas com as coisas confusas. Para ti tudo tem um sentido velado. Há uma coisa oculta em cada coisa que vês. O que vês, vê-lo sempre para veres outra coisa”.

É verdade, pensei eu, sempre fui assim, mesmo agora. Mas, agora, graças a ter olhos para ver, vejo ausência de significação em todas as coisas. Vejo-o e gosto que seja assim, porque ser uma coisa é não significar nada. Ser uma coisa é não ser suscetível de interpretação.

“Filho”, falou meu pai, “procurar a verdade é procurar Deus. Isso é loucura! Porque Deus quis que não o conhecêssemos; por isso se nos não mostrou. Sejamos simples e calmos, como os fios d’água e igarapés, como lagos e árvores. E Deus nos amará fazendo de nós belos como as árvores e os córregos, e dar-nos-á verdor na primavera e um rio aonde iremos quando acabarmos... E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais seria tirar-nos mais”.

Desisti, então, de procurar a “verdade”. Deus estava muito longe para responder, e, aqui na Terra, parecia não haver ninguém a quem perguntar. O expediente daquele “prédio público”, conforme dissera o taciturno “fiscal de transporte”, terminara às 2 da tarde!

Voltamos então para o carro e deixei que este fosse deslizando lentamente pela Estrada Um rumo à sede da Prefeitura, a qual se situava no fim da Estrada Um, onde assistiríamos a um episódio ao mesmo tempo digno de pena e hilário.

(Continua no próximo capítulo)


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